O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

A honra de ser inseto

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Hélio Pellegrino

O mundo burguês, capitalista – mundo sem amor –, roído pelas insanáveis contradições que lhe são inerentes, vai sendo compelido a retirar de sua atmosfera espiritual os derradeiros vestígios de oxigênio vivificante, capazes de garantir a sobrevivência da pessoa humana. E, nesta medida, produz o tipo aberrante, Gregor Samsa, o protagonista de A Metamorfose, de Kafka, cuja asfixia progressiva acaba por transformá-lo em inseto. O gradativo enforcamento da pessoa, na figura do pequeno caixeiro-viajante, não se processa, contudo, impunemente. Há um momento em que o condenado estertora. Este estertor, como um clarão, é capaz, por instantes, de sacudir o mundo, de subverter os pilares da ordem e de lançar por terra a arrogância do bezerro de ouro, expondo a nudez de sua miséria.

Gregor Samsa, de repente, burlando os planos de seus algozes, se transforma num inseto. Sua metamorfose nos clarifica e comove, de maneira exemplar, por ser ela uma terrível denúncia, um grito de autenticidade em meio a um mundo inautêntico, incapaz pelo menos de ter consciência de sua hipocrisia. Gregor Samsa tomba vítima da ordem social burguesa que o anula, uma vez que – submisso até a abjeção – é radicalmente incapaz de lutar para transformá-la. A ordem familiar e social em que vive – e morre – assassinou sua fisionomia originária, triturou-lhe a liberdade, mastigou seus músculos e nervos, poluiu a graça de sua rosa e, por fim, vomitou-o, transmudado em inseto. Sobre seus ossos chupados, usufruídos, lucrados, a dura carapaça quitinosa-saliva sem remorso.

A grandeza da metamorfose de Gregor Samsa reside no fato de não ter ele podido ocultá-la, quer aos próprios olhos, quer aos olhos dos outros. Embora aprisionado em seu quarto – a família não o suportava em sua nova e repugnante condição –, Gregor Samsa conservou-se fiel à sua forma de inseto. Mortalmente atingido na mais íntima substância de sua humanidade, decaiu, extraviou-se e, assim envilecido e degradado, teve a coragem de confessar-se como tal.

Gregor Samsa é um alienado que, no ato de sê-lo, assume sua alienação e a esgota, exprimindo-a toda, ao mesmo tempo que desmascara as forças alienantes que o esmagam. Desta forma, Gregor Samsa é um alienado que se desaliena através da coragem de proclamar-se alienado, pagando o preço de sua alienação. Além disso, assumindo-se como vitimado, destruído, insetizado, revela o caixeiro-viajante uma vocação de integridade pessoal que, vulnerada em sua última raiz, deságua no desastre existencial. A desumanização de Gregor Samsa representa o soluço profundo de sua humanidade ferida e negada. Existe aqui uma contradição dialética que pode ser assim descrita: Gregor Samsa, sendo um produto alienado de uma sociedade alienante e alienada, ao mesmo tempo que encarna essa alienação, a denuncia, transcendendo-a no instante mesmo de sua decisão de encarná-la. Gregor Samsa não consegue viver como pessoa, numa estrutura social que nega a pessoa. E não o consegue justamente por ser uma pessoa, por ter a vocação da pessoa.

Ao transformar-se em inseto, Gregor Samsa assume, por um lado, e integralmente, a alienação a que a sociedade o compele. Ele mesmo se destrói como pessoa, aceitando o veredicto alienante do mundo metálico em que vive. Insetizar-se é alienar-se até a derradeira fibra do próprio ser personal. Mas, por outro lado, insetizar-se é dizer – BASTA! – a uma estrutura social que, alienando-nos, exige de nós que sejamos, não apenas alienados, mas totalmente insensíveis e inconscientes com respeito à distorção alienadora que nos impõe. Gregor Samsa, através de sua metamorfose, leva às últimas conseqüências a aberração alienadora que o deforma. Ele sai de si, sem apelo, transforma-se vivencialmente em inseto e, como tal, passa a existir numa comunidade de insetos existenciais que, alienando-se da própria alienação que os vitima, compram a este preço o direito de fingirem ser as pessoas que não são.

Gregor Samsa, com unha implacável, raspa a ferrugem dos hábitos psicológicos e sociais sob os quais jazia sepultado e, debaixo dela, aponta para o cadáver da pessoa sacrificada – inseto no assoalho. Por isso, por ter-se tornado exemplar no vigor de uma denúncia que a todos atinge, é ele estigmatizado, marginalizado pelos outros, que em torno dele estendem um cordão sanitário para torná-lo invisível. Gregor Samsa é expulso do contexto social em que vive exatamente por retratá-lo com fidelidade excessiva. A carga de verdade que carrega sobre sua carapaça de inseto é brutal e explosiva demais para que possam suportá-lo. Gregor Samsa, bandeira da inconsciência de todos, resumo da doença do mundo, foi crucificado em silêncio e, em silêncio, é enterrado vivo. Imperioso se torna evitá-lo, voltar-lhe as costas, já que ele representa, na carne, o pesadelo que os outros nem ao menos ousam sonhar.

Gregor Samsa, portanto, no mais alto ponto de sua doença existencial, ao perder a condição humana, consegue fazer desta perda uma desesperada afirmação de humanidade. Sua metamorfose decorre sob o signo da contradição e da espada. Ela é, ao mesmo tempo, perdição e fome de salvação, silêncio e protesto, cumplicidade enlouquecida e denúncia viril. Existe uma analogia, embora imperfeita e incompleta, entre o significado existencial da metamorfose de Gregor Samsa e a dialética da situação do proletariado, dentro da sociedade moderna.

O proletariado, gerado dentro das tripas da ordem capitalista, ao mesmo tempo que compõe a sociedade burguesa, como uma secreção dela, está à margem da burguesia e a transcende, constituindo-se na força desalienante por excelência, que irá lutar pela transformação humanizadora de todo o organismo social. O proletariado padece da alienação que lhe é imposta pela ordem capitalista, encarna-a, mas, ao tomar consciência dela, assume-a e passa a representar o seu contrário, isto é, um esforço social de desalienação. O proletariado, como classe, nega a negação que o vulnera e, com isto, representa o fator positivo por excelência de transformação do mundo.

A metamorfose de Gregor Samsa só não chega a simbolizar a degradação coisificadora – ou insetizadora – do proletariado, que a ela é condenado pelo regime capitalista por ser o caixeiro-viajante, em sentido etimológico, um desclassificado, desvinculado de qualquer classe, sem nenhuma possibilidade de fazer da consciência de sua alienação um instrumento de fraternidade e de esperança. Gregor Samsa, ao insetizar-se, comete um ato terrorista de desespero individual. Seu protesto, carente de dimensão comunitária, o torna definitivamente emparedado em si mesmo, sem mãos para encontrar o companheiro com o qual irmanar-se, numa luta compartilhada.

É esta a diferença essencial entre Gregor Samsa e o proletário, no regime capitalista. O primeiro é um terrorista cuja ação se esgota na explosão da bomba que o explode. Ao destruir-se, confessa o caixeiro-viajante sua impossibilidade de modificar o mundo. Ele o destrói, simbolicamente, através de sua própria destruição e, desta forma, proclama a impossibilidade radical de construir-se como pessoa, construindo ao mesmo tempo um mundo humano. Gregor Samsa encarna a desumanidade crua e bruta das forças alienantes que, no regime capitalista, atentam contra a dignidade da pessoa. Esmagado, denuncia este esmagamento e, através dele, testemunha o peso impiedoso da máquina que o achatou. Roubado de sua condição humana, revela, através da metamorfose que o vitima, o assassinato geral da pessoa, no mundo em que vivemos. Dá-se em espetáculo, como inseto, expõe cruamente sua abjeção, deixa que ela grite por si mesma. Às forças que o negam como pessoa, recusa-se ele, repentinamente, a obedecer – assumindo a negação que o nega.

Sua obediência ganha, entretanto, a forma contraditória de uma adesão ensandecida. Gregor Samsa desobedece por excesso de obediência. Submete-se, totalmente, às forças que o alienam e, ao afogar-se nelas, dá-lhes uma vitória de tal maneira radical que as desmascara e anula. Na medida emq eu se transforma em inseto, deixa o caixeiro-viajante de ser um escravo-coisa talhado à imagem e semelhança dos interesses do mercado capitalista. Tais interesses exigem da pessoa que se destrua em seu centro, sem, contudo, abrir mão de sua aparência de pessoa. O regime capitalista, para prosperar, precisa de insetos apenas simbólicos, de pessoas cuja metamorfose alienadora não chegue ao ponto de nelas se destruir, visceralmente, a mecânica da condição humana. Tal regime exige que sejam preservados os ritos formais da pessoa, embora a estes nada venha a corresponder de vivo, original e profundo. A pessoa tem que se manter utilizável e “livre” para dirigir-se, ao menos, até à fábrica, e lá mercadejar sua força de trabalho, conservando músculos e nervos que lhe permitam servir ao proprietário. Se esta margem de utilidade e de “liberdade” é respeitada, tudo o mais pode levar a breca.

A rebelião de Gregor Samsa consiste em que ele se transformou verdadeiramente num inseto e, com este ato de terrorismo, rompeu as regras do jogo social, destruindo-as por tê-las levado às últimas conseqüências. Ao transmudar-se em inseto, encarnando até a loucura as forças sociais que o alienavam, deixou o caixeiro-viajante de servi-las, para delas compor um retrato monstruoso e fiel. Gregor Samsa, até o momento de sua metamorfose, era uma pessoa que padecia de um câncer psicológico, social e existencial. A partir de sua transformação em inseto, passou a ser o próprio câncer, liquidou-se como pessoa para, através desse ato de desespero, desobedecer e acusar.

Gregor Samsa, desclassificado, marginalizado e solitário, cometeu um suicídio personal para, com isto, desmascarar o crônico homicídio institucionalizado de que vinha sendo vítima. De um tal homicídio tornara-se ele masoquisticamente co-responsável, na medida em que, anulado como pessoa, fazia deste anulamento consentido uma forma de melhor servir aos seus algozes. Ao converter-se em inseto, deixou Gregor Samsa de estar conivente com a ordem social e psicológica que o negava em sua pessoalidade, e o instrumento desta ruptura foi, exatamente, a aceitação radical da negação que o corrompia em sua essência.

Assumindo-se como inseto, responsabilizou-se o caixeiro-viajante por sua destruição pessoal, tomou dela consciência plena e dramática e, assim, foi capaz de transfigurá-la em decisão de combate. Antes da metamorfose, Gregor Samsa, apesar de existencialmente insetizado, conservava sua fachada de pessoa na justa medida para deixar-se explorar e usar. Ao transformar-se em inseto, publicou de maneira terrível sua condição de vítima e, desta forma, configurou e denunciou o crime longo e minucioso que contra ele se vinha cometendo. Pressionado cronicamente no sentido de sua insetização, Gregor Samsa, num instante crucial de escolha, decidiu não mais nadar contra a corrente, fingindo ser pessoa que não era apenas para cumprir, como cúmplice, o jogo humano e ambíguo ao qual se submetera. De repente, aceitou ser inseto – isto é, submergiu na corrente alienadora que o afogava – mas, ao mesmo tempo, transcendeu tal corrente, transformou-se carnalmente em inseto, sem valia nenhuma e sem nenhuma possibilidade de tornar-se, para quem quer que fosse, produtor de mais-valia.

Desistindo de ser pessoa, Gregor Samsa conseguiu fazer de sua capitulação esquizofrênica um derradeiro e grande grito de pessoa. Incapaz de se opor à falência existencial que lhe era imposta, resolveu a ela identificar-se e, de tal forma o fez, que essa identificação passou a significar luta, condenação, denúncia, protesto. Deixando de alienar-se de sua própria alienação, desfraldando-a toda para expô-la, Gregor Samsa acusou e desonrou as estruturas sociais que o destruíam, através de um pseudoconformismo ensandecido. Pela destruição de si, como pessoa, conseguiu uma última e desesperada afirmação de personalidade. Anarquista solitário e humílimo, desumanizou-se, sem remissão – através da metamorfose – para com este gesto terrorista desmascarar a inumanidade do mundo em que vivia – e em que vivemos.

Publicado no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, aos 9 de junho de 1968 – republicado pela editora Rocco, em livro, em 1988, uma coletânea de artigos seus escritos entre 1968 para a Imprensa  intitulado A Burrice do Demônio.

Written by Marcos M.

abril 14, 2017 at 10:12 am

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Floreando Generosidade

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Flor generosa

Quando teve início, no distante outubro de 2015, o projeto social Flor Generosa não passava de um desejo na mente inquieta de Carmen Couto- ou dona Carmen, para os íntimos. Mal sabia ela que, quase dois anos depois, esse mesmo desejo estaria pulverizado entre as pétalas de milhares de lírios, cravos e rosas, que vêm levando cores e sorrisos às vidas de muitas pessoas. O trabalho social liderado por ela tem uma missão nobre: transformar imponentes arranjos de festas em singelos buquês para serem levados a idosos residentes em casas de repouso. “O que me motiva? O amor”, diz a aposentada, de 67 anos, já com lágrimas nos olhos. Inspirada pela experiência que teve com o tratamento de saúde dos pais, ambos já falecidos, dona Carmen encontrou, nas flores, um caminho para levar aos outros o mesmo sorriso contagiante que ela própria carrega incansavelmente. No dia 02/04, portanto, é no Arpoador onde esse trabalho encontrará espaço para, mais uma vez, florear boas ações e transformá-las nos mais belos sorrisos.

A concepção do Flor Generosa, no entanto, não nasceu no Rio de Janeiro. A ideia é inspirada nas atividades desenvolvidas pelo Instituto Flor Gentil, de São Paulo, fundado pela florista e escritora Helena Lunardelli. Em outubro de 2015, ao entrar em contato com a instituição paulista, Carmen obteve autorização para levar adiante a versão carioca do trabalho que eles já vinham desenvolvendo com competência. Informaram-lhe, porém, que ela não poderia fazer uso do mesmo nome do Instituto, por questões burocráticas e administrativas. Surge, então, o Flor Generosa, com outro nome, mas uma mesma motivação- o afeto, hoje espalhado por mais de 3 mil buquês distribuídos durante esses quase dois anos.

À custa de muito trabalho, uma vez por mês, os voluntários são divididos em escalas que organizam as três etapas: a coleta das flores após as festas; a confecção dos buquês, pelos chamados artesãos; e por fim, a entrega nas instituições. É um trabalho que dura, aproximadamente, 13 horas seguidas, cujo início é na madrugada da noite anterior ao evento. No Dia das Boas Ações, não será diferente: a missão terá início na madrugada de sábado (01/04) para domingo (02/04), às 2h. Enquanto as pessoas celebram casamentos, bodas ou festas de 15 anos, uma equipe do Flor Generosa já estará a postos na porta das casas de festas, aguardando para fazer a retirada dos arranjos que poderão ser reaproveitados no dia seguinte. Carmen atribui ao pai, ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, e à mãe a força para levar as madrugadas viradas e as poucas horas de sono. “Meu pai era assim, sempre falava que a vitória iria chegar”. E, aos poucos, parece mesmo chegar.

O Parque Garota de Ipanema, no domingo, será o cenário perfeito para o início da segunda etapa do trabalho. Ali, onde mar, árvores e cidade se encontram, estarão reunidos os artesãos, responsáveis por (re)organizar os arranjos recolhidos e, com criatividade e boa vontade, transformá-los em lindos buquês. Desta vez, a entrega vai deixar a vida dos residentes na Casa São Luiz, no Caju, mais florida. Para Lídia Soares, voluntária de 67 anos e fiel ao projeto desde o início, esse é o momento mais gratificante. “Tenho problema? Tenho, mas tenho mãos. E o melhor pagamento é ver o sorriso dos idosos. É uma sensação deliciosa de amor”. Assim como a Lídia, há a Letícia, a Caroline, a Janaína, o Alan, a Luciana e tantos outros que trabalham- e trabalharão- para dar sempre o seu melhor.

“O primeiro buquê a gente nunca esquece”, diz Carmen ao soltar uma alta risada espirituosa. Dizendo-se muito orgulhosa do seu trabalho, ela explica que a luta pode ser árdua, mas que “é justamente esse negócio de me dizerem que é impossível que me dá mais vontade de fazer”. O Flor Generosa é um dos muitos projetos que, no dia 02 de abril, fará parte do Dia das Boas Ações, uma ação emblemática- e necessária- para os dias atuais. Reunidos, esses voluntários farão o que Drummond, grande poeta, tematizou anos atrás: do asfalto e das adversidades, fazem nascer uma linda flor. E, nas palavras de dona Helena, residente do lar Recanto do Idoso, trazer a todos uma vida mais perfumada.

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Matéria originalmente publicada pelo Atados Histórias, para divulgar o Dia das Boas Ações de 2017. O texto original você encontra aqui.

Written by Marcos M.

abril 1, 2017 at 8:01 am

O silêncio

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Quando a gente acorda pela manhã, nunca sabe se aquele dia será um dia marcante nas nossas vidas. O dia da morte de alguém. O dia de o término de um relacionamento. Ou do começo de um. O dia em que recebemos uma promoção no trabalho. Por mais que planejemos, por mais que tentemos mais do que tudo tomar as rédeas do destino, algo sempre nos escapa. Às vezes, a vida simplesmente acontece. E cabe a nós juntar as peças depois de o furacão passar. Foi assim semana passada com o Bruno, estudante de direito da PUC, recém-chegado à graduação. Eu não o conhecia, mas os relatos que vi de alunos e colegas que o conheciam e conviveram com ele me emocionaram profundamente. Eu me comovi pelo futuro que não foi. Eu me comovi com a mobilização espalhada pela universidade em um momento de luto. Eu me comovi ao tentar imaginar a inimaginável dor dos pais desse menino. Foi Chico, aliás, quem teve uma das melhores definições do que é saudade: saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu. Aos que ficam, portanto, resta a hercúlea tarefa de juntar as peças e de reunir forças para o recomeço. O dia acabou, a noite chegou. E a vida segue seu fluxo, com a correnteza de um rio que nos leva ao desconhecido. Por hora, até o amanhecer, fiquemos com o silêncio da madrugada.

Written by Marcos M.

março 29, 2017 at 9:02 pm

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Meryl Streep no Globo de Ouro

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Please sit down. Thank you. I love you all. You’ll have to forgive me. I’ve lost my voice in screaming and lamentation this weekend. And I have lost my mind sometime earlier this year, so I have to read.

Thank you, Hollywood Foreign Press. Just to pick up on what Hugh Laurie said: You and all of us in this room really belong to the most vilified segments in American society right now. Think about it: Hollywood, foreigners and the press.

But who are we, and what is Hollywood anyway? It’s just a bunch of people from other places. I was born and raised and educated in the public schools of New Jersey. Viola was born in a sharecropper’s cabin in South Carolina, came up in Central Falls, Rhode Island; Sarah Paulson was born in Florida, raised by a single mom in Brooklyn. Sarah Jessica Parker was one of seven or eight kids in Ohio. Amy Adams was born in Vicenza, Italy. And Natalie Portman was born in Jerusalem. Where are their birth certificates? And the beautiful Ruth Negga was born in Addis Ababa, Ethiopia, raised in London — no, in Ireland I do believe, and she’s here nominated for playing a girl in small-town Virginia.

Ryan Gosling, like all of the nicest people, is Canadian, and Dev Patel was born in Kenya, raised in London, and is here playing an Indian raised in Tasmania. So Hollywood is crawling with outsiders and foreigners. And if we kick them all out you’ll have nothing to watch but football and mixed martial arts, which are not the arts.

They gave me three seconds to say this, so: An actor’s only job is to enter the lives of people who are different from us, and let you feel what that feels like. And there were many, many, many powerful performances this year that did exactly that. Breathtaking, compassionate work.

But there was one performance this year that stunned me. It sank its hooks in my heart. Not because it was good; there was nothing good about it. But it was effective and it did its job. It made its intended audience laugh, and show their teeth. It was that moment when the person asking to sit in the most respected seat in our country imitated a disabled reporter. Someone he outranked in privilege, power and the capacity to fight back. It kind of broke my heart when I saw it, and I still can’t get it out of my head, because it wasn’t in a movie. It was real life. And this instinct to humiliate, when it’s modeled by someone in the public platform, by someone powerful, it filters down into everybody’s life, because it kinda gives permission for other people to do the same thing. Disrespect invites disrespect, violence incites violence. And when the powerful use their position to bully others we all lose. O.K., go on with it.

O.K., this brings me to the press. We need the principled press to hold power to account, to call him on the carpet for every outrage. That’s why our founders enshrined the press and its freedoms in the Constitution. So I only ask the famously well-heeled Hollywood Foreign Press and all of us in our community to join me in supporting the Committee to Protect Journalists, because we’re gonna need them going forward, and they’ll need us to safeguard the truth.

One more thing: Once, when I was standing around on the set one day, whining about something — you know we were gonna work through supper or the long hours or whatever, Tommy Lee Jones said to me, “Isn’t it such a privilege, Meryl, just to be an actor?” Yeah, it is, and we have to remind each other of the privilege and the responsibility of the act of empathy. We should all be proud of the work Hollywood honors here tonight.

As my friend, the dear departed Princess Leia, said to me once, take your broken heart, make it into art.

(08/01/2017)

Written by Marcos M.

janeiro 9, 2017 at 7:52 am

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A Hurbineck, com amor

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A coisa é séria e precisamos falar sobre assédio. Estou lendo A trégua, romance autobiográfico do genial Primo Levi. Em dado momento, ao relembrar o Horror que experimentara em Auschwitz, o autor nos apresenta ao menino de três anos Hurbineck, filho do campo, como diziam. Os pais eram desconhecidos e o menino não desenvolvera a fala- o próprio nome Hurbineck, inclusive, lhe foi dado pelos outros prisioneiros a partir de sons rudimentares que o pequeno produzia, quase grunhidos. Era o silêncio diante barbárie, o silêncio que nos consome a alma. Já em 1945, horas depois da libertação, com a tomada soviética, uma vez abertos os portões, Hurbineck cai morto, causa desconhecida- porém óbvia-, sem nunca ter conhecido a liberdade. A imagem do menino que já nascera preso toma conta de mim e, metaforicamente, me conduz a essas zonas do silêncio diante do inominável. Aí é que está e explico por que abri esse texto falando sobre assédio.
O espaço educacional é- e sempre foi-, pra mim, um lugar sagrado e pelo qual tenho um respeito imensurável. De verdade. No ensino básico ou superior, a experiência que se tem uma sala de aula é muito, mas muito mais profunda do que podemos pensar. Tanto que, certa vez, uma aluna chegou para mim e me disse ao final do ano letivo: obrigado por dar a minha voz de volta. Chorei um oceano à época e choro de novo ao me lembrar da cena. As palavras libertam. Infelizmente, nos tempos sombrios em que vivemos, dói ver a intolerância chegar às escolas e às universidades. E como dói. As instituições, cada vez mais nitidamente, são marcadas por um discurso de poder que descarta as minorias e corrobora padrões dominantes. O silenciar forçado dos inocentes me dói tanto quanto a ascensão totalitária do algoz. Isso, entendam bem, por parte tanto de alguns estudantes, como também por parte dos que se autodenominam educadores. Com o perdão da palavra, educador é outra coisa. Educador não se vira a uma colega de profissão e a chama de gostosa pelas costas. Educador não se refere a um homossexual como bichinha ou viadinho. Educador não propaga preconceitos sociais. Ou desmerece crenças religiosas. Ou, ou, ou. Nem os educadores, nem ninguém. Tudo em nome de um circo no qual ninguém se diverte. Vivemos um momento extremamente delicado, no qual, precisamos, sim, falar o óbvio. O problema é que a intolerância, sempre tão cheia de si, não quer papo. Ela é imperativamente fechada ao outro. Por isso, mais do que nunca, busquemos nos discursos de ódio tudo o que ele não quer: o diálogo. Gritemos, mas gritemos mesmo, lutemos e sigamos em frente. Hurbineck, meu caro, essa é pra você.

Written by Marcos M.

dezembro 9, 2016 at 11:40 am

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Tijuca

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A Praça Saens Peña, na Tijuca, é o epicentro do mundo. Ouso dizer que é a alma do bairro, aliás. É lá onde a vida pulsa da forma mais intensa e vibrante, ordenada pela perfeita sinfonia do caos. Atravessando ali pela famosa rua das flores- aliás, que símbolo maravilhoso uma ruela onde há todos os tipos de flores-, você dá de cara com todo esse furdunço: ambulantes anunciando novos produtos, pedestres passando como uma manada de rinocerontes pelos ônibus desenfreados, policiais a postos, velhinhos jogando dama diante de um chafariz que parou de funcionar nos anos 60. Lembro de, há muitos anos, passar por ali e ficar fascinado com a imponência dos cinemas que localizados bem na boca de onde fica o metrô. Hoje, os cinemas deram lugar a uma igreja universal e a uma farmácia, se não me engano. Tijucano tem alma tijucana e, apesar de tudo, defende seu território com unhas e dentes e só ele pode falar mal das inúmeras mazelas que tomam conta dali. Caminhando pela praça, subindo a Conde de Bonfim para a Usina, você encontra de um tudo: bancos, lojas populares e memória, muita memória. Passando pelo Tijuca Tênis Clube, ponto de encontro insubstituível da classe média tijucana, caminhei em direção à Muda, herança imaterial dos tempos áureos do bairro.
Foi nesse trajeto que me deparei com aquele sujeito intrigante, já com as marcas da rua em si, sentado na calçada, com uma caneta e com um caderno de anotações em mão. Era um senhor de idade desconhecida e de aura melancólica. Ao que parece, nem nome tinha. Possuía, sim, a atemporalidade de velhos sábios. Os olhos eram miúdos, mas convidavam a um mergulho profundo na alma enigmática de poeta. Observava. Escrevia. Vivia. O mendigo escritor me despertou a curiosidade de desvendar seus textos secretos e, aparentemente, impenetráveis. Parei durante alguns instantes e contemplei a rapidez com que a caneta deslizava pelo papel. Eventualmente, uma folha se desgarrou e se perdeu pelo vento, levando por aí as palavras que estavam presas naquele caderno. Mais adiante, passei por um papelaria e comprei um caderno novo para meu amigo desconhecido, mas, quando voltei para lhe entregar, ele não estava mais lá. Sumiu com a mesma rapidez que surgiu. Minha imaginação, mais uma vez, me pregando peças. Andei até meu destino com aquela imagem na cabeça, à espera do meu autor misterioso e de uma folha de papel solta pelo ar, dançando pelo vento, carregando mensagens de uma alma inquieta que aprendeu a buscar a poesia no olhar improvável do cotidiano. Ah, como eu amo a Tijuca…
(MM, dez/2016)

Written by Marcos M.

dezembro 4, 2016 at 6:42 pm

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As horas

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As horas é um filme de 2002, baseado no romance homônimo (muito bom, por sinal) do Michael Cunningham. Não preciso falar muito para vender o peixe do filme, afinal as protagonistas são apenas Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep, interpretando personagens que, apesar de estarem em momentos temporais distintos, têm suas vidas entrecruzadas. É um filme que fala da dor da existência e que nos faz confrontar com o abismo que há dentro de nós. Foi, inclusive, pela interpretação brilhante de Virginia Woolf que Nicole Kidman levou seu Oscar naquele ano. Ouso dizer, também, que o prêmio veio com esta cena. Quem determina ou não quem podemos verdadeiramente ser? Com a palavra, Virginia.

Written by Marcos M.

novembro 16, 2016 at 9:12 pm