O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Paris

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Aconteceu em Paris, num nem tão longo e nem tão tenebroso inverno. Acordei cedo e, quando saí do hotel na Rue Monge, bem ao lado do Jardin des Plantes, decidi andar em vez de pegar o metrô. Afinal, a melhor forma de conhecer uma cidade é largar os mapas e se perder mesmo no emaranhado de ruas entrelaçadas, mergulhando de cabeça nesse labirinto, muitas vezes, sem volta. Perder-se é a melhor forma de se encontrar.
Andei, andei, andei.
Dali a alguns quarteirões, às 9 da manhã, os primeiros flocos de neve começaram a cair. Ao meu redor, as pessoas corriam apressadas na direção de suas tarefas diárias. Atrasadas para o trabalho, para a aula, para a vida.
Parei e me perdi na multidão.
Segui em diante mais algumas esquinas, virei em algumas placas, ouvi o barulho do Sena.
De repente, assim como quem não quer nada, vejo surgir diante de mim, com toda a sua imponência a Notre Dame de Paris. Nossa bela dama.
Respirei fundo e parei alguns instantes para contemplar. Nesse meio tempo, vi turistas correndo com suas máquinas para tentarem registrar pra sempre um momento que jamais conseguiria ser capturado em um pedaço de papel, muito menos em uma tela.
Fechei os olhos e, até hoje, me lembro dos sons, do cheiro e sou levado àquela manhã branca e gélida do inverno europeu.
Tomei coragem, subi os 400 degraus até o alto da torre. Devagar e sempre; ao infinito e além. Lá de cima, conversando com minhas amigas gárgulas, elas me confidenciaram segredos da Paris de outras épocas e de outros homens. Lá do alto, o branco da neve se misturou com o tom pastel da cidade e eu me senti parte daquilo tudo. Era uma pintura.
Desci tragado de volta à realidade, pensando nas milhares de histórias que nos cercam. A neve seguia a cair, dando a tudo uma atmosfera mágica.
Lembrei-me de Quasímodo, de Jean Veljean, de Jesse e Celine- todos personagens que sempre fizeram parte do meu imaginário e que, de repente, estavam materializados ali bem diante dos meus olhos.
Segui andando. Não sei bem dizer se foram minutos ou horas, mas passei pela estação de Saint-Michel-Notre-Dame, fui em frente até a Pont Neuf, a tal dos cadeados.
Ali, encontrei o amor de que todos tanto falam. L’amour, toujours l’amour. Um típico casal prendia seu cadeado junto a tantos outros; percebi que eles se comunicavam pela linguagem de sinais. Do nada, uma vez prendido o cadeado, ele se ajoelhou e entregou uma aliança a ela, que começou a chorar muito. E eu junto, obviamente. Sequer os conheço, mas não importa.
Chorei pela alegria que transbordava do olhar de ambos.
Chorei pelos sentimentos que, às vezes, ultrapassam e dispensam as palavras.
Chorei, enfim, pelos breves momentos extraordinários que vêm de repente e que nos fazem perceber que a vida vale a pena.
Obrigado, Paris.
(MM, janeiro/2015)

Written by Marcos M.

April 12, 2015 at 6:46 pm

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Se nós fôssemos nós

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Era uma manhã fria de outono, quando as primeiras folhas das árvores caíam e marcavam a chegada de uma nova estação- desta vez, de temperaturas mais amenas. Morando no Rio de Janeiro, não dá para dizer que nosso inverno é tenebroso, mas a magia do outono é sempre fascinante e não há perfeição maior no casamento entre os tímidos raios de sol que saem logo cedo e a brisa fria que lhes faz companhia.
Eu estava andando pela Fonte da Saudade, preso nos meus próprios pensamentos, olhei para o relógio e vi que ainda tinha um certo tempo até minha sessão de análise. Decidi, então, caminhar até um café delicioso que fica perdido ali em uma daquelas ruelas perto da cobal do Humaitá. A cidade me dava bom-dia, à medida que meus passos lentos misturavam-se às folhas secas. Tornei-me o perfeito flaneur.
“Um expresso com creme, por favor”, decidi me dar o luxo. Peguei o livro que trouxera comigo e dei continuidade à leitura. Era uma coletânea de contos e crônicas de Clarice, livro amarelado que achei perdido em uma de minhas arrumações.
Coincidentemente ou intencionalmente, abri na página que me disse exatamente o que eu precisava ouvir.
“Se você fosse você, o que faria?”, nos joga Clarice para o nosso próprio abismo secreto e interior.
Quando me deitei no divã naquele dia, não sabia bem se era uma manhã de sensibilidade ou de suscetibilidade. Sei que parei para pensar em Escolhas.
É fácil pensar pelos outros, né.
“Ih, se eu fosse você, aceitava a vaga.”
“Olha, mas se eu fosse você, já tinha terminado esse namoro há muito tempo.”
“No seu lugar, eu largava tudo e ia viajar pelo mundo.”
Tudo muito bom, tudo muito bem.
A questão é: e quando nós temos que nos colocar no nosso próprio lugar?
É difícil e doloroso parar diante do espelho, arrumar a casa e mexer em feridas.
Se eu fosse eu?
Bem, se eu fosse eu, acho que…
Não, no fundo, isso é segredo.
Responder a essa pergunta é entrar no universo desconhecido e nos entender um pouco melhor. É brincar na corda bamba nesse ato perigoso de viver. É…
O relógio soou.
– Acabou a sessão, Marcos. Continuamos na próxima semana.

Written by Marcos M.

April 3, 2015 at 9:52 pm

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O Grito Mudo

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Morri no Rio de Janeiro ontem. Aliás, quem não morreu? Morri nas ruelas estreitas do Complexo do Alemão.
O anoitecer foi mais triste no dia 2 de abril e as panelas que, há alguns dias, ecoavam nervosas pelas varandas dos prédios emudeceram. As estrelas observavam silenciosas e a garoa fina que caía era como as lágrimas que escorrem timidamente de um rosto marcado pela dor.
Tudo era silêncio.
Nossa alma silenciou asfixiada pelo excesso de morte.
O Eduardo Jesus Ferreira tinha 10 anos.
Era filho da Terezinha Maria de Jesus, diarista de 40 anos.
Era estudante, gostava de jogar videogame e queria ser bombeiro.
Até que, de repente, o Eduardo bem sumiu diante dos nossos olhos, assim como tantos outros.
Tudo era silêncio.
Da escuridão, ecoou o tiro ensurdecedor que perfurou o ar e atingiu o Eduardo e a todos nós.
Morri naquela tarde do dia 2.
Morri, porque tenho medo da violência que toma conta da nossa cidade.
Morri, porque tentei imaginar a dor de uma mãe ao arrumar o quarto de um filho morto.
Morri, porque é triste ver uma sociedade perdendo a sua humanidade.
Morri, porque ainda luto pelos resquícios de uma infância perdida.
O que mais machuca nessa desumanização é o desconhecimento que ela tem dela mesma; diante do vazio reflexivo, o ser humano deixa de lado sua identificação com os seus próprios sonhos e, claro, com o outro.
E, meus amigos, é nesse instante, efêmero e eterno, que o ar esfria, o mar acalma e as vozes anoitecem. Nosso grito é mudo.
Tudo é silêncio.

Written by Marcos M.

April 3, 2015 at 9:51 pm

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Sobre Farkhunda e relativismo cultural

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I have been depressed for several days.

I am depressed that a defenseless woman was beaten to death by a mob of men.

I am depressed that her body was dragged and burned in the bed of a dry river.

I am depressed that her murder occurred outside a mosque.

I am depressed that the irony seems lost on her attackers.

I am depressed that the police was there and did little to stop the brutal, savage attack.

I am depressed imagining the grief of her family.

I am depressed that the attack did not happen in, say, a remote conservative village in southern Afghanistan but in Kabul, an urban city embodying what passes for progressive thought in Afghanistan.

I am depressed that the frothing at the mouth assailants were not terrorists or religious extremists, but ordinary, urban young man, some if not many of them educated, people with access to the Internet, people with the means to know better.

I am depressed that these are the same people that I have been publicly touting for several years now as the bright hope for the future of the country.

I am depressed that Farkhunda died for a crime she did not commit.

I am depressed that many people would see her death as justifiable if in fact she had done what she was accused of doing.

I am depressed at the legacy of violence in Afghanistan, at how heavy and exacting the toll of thirty plus years of war is proving to be.

Will Farkhunda’s murder be a turning point? Will lessons be learned? Will this be the moment when a critical mass of outrage is at last reached and people cry, Enough!

I hope so. I really do.

I am depressed that I don’t think so.

*
Depoimento do escritor Khaled Housseini sobre a morte de Farkhunda, uma afegã de 28 de anos, que foi falsamente acusada, linchada e incendiada no centro de Kabul por tentar se fazer ouvir. São deveras sombrios os nossos tempos, meus caros.

Written by Marcos M.

March 23, 2015 at 5:21 pm

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Sons do passado

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Chovia, chovia e chovia no Rio.
Às primeiras gotas de chuva, uma velha senhora estava parada diante da janela do prédio na esquina da Santa Clara com a Nossa Senhora de Copacabana.
Morava só, em um apartamento enorme, que trazia consigo o cheiro e a melancolia de outras épocas. Nas paredes, retratos empoeirados em branco e preto, carregando lembranças que se perdiam nas esquinas tortuosas do passado. No canto da sala, um piano silencioso.
Sentada em uma poltrona com um livro amarelado, parou e decidiu observar a rua.
As pessoas correndo, os carros buzinando, a vida acontecendo.
Naquele dia, acordara às 6h da manhã, tomara café e decidira se arrumar, como se fosse para um baile; unhas pintadas de vermelho, para “dar mais graça à vida”, costumava dizer.
Pensou nos filhos e sentiu saudades.
O que estariam fazendo agora? Estão tão longe…
Lembrou-se do marido falecido, fechou os olhos e deu um suspiro fundo como a alma.
Ainda de olhos cerrados, lutou contra a memória já falha, e imaginou uma época tão distante. Em um segundo, ouvia sons e cheiros materializados.
As crianças correndo de um lado para o outro da casa. O filho mais velho- e mais agitado- correndo depois de pegar o laço da boneca da irmã mais nova. O marido chegando do trabalho, enquanto as crianças passavam correndo pro suas pernas. A governanta anunciando que o jantar estava à mesa. As ceias de natal com todos reunidos.
Em um instante infinito, sons e cheiros se dissolveram insólitos no ar e ela foi trazida de volta ao presente, contemplando a chuva que, levemente, caía como as lágrimas tímidas que escorriam de seu rosto.
Levantou-se com um aperto no peito. A casa continuava vazia. E lá fora, a vida continuava acontecendo.
Foi em direção ao piano, acariciou-o e tocou, até que as primeiras notas rasgaram o ar, ecoando por toda a Copacabana.
Todos pararam para ouvir.
E para sonhar.

Written by Marcos M.

March 22, 2015 at 11:28 am

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Num dia de domingo

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Costumo dizer que as noites de domingo são como a última noite de um condenado à morte.
Não que, evidentemente, eu saiba na pele como se sente um condenado na sua última noite. Presumo, todavia, ser uma sensação parecida com esta que chega quando se aproximam as baladas da meia-noite, anunciando espalhafatosas o início de mais uma semana.
De manhã, tudo são flores. O acordar sem despertador, o café à mesa com a leitura dos jornais, o ouvir do despertar silencioso dos prédios ainda sonolentos, as lembranças de um sábado feliz.
À medida que o dia passa, somos arrebatados pela trágica melancolia do fim e, quando o sol se põe, a sádica segunda-feira está pronta para dar o ar da graça, com toda a dor que isso implica. Segundas são sempre azedas, que nem bala de tamarindo.
Para muitos, domingo é dia de almoço em família: mimos dos avós, zoeira com os primos, papos-cabeça com o tio.
Para outros, dia do futebol sagrado, no bar com os amigos.
Tantos outros, num dia de sol, aproveitam um passeio no calçadão ou um mergulho de mar para recarregar as energias.
São 19h e me pego parado com minha caneca de chá sentado diante da página em branco do computador, imaginando o que está à minha espera.
Segunda é recomeço. E é justamente isso que nos assusta.
Quando eu era pequeno, mudei de escola duas vezes e, naqueles domingos que antecederam o recomeço das aulas, eu preferia a guilhotina. “Mãe, tô passando mal, tô com febre, tuberculose! Cof, Cof!”, ardiloso como sempre. Um gênio do crime. Dona Luiza, internacionalmente conhecida como senhora minha mãe, já era profunda conhecedora das minhas manobras e me tacava um balde de água fria na cabeça, me botava no uniforme e me arrastava pra fora de casa. O Ice Bucket Challenge dos anos 80.
Descobri ali que a dor é inevitável e que, para toda segunda, sempre tem uma sexta que nos sorri de braços abertos, acolhedora, como uma deliciosa fatia de torta de limão.
O domingo acaba, o final de semana expira. Alunos voltam às aulas. Trabalhadores voltam ao trabalho.
É vida que segue.
Começo a semana já pensando na torta de limão. Que seja doce, meus amigos. Como sempre deveria ser.
Boa segunda a todos.

Written by Marcos M.

March 15, 2015 at 7:28 pm

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Santuário

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– Pode parar aqui, por favor, moço.
Desci do táxi ali na Praça Santos Dumont e optei por ir andando até o meu destino. Fazia sol naquela tarde de quarta-feira e, no meu caminho, tropecei com mães buscando seus filhos na escola e velhinhos trazendo o pão quentinho da padaria para o café da tarde.
Dei um breve sorriso e me lembrei da minha época de escola e de como era bom tomar o lanche da tarde na casa do meu avô, ali entre as árvores e a paz de um Grajaú esquecido pela minha memória empoeirada.
A buzina de um carro me trouxe de volta ao presente e eu me deparei com a entrada do Jardim.
É lá meu refúgio, meu santuário. Cresci entre as palmeiras da Alameda principal e para lá que eu vou quando o cotidiano me sufoca, como hoje.
Precisamos de momentos de reflexão a sós.
Aliás, a sós, não. Estamos dialogando com nós mesmos.
Aqueles bancos ali de frente para o Lago Frei Leandro são o meu divã pessoal. Meu encontro mais profundo comigo mesmo e com a vida pulsante ao meu redor.
É lá, também, onde se sentava Clarice, quando se sentida oprimida pela existência.
Pensei em Lóri, em GH, em Macabéa e em suas histórias.
No final das contas, somos todos histórias. Cabe a alguém decidir contá-las.
Em uma semana que me trouxe tantas notícias ruins, a brisa que passava tímida naquele fim de tarde pareceu fazer com que todos os problemas se dissipassem no ir e vir das folhas das árvores.
Parei para ouvir o silêncio ensurdecedor da sinfonia natural que me cercava.
Aos poucos, fui tentando colocar as ideias no lugar.
Aos poucos, fui me sentindo parte daquilo tudo.
Aos poucos, fui (re)começando a viver.

Written by Marcos M.

March 11, 2015 at 7:33 pm

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