O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Sobre a Coreia do Norte

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A polêmica envolvendo os vídeos do Fun For Louis descortinou um universo completamente novo e inóspito para mim. Assistam a este vídeo tão emocionante, quanto esclarecedor. Precisamos (urgentemente) falar sobre a Coreia do Norte.

Written by Marcos M.

agosto 22, 2016 at 10:15 am

E se os nossos fracassos também fossem transmitidos ao vivo?

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Por Antônio Prata. Folha de São Paulo, 14/8/2016

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A pessoa dedica a vida toda a nadar mais rápido, a saltar mais alto, a prensar as costas do oponente contra um tatame antes que o oponente prense as dela. Então, nos minutos ou segundos que a pessoa tem pra fazer valer o esforço de décadas, diante de bilhões de pessoas, ao vivo, em cores, às vezes quase pelada, a pessoa tropeça. Escorrega. Cai de bunda.

Como se não bastasse o maior revés profissional, talvez o maior baque existencial pelo qual já passou, logo depois, ainda arfante, ela encara as câmeras do mundo todo: “E aí? Perdeu o equilíbrio, a medalha escapou, que aconteceu?”, “Oitavo lugar, tempo pior que o do Pan, como você explica?”, “Muitos erros, não deu pódio, sua última Olimpíada, e agora?”.

Fico imaginando se nossos fracassos também fossem transmitidos ao vivo, pra metade do globo. “Estamos aqui com o Alberto Boucinhas, Alberto que tava encarando uma dieta Atkins, categoria acima de 150 quilos, e aí, Alberto? Vinha aí num ritmo bom, quatro semanas, tinha perdido quase dez, a Neide confiante, mas duas da manhã e você acaba de traçar um pote de napolitano com Nutella. Que que foi? Estresse? Muita pressão da Neide?”

“Uma palavrinha, Gláucia?! A Gláucia tá saindo da Fuvest, tá fazendo cursinho há três anos pra medicina, tava gabaritando os simulados, mas na hora do vamos ver errou até raiz quadrada de 4. E aí, Gláucia? Exausta, família decepcionada, três anos jogados fora, que que você sente numa hora dessa?”

“Henrique! Henrique! Um minutinho, por favor! O Henrique acaba de lançar seu primeiro romance, todo o mundo com muita expectativa, o Henrique largou a advocacia pra se dedicar à literatura, vendeu a casa, dez anos aí escrevendo essa história sobre um homem num quarto conversando com um criado-mudo que talvez só exista dentro da cabeça dele e… E as críticas não foram boas, né, Henrique? As vendas também não foram boas, parece que o seu projeto de vida não deu certo, né, Henrique? E agora? Vai tentar cavar uma Bienal do Livro? Uma Flip? Ou vai voltar pra advocacia?”

“Rafael! Que que aconteceu, rapaz? Entrou confiante na festa, começou pontuando na pista de dança, foi pra cozinha, chegou preciso na Juliana, beijou a Juliana na área de serviço, foi pra casa da Juliana, ela te aplicou um yukô no colchão, você levou pro waza-ari no carpete, mas na hora de finalizar…. A Juliana ainda tentou cooperar, mostrou entrosamento, bom trabalho manual, mas não teve jeito. Que que houve? Um apagão?”

“Arlindo, vem cá: 40 anos, duas falências, três casamentos frustrados, sem filhos, sem amigos, nome no Serasa, triglicérides lá em cima, careca, agora taí, bêbado, sentado na sarjeta, esperando a polícia pra fazer o bafômetro depois da batida. Parece que nessa vida não deu, né, Arlindo?”.

Arlindo solta um suspiro. Acende um cigarro. “Realmente. Eu tentei, aí, me esforcei bastante, mas fazer o quê? Tem uns que dão certo, outros não. Graças a Deus eu sou espírita, tá? Acredito em reencarnação, então é bola pra frente, é trabalhar aí pra tar limpando esse carma e torcer pra na próxima as coisas serem melhores!” “Taí com vocês o Arlindo, um dos últimos no ranking geral da existência, dando esse recado cheio de esperança pro Brasil!”

Written by Marcos M.

agosto 15, 2016 at 3:06 pm

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Sobre avó e netos

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Que cena mais linda: coxo de uma perna, estou aqui sentando no sofá enorme no kinoplex são luiz lendo meu livrinho e começo a ouvir de butuca a conversa de uma avó com as duas netas ao meu lado. A menor, Maria, clamava pela pipoca antes do cinema. Enquanto aguardavam o início da sessão, a avó decidiu contar a elas como havia conhecido o avô das meninas naquele mesmo cinema, anos e anos atrás, quando ela tinha 14 anos e ele, 15. Era um outro Rio, era um outro cinema, com “uma escadaria enorme”, nas palavras dela, onde ela e o então pretendente passavam as tardes de domingo. Daquelas tardes de domingo, viram os filhos, os netos. Veio o hoje. O tom doce empregado da senhora, já de cabelos grisalhos, me emocionou profundamente. Às vezes, quando menos esperamos, a vida nos proporciona esses encontros infinitamente poéticos. Fechei os olhos e escondi a lágrima discreta que escorria sem bem saber o porquê. Fingi que era do livro. Senhora, eu não a conheço, não sei o que aconteceu com o seu marido, mas queria lhe agradecer e poder lhe dizer que as suas netas são lindas e sua história me fez chorar. Muito, muito obrigado.
M.

Written by Marcos M.

agosto 11, 2016 at 3:30 pm

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O rato

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Sou fascinado pelo centro antigo do Rio. Andar ali por aquelas ruelas labirínticas de pedrinhas, entre sebos, ambulantes e história, é a representação mais palpável e melancólica da memória. No amanhecer efervescente, pessoas brotam como formigas das saídas do metrô ali na Praça Floriano, na Cinelândia. Homens e mulheres, com ternos caros e roupas de marca, atrasados para mais uma reunião inútil com debates inúteis. Muitas vezes, no entanto, se esquecem de parar e olhar ao redor e contemplar o prosaico. Afinal, diante da sinfonia do caos, é mesmo fácil de se perder. Nada melhor do que tirar uma tarde e ficar ali sentando num banco qualquer do Museu de Belas Artes: contemplando, sentindo, vivendo. Perdido em meus pensamentos, atravessei aqueles becos tão familiares e, ao mesmo tempo, tão estranhos em direção à imponente Livraria Cultura no antigo Cine Vitória. Chegando lá, logo ao atravessar, já me deparo com uma comoção na porta. Havia gritos e espanto. Quando dou por mim, entendo que tudo era motivado por um pequeno rato que estava à porta da livraria. Pensei que, se alguém tivesse uma flauta, poderia se inspirar no flautista de Hamelin e levar o bicho para uma terra distante, distante. Mas já era tarde para eu tentar salvá-lo. Ao ver o animal, assustado com a comoção ao seu redor, vi o grotesco: antes que fosse possível desviar o meu olhar, um funcionário qualquer corre como se estivesse em uma caçada selvagem e, num ímpeto bárbaro e selvagem, pisa no rato com a força sobre-humana. Tudo fez-se silêncio. Naquele momento, o sangue escorria, a multidão celebrava e, diante do horror de uma morte, a náusea tomou conta de mim. Aquele pobre rato, no final das contas, era eu.

Written by Marcos M.

julho 3, 2016 at 11:15 am

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Tempo

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Tempo. Há momentos na vida em que tudo o que queremos é mais tempo. 5 minutinhos após o despertador tocar. Mais alguns minutos em uma prova difícil. Mais de 24h no dia pra curtir as férias. Só mais alguns instantes com a pessoa amada. Quando crianças, não sacamos muito bem isso. Aos poucos, à medida que crescemos, vamos tomando consciência da areia escorregando pela ampulheta da vida e percebemos que lutar contra os ponteiros do relógio é a luta mais vã. Um dia, quando menos esperamos, nos damos conta de que os dias, as semanas, os meses e os anos avançam assim como vagas furiosas tragam os desatentos para o fundo do mar. Um dia, sem nem esperar, as crianças crescem, as cidades mudam, a vida passa e a ampulheta vira. Nesse instante, imploramos por mais um dia. Só mais um. Oferecemos nossa alma em troca. A todo momento, os ciclos da nossa existência se encerram e se iniciam. Às vezes, nessa mistura toda, passado, presente e futuro se fundem, levando-nos a novas perspectivas. Somos reflexos turvos de quem fomos e, ao mesmo tempo, sombras do que queremos ser. Às vezes, o tempo traz, sim, destruição, mas, consigo, traz também a chance de belos e inesperados recomeços. Afinal, o que existe é o agora, composto por infinitas possibilidades ao nosso redor. É tempo, então, de virar a ampulheta e de, finalmente, recomeçar.

(MM, maio de 2016)

Written by Marcos M.

junho 26, 2016 at 9:17 pm

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Kafka e a boneca viajante

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Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular.
Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca.
Kafka ofereceu ajuda para encontrar a boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar.
Nao tendo encontrado a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. A carta dizia : “Por favor, não chore por mim, parti numa viagem para ver o mundo.”
Durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina outras cartas que narravam as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo: Londres, Paris, Madagascar…
Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!
Esta história foi contada para alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra (Kafka e a Boneca Viajante) onde o escritor imagina como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka.
No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca.
Ela era obviamente diferente da boneca original.
Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”.
Anos depois, a garota encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta.

O bilhete dizia:

“Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.

Written by Marcos M.

maio 29, 2016 at 11:07 pm

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Tempo de recordar

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Há momentos na vida em que a palavra nos é usurpada. Quando tudo ao redor é silêncio, só resta sentir. Tenho andado assim nos últimos dias: recluso, emocionado e calado. Lembrei-me, não por coincidência, de um dos meus textos favoritos do maravilhoso Antônio Prata, chamado Recordação. Recordar é trazer de volta ao coração- cordis, em latim. No descrever de uma simples corrida de táxi, somos levados a uma profunda reflexão sobre as memórias que criamos e guardamos do nosso cotidiano. Nosso lar, por exemplo, é um espaço povoado de passado. É o nosso primeiro contato com o mundo. Neste momento, escrevo no quarto cujas paredes me viram crescer. Há fotos pelas paredes, caixas nos armários e histórias por todos os cantos. No corredor, por puro saudosismo, paro e vejo os retratos de aniversários, casamentos, viagens. Onde está o cotidiano nessas fotos? O café da manhã em família? O filme da TV domingo à noite? Tentei me lembrar da voz, das broncas, das últimas conversas. Hoje se tornaram ecos e borrões. É tempo, portanto, de recordarmos essas pequenas grandes coisas, para darmos valor ao que importa. A Felicidade, meus amigos, está aí. A vida é um frágil castelo de cartas que pode desmoronar a qualquer momento, por isso amem, sintam, vivam. A qualquer momento, tudo pode se desmanchar pelo ar.

*

Vemo-nos em breve, Jorge. Até logo.

Written by Marcos M.

maio 14, 2016 at 10:51 am

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