O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Tempo de recordar

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Há momentos na vida em que a palavra nos é usurpada. Quando tudo ao redor é silêncio, só resta sentir. Tenho andado assim nos últimos dias: recluso, emocionado e calado. Lembrei-me, não por coincidência, de um dos meus textos favoritos do maravilhoso Antônio Prata, chamado Recordação. Recordar é trazer de volta ao coração- cordis, em latim. No descrever de uma simples corrida de táxi, somos levados a uma profunda reflexão sobre as memórias que criamos e guardamos do nosso cotidiano. Nosso lar, por exemplo, é um espaço povoado de passado. É o nosso primeiro contato com o mundo. Neste momento, escrevo no quarto cujas paredes me viram crescer. Há fotos pelas paredes, caixas nos armários e histórias por todos os cantos. No corredor, por puro saudosismo, paro e vejo os retratos de aniversários, casamentos, viagens. Onde está o cotidiano nessas fotos? O café da manhã em família? O filme da TV domingo à noite? Tentei me lembrar da voz, das broncas, das últimas conversas. Hoje se tornaram ecos e borrões. É tempo, portanto, de recordarmos essas pequenas grandes coisas, para darmos valor ao que importa. A Felicidade, meus amigos, está aí. A vida é um frágil castelo de cartas que pode desmoronar a qualquer momento, por isso amem, sintam, vivam. A qualquer momento, tudo pode se desmanchar pelo ar.

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Vemo-nos em breve, Jorge. Até logo.

Written by Marcos M.

May 14, 2016 at 10:51 am

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Chuva permanente

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Mando um zap-zap para uma amiga que dias antes perdeu o pai. Como ela e a mãe estão indo? Responde que tudo agora parece muito estranho. Ocorre-me que é isto mesmo: uma perda torna irreal aquilo que antes nos era familiar. Afinal, o luto é o período durante o qual essa irrealidade vai lentamente se impondo como nova realidade.

Retrocedendo nos dias e anos, desapareceram na minha família ou no círculo de amizades: outro pai, um tio-avô, uma irmã, um marido, duas tias, cinco amigos… Por mais que o tempo passe, porém, não “cura” nada. Sempre restará algo de irreal nessas ausências. Paradoxo: elas continuarão presentes para todo o sempre. O nosso sempre.

Minha mãe morreu há mais de duas décadas, depois de quase dois meses lúcida numa CTI. Era relativamente jovem, 63 anos, sofria do coração. Até a internação, eu ligava para ela todos os dias, no final de tarde, começo de noite, que é quando os cadernos de Cultura costumam fechar. Vinte anos. Pois ainda hoje, após jornadas de trabalho muito intensas em casa, eu tenho o impulso de passar a mão no telefone para ouvir a sua voz (que luto para não esquecer). Quem sabe, numa realidade paralela, uma senhora franzina e silenciosa aguarde em vão uma ligação do filho.

Uma de minhas cunhadas morreu há cinco anos. Era ainda mais jovem, 40 anos, teve meningite. Morava no interior de Minas. Víamo-nos sempre que possível, logo sempre menos que o desejável. Só consegui retornar à sua cidade em outubro, para a festa de 75 anos de minha sogra. Saber que não encontraria minha cunhada antecipava um problema de difícil superação. Mesmo tendo ido a seu enterro, pareceu-me absurdo que ela não estivesse mais lá. Quem sabe, numa realidade paralela, uma moça bonita e engraçada aguarde a visita da irmã e do cunhado que moram no Rio.

Não diferencio os objetos de nossos amores — e, portanto, de nossos lutos — pela sua família animal. Um de meus gatos, uma fêmea siamesa, morreu no ano passado. Era idosa, tinha quase 19 anos, viveu o que tinha para viver, em boa forma até os meses finais. Enquanto estou em casa, sua ausência preenche todos os cantos. Está na poltrona arranhada do escritório, entre os travesseiros da cama do casal, na porta em que eu tamborilava para que saltasse. Ela só pode ter se escondido em algum lugar, a safada.

Quando escrevi sobre minha gata, recebi inúmeras mensagens de solidariedade e carinho. Numa delas, a leitora contava que, depois de perder um cão muito querido, tinha enorme dificuldade de subir da portaria para o apartamento e constatar que ele não estava lá — isso todo dia, todo dia, um pesadelo recorrente. Entendo. Voltar aqui para casa tem sido dar pela falta de um dos gatos. (Por enquanto, um.) Meus olhos a procuram pelos cômodos e, quando caio na real, uma bigorna se reinstala em meu peito.

Não é verdade que, como escreveu Nietzsche, “o que não nos mata nos torna mais fortes”, frase tão popular que serviu de epígrafe para o “Conan, o bárbaro” com Arnold Schwarzenegger. Em “Altos voos e quedas livres”, livro concluído por um ensaio sobre a morte da mulher, Julian Barnes rebateu o filósofo alemão: “Há muitas coisas que não nos matam, mas que nos enfraquecem para sempre”. Acho que, se tanto, tornam-se o metro pelo qual medimos outros sofrimentos. Lembro-me da avó que eu chamava de “minha gata”, a mãe de minha mãe: “Só não há remédio para a morte”.

Leio “1913 — antes da tempestade”, do historiador de arte alemão Florian Illies. É um almanaque culto, mês a mês, do ano que precedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Antes, em 1912, após ser traído por Fernande Olivier, Picasso tomara como amante Marcelle Humbert, a quem rebatizou de Eva Gouel. Refugiou-se com ela em Céret, nos Pireneus, para conseguir trabalhar. “Para Picasso, como sempre acontecia com o surgimento de uma nova amante, a vida e a arte transformaram-se por completo”, escreve Illies. O pintor passava do cubismo inicial, analítico, ao cubismo sintético.

Em março de 1913, Picasso e Eva estão de volta a Céret, mas as coisas não vão bem. O pai do pintor, José Ruiz y Blasco, que o ensinara a desenhar, está morrendo, em Barcelona. Eva também cai doente, com câncer. A cadela Frika agoniza. Quando o veterinário diz que não há mais nada a fazer, o pintor pede a um inspetor de caça que dê o tiro de misericórdia. “Até o final de sua vida. Picasso não esquecerá o nome do atirador — ‘El Ruquetó’ – e também o quanto ele chorou naqueles dias”, conta Illies. “O pai morto, o cão morto, a amante doente de morte e, lá fora, uma chuva permanente. Picasso enfrenta, na primavera de 1913, em Céret, sua maior crise psíquica”.

Na fase seguinte, o “cubismo de cristal”, destilaria uma geometria minimalista, quase abstrata. É tentador pensá-la como uma resposta às perdas acumuladas. Se meu chute tiver alguma validade, mais do que até então Picasso ensaiaria ali uma nova realidade alternativa, tentativa de replicar nos quadros a irrealidade dos lutos.

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Voltarei a “1913”.

Arthur Dapieve, O Globo, 6/5/2016

Written by Marcos M.

May 6, 2016 at 3:55 pm

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Meu domingo amanheceu com gosto de saudade. Era uma sexta-feira de sol quando eu caminhava por aquelas ruas que me eram tão familiares, mas que, claro, tinham sofrido com a ação do tempo. As árvores estavam floridas e, com uma leve brisa, trouxeram consigo o cheiro peculiar de tempos passados. Na esquina, há anos, ficava um baleiro já velho, me lembro bem. Ele, é claro, não estava mais ali, mas era como se ainda estivesse e eu o cumprimentei, comprando uma de suas balas. Despedi-me e, seguindo um pouco mais para frente, me vi diante do prédio que, em outros tempos, fora a escola onde passei parte da minha adolescência. De repente, estava com 12 anos de novo, parado na frente daqueles portões. Hoje, essas lembranças só existem na minha memória, uma vez que a escola fechou, a vida aconteceu e as pessoas que circulavam por ali se perderam por esquinas tortuosas. Fechei os olhos e me vi novamente subindo aquelas escadas de mármore que me levariam à sala de aula. Pude ouvir o som dos alunos chegando e as broncas afetuosas das inspetoras, além de sentir o cheiro de salgados recém-preparados na cantina. Certo dia, andando pelos fundos do prédio, subi uma escada que me levou à biblioteca. Assinei meu nome, sentindo o aroma peculiar dos livros antigos e fui recebido com um sorriso doce e simpático da senhorinha sentada por trás de uma máquina datilográfica- à espera da chegada do computador, dizia. Essa mesma senhorinha mudou minha vida e acabou se tornando uma grande amiga. Marlene era seu nome- ou Manene, para os íntimos. Ela me ensinou o amor pelos livros, afinal eram horas e horas transitando por aquelas linhas e por aquelas narrativas que me fascinavam. Há algumas semanas, depois de anos atrás de notícias, soube que Marlene nos deixou e foi contar histórias e causos divertidos em outras terras. Os anos já lhe pesavam. Esteja em paz, Manene. Prometo que, na segunda, devolvo o livro que peguei emprestado. Esqueci hoje, não fique brava. Espero subir aquelas escadas e reencontrá-la como me lembro: cabelo penteado e unhas sempre feitas, digitando fichas catalográficas. Só que, assim como a vida tira, ela traz. Caminhos que se bifurcaram em outrora se entrecruzam quando menos esperamos. O Marcos lá da sexta série cresceu e, agora, vive das palavras e para elas. O sinal tocava e, nas aulas de português, eu tentava ser o meu melhor. Poucas pessoas entendem a força dos vínculos que são criados em uma sala de aula e eu sei disso agora. Sabendo da minha timidez, quando tirei dez em uma avaliação, a professora chegou bem perto da minha carteira e disse que estava orgulhosa de mim. Ana Lúcia era séria, mas simpática, dona do estojo mais colorido e do sorriso mais tímido que já vi. No passado, estivemos juntos em sala durante três anos, mas nos perdemos e, assim como qualquer professor faz, ela largou minha mão e me deixou seguir pelo mundo, depois de ter me dado as ferramentas para construir minha própria história. A vida me deu o presente desse reencontro, da forma mais bela. As pontas e as gerações se ligaram. Quase 20 anos depois, o sorriso de Ana é o mesmo, assim como também deve ser o meu olhar de fascínio pelo mundo. Abro meus olhos, já de volta ao meu escritório, diante desta página que se preencheu quase que sozinha. Olhei pela janela, de onde tímidos raios pediam licença para entrar, e o balançar das árvores me levou de novo àquela época, me faz sentir o cheiro daquelas salas, daqueles livros e ouvir as vozes daquelas pessoas. Ouvi a voz de Marlene me cobrando livros atrasados, da Sônia falando para os alunos entrarem nas salas e da Aninha explicando período composto. Depois dessa viagem ao passado, percebi que minha alma estava mais leve. E, inexplicavelmente, com muita vontade de classificar orações.
– MM, maio/2016

Written by Marcos M.

May 1, 2016 at 12:17 pm

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As músicas de greyza

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Todos já sabemos que greyza meio que já deu o que tinha que dar. Não me xinguem, mas como recordar é viver, sempre é bom olhar pra trás e se lembrar daqueles episódios maravilhosos, nos quais sempre escorria aquela lagriminha no final. Choro esse, aliás, devido à impecável escolha das músicas. Era o máximo quando a tríade caso dia- narração ao fundo da Meredith- música funcionava. Bons tempos. Pra isso, esse site fez o favor de reunir as músicas mais emocionantes e em quais episódios foram usadas. Pega o lencinho e vem ouvir aqui.

Alguém me abraça.

izzie

Written by Marcos M.

April 25, 2016 at 11:25 am

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A palavra mais forte

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Dizer adeus é tarefa para poucos, uma das coisas mais difíceis que se pode fazer. Aliás, é uma palavra de uma força tão brutal que chega a ser impronunciável. Acho invejável a capacidade que muitos têm de colocar o ponto final em uma história e seguir adiante, revigorado e pronto para começar um novo capítulo. Despedidas não são para mim. Claro. Nasci nas entrelinhas. Gosto do dúbio, das reticências, do não dito que, em dado momento, nos sufoca e vem cobrar a conta. Por isso, escrever. Pelo caminho, já deixei incontáveis mensagens inacabadas, perdidas e esquecidas em espaços de cadernos, guardanapos ou e-mails não enviados. Aos poucos, fui descobrindo que, com a mesma facilidade que se entrecruzam, vidas se perdem ao longo da estrada. Todos temos nossos fantasmas de histórias que nos perseguem e, quando menos esperamos, ressurgem de um passado que se materializa em presente. Apesar delas, seguimos em frente. É assim que tem que ser. Depois de um tempo, percebe-se que o luto nos transforma. Para crescer, é preciso aprender a fechar algumas portas. E abrir outras. Para desapegar, é preciso buscar a leveza de um olhar despreocupado. Para dar adeus, é preciso saber amar. Afinal, só quem já amou sabe que, da morte, se chega à vida.
– MM, abril/2016

Written by Marcos M.

April 25, 2016 at 11:20 am

Da indiferença

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Primeiro vieram buscar os comunistas,
e eu não disse nada por não ser comunista.
Depois vieram buscar os socialistas,
e eu não disse nada por não ser socialista.
Então vieram buscar os sindicalistas,
e eu não disse nada por não ser sindicalista.
Em seguida, vieram buscar os judeus,
e eu não disse nada por não ser judeu.
Também vieram buscar os católicos
e eu não disse nada por não ser católico.
Então vieram me buscar,
e não havia ninguém para me defender.
 
– Martin Niemöller, na Alemanha nazista

Written by Marcos M.

April 18, 2016 at 6:34 pm

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Malala

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As lágrimas já vieram nos primeiros minutos. Por favor, assistam.

Written by Marcos M.

April 7, 2016 at 11:08 pm

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