O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

O que faz a vida valer a pena?

leave a comment »

O inglês tem uma expressão ótima: at the end of the day. Gosto muito dela. No português, acho que se aproxima mais do ‘no final das contas’. No final de um dia da sua vida, o que valeu a pena? Um dia, só um dia. Pensar nisso me ajuda a dar as devidas proporções a muitas coisas e a (re)significar tantas outras. Às vezes, um telefone muda tudo. Uma conversa. Uma proposta de um novo emprego. A demissão do antigo. O nascimento de alguém. A morte de uma pessoa amada. Tudo isso só em 24h. O tempo devora tudo pela frente, é inútil lutar contra ele. Às vezes, alguns momentos passam, a vida passa, sem nem nos darmos conta. E é justamente por isso que, constantemente, precisamos pensar para onde estamos canalizando as nossas tensões e a nossa angústia. Deixemos as banalidades inexpressivas de lado e tomemos ciência das pequenas grandes coisas que, realmente, dão sentido à existência. No final das contas, o que faz mesmo a vida valer a pena? No meu caso, eu diria minha família, meus amigos, meu gato, meus livros, meus alunos. E, claro, um pote de Nutella.

Anúncios

Written by Marcos M.

setembro 17, 2017 at 9:38 am

Publicado em Uncategorized

Blackbird

leave a comment »

Written by Marcos M.

setembro 3, 2017 at 10:29 am

Publicado em Uncategorized

Charlottesville

leave a comment »

Já chorei, já entrei em estado de suspensão reflexiva, já pensei e repensei e sigo sem conseguir formular algo mais complexo por enquanto. Vocês têm noção de que, em 2017, nós estamos discutindo a proliferação do neonazismo? Acho que muitos não têm a dimensão da seriedade disso. Não há memes ou piadismo em redes sociais que deem conta. É gravíssimo. É um retrocesso brutal sem precedentes, de questões, inclusive, que já se achavam minimamente superadas há algum tempo- não é o caso do nazismo, obviamente. Quando bloqueamos o processo reflexivo e não damos sentido a questões que devem ser pensadas, recalcamos um sentimento social que, inevitavelmente, virá à tona em algum momento, um ensinamento básico da psicanálise. O retorno do recalcado, em termos lacanianos, é muito sério, daí a ascensão iminente- e contínua historicamente- desses discursos. O que aconteceu em Charlottesville não é liberdade de expressão, como vi pessoas colocando. Não é. São crimes explícitos de ódio: homofobia, racismo, xenofobia. É repulsivo, na falta de outra palavra melhor. Ver brasileiros apoiando o que aconteceu em Charlottesville e resgatando falas neonazistas é mais repulsivo ainda. E, aliás, contraditório também. Afinal- optemos pela ironia-, acho que a raça ariana não vê os latinos com bons olhos, não é mesmo? É passada a hora de ressignificar esses processos, de dizer o indizível e de buscar, nas palavras, a nossa cura. Mãos à obra.

Written by Marcos M.

agosto 17, 2017 at 9:36 am

Publicado em Uncategorized

O pianista

leave a comment »

Certa vez conheci um pianista, desses dos grandes, sabe? Tinha enorme talento para as coisas de espírito, mas quase nenhum para as banalidades do homem. A alma questionadora era denunciada pelo olhar puro, mesmo que, por vezes, tentasse se camuflar. Sabia como ninguém impor leveza aos dedos que percorriam ávidos o piano em busca da próxima nota da partitura, mas já não tinha tanta destreza com as coisas do cotidiano burocrático. A alma lhe pesava- como, aliás, é peculiar aos sábios. E essa alma pesada lhe impunha novos ritmos, novos caminhos, novos horizontes. Tive a chance, ainda, de conhecer sua mãe, a figura mais graciosa que já pisou em solo terrestre. De baixa estatura, mas de generosidade estratosférica, era dona do coração militante mais tímido e profundo que já vi. Afinal, coração de mãe está em eterna militância pelos filhos e o dela nunca se deixou sufocar. Que honra que nossos caminhos tenham se cruzado. A eles, sou eternamente grato por preencher minha vida com luta, afeto e muitas melodias. A vocês, que sabem quem são, meu obrigado mais sincero.
Com muito amor,
M.

Written by Marcos M.

agosto 9, 2017 at 7:50 am

Publicado em Uncategorized

ABRALIC 2017

leave a comment »

Semana que vem, estarei na XV ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada), congresso que reune professores, pesquisadores e estudiosos brasileiros e estrangeiros na área da Literatura Comparada. A sede deste ano: a UERJ. A mesma UERJ que é cercada pela pulsão de morte todos os dias, tensionada por governantes abjetos e pela indiferença de tantos outros. A mesma UERJ que tenta resistir e onde a esperança há tempos está em falta pelos corredores e pelas rampas. A minha UERJ. E de muitos outros. Conversando com uma grande amiga, por quem tenho muita admiração, expressei o meu profundo desânimo da última semana em relação aos rumos sombrios do nosso país. “Júlia, como dar conta?”, perguntei quase chorando. Ela, sempre sábia, me envia um outro áudio, também de uma pessoa querida: “vamos segurar na resistência, fazer a sustentação da lucidez, da inteligência, do amor, das coisas que fazem sentido na vida. e seguimos juntos, fortes, firmes, corajosos… tem que ser”. O país acabou. É hora de pensar no que fazer daqui pra frente.
Lembrei-me da história da professora Mariuza, de 79 anos, aposentada. No começo do mês passado, não conseguiu pegar uma das cestas básicas doadas aos servidores do estado. Naquele momento, felizmente registrado em vídeo, Mariuza Conceição Apparecida cantou. Cantou como Billie Holiday, Nina Simone ou Ella Fitzgerald! Desabei de chorar. Quarta-feira, ela se apresenta na ABRALIC, no teatrão. Que a Literatura e que os debates da próxima semana sejam a nossa resistência e tragam, por fim, uma dose de pulsão de vida diante da morte. Com vocês, Mariuza:

Written by Marcos M.

agosto 5, 2017 at 9:19 am

Publicado em Uncategorized

Haja amizade

leave a comment »

Dizem por aí que hoje é dia do amigo. Tudo bem que a lógica da amizade ficou um pouco deturpada depois de as redes sociais terem facilitado a tal da síndrome de 1 milhão de amigos: adiciona, marca, bloqueia. Amizade é outra coisa. Muitos acham que amigo é aquele que tem que falar o que a gente quer ouvir. Nada disso, cara pálida. Amigo não é aquele que passa a mão na nossa cabeça. Ao contrário. Amigos nos instigam, nos provocam, nos inquietam. E também nos acalentam a alma, claro. Tenho a sorte de ter amizades de longa data, de tempos imemoriáveis. Amizade boa mesmo é aquela que, independentemente do tempo, já parece existir antes de mesmo ser, transpostas as barreiras espaciais e temporais.

Há os amigos de infância, que sabem todos os podres de quando brincávamos de pique no play ou tentávamos roubar nos jogos de tabuleiro. E essas histórias nos perseguem pela vida. Há amigos de colégio, que estão conosco nos primeiros flertes e que nos dão os ombros na primeira rejeição amorosa ou na primeira nota baixa em matemática; muitos se perdem ao longo da vida, mas preservam o doce sabor do passado. Há os amigos de faculdade, que, em muitos casos, se tornam amigos de bar. Hum. Há os de trabalho, que se reúnem no happy hour para falar mal do chefe. Há quem tenha, nos pais, os melhores amigos. Ou em um animal. Lampião, meu gato, foi um grande companheiro. Saudades, meu amigo. Aliás, sorte daqueles que, ao longo do caminho, entrecruzam suas trajetórias com alguém disposto a dividir o fardo das derrotas e os louros das vitórias. Haja camaradagem. Haja leveza. Haja amizade!

Written by Marcos M.

julho 20, 2017 at 12:14 pm

Publicado em Uncategorized

O álbum

leave a comment »

Foi de repente. Abri uma caixa velha, guardada lá nos recônditos do armário mais inacessível da casa e me deparei com inúmeros álbuns de fotografias. Aliás, taí um dos pequenos grandes prazeres que a geração Z jamais terá, junto com rebobinar VHS ou entrar uma linha cruzada no meio da ligação: revelar fotos e juntá-las em álbuns. Hoje vivem todos nas nuvens. Fotografias são fragmentos emoldurados do nosso passado, de festas, viagens e pessoas que ficaram para trás. Juntas, formam um mosaico já amarelado das nossas vidas e das histórias que escrevemos. A festa de formatura do C.A. O casamento dos seus pais. Aquela viagem para a Disney. A gente registra os grandes eventos, é claro. Mas a vida também se constrói nas pequenas coisas do cotidiano: o almoço de domingo, as primeiras palavras de um filho ou uma conversa informal e sonolenta no café da manhã. Aos poucos, pessoas e sentimentos transmutam-se no amálgama de nossa memória e, por vezes, se perdem nesse caldeirão. Nossa, lembra desse dia? Quem olha pra essa foto nem imagina o perrengue que foi pra chegarmos aí. Você estava tão linda nesse vestido, parece que foi ontem. Segui escavando pelos álbuns e vi uma foto com uma dedicatória do meu pai. Ao filho amado e estudioso Marcos, do velho pai. Senti saudades do meu pai. Senti saudades do que vivi, do que não vivi e da vida que não conseguiu ser capturada por todas aquelas imagens. Fechei os álbuns, guardei-os de volta no fundo do armário, como um tesouro escondido ou uma pérola no oceano. Olhando pela janela, respirei fundo e, inesperadamente, sorri.

(julho/2017)

Written by Marcos M.

julho 9, 2017 at 5:33 pm

Publicado em crônicas