O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Byung-Chul Han, uma utilidade pública

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Recentemente, descobri um filósofo contemporâneo sul-coreano pelo qual estou profundamente obcecado. É daqueles com quem você tem vontade de sentar, bater um papo e tomar um café. Genial. Depois de ler a sociedade do cansaço (fenomenal), terminei agonia do eros. Olha, faltam palavras. Para deixar registro e servir de utilidade pública, compartilho alguns dos meus grifos.

  • “A atopia do outro mostra ser a utopia do eros.” (p. 13)
  • “A sociedade do desempenho, dominada pelo poder, onde tudo é possível, não tem acesso ao amor enquanto vulneração e paixão’ (p. 29) chocado
  • “O eros é uma relação assimétrica com o outro” (p. 35)
  • “O capitalismo absolutiza o mero viver. O bem viver não é seu telos” (p. 44)
  • “O amor é absoluto, porque pressupõe a morte, a entrega de si-mesmo. A ‘verdadeira essência’ do amor consiste precisamente nisso, ‘renunciar a constância de si mesmo, esquecer-se num outro si-mesmo” (p. 47)
  • “O amor, enquanto conclusão absoluta, atravessa a morte. É bem verdade que morremos no outro, mas dessa morte surge um retorno a si mesmo” (p. 47)
  • “A crise atual da arte e também da literatura pode ser reduzida à crise da fantasia, ao desaparecimento do outro, ou seja, à agonia do eros” (p. 74)
  • “A ação política (…) tem relação direta com o eros. Ela apresenta uma fonte energética para o rebelar-se na política” (p. 78)
  • “O eros enerva o pensamento com a cupidez pelo outro atópico” (p. 93)

*

Conclusão disso tudo: Leiam Byung-Chul Han e vamos começar a distribuí-lo pelas ruas. Obrigado.

 

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Written by Marcos M.

junho 22, 2018 at 10:40 am

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Love, Virginia

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Dearest,

I feel certain I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don’t think two people could have been happier till this terrible disease came. I can’t fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can’t even write this properly. I can’t read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that – everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can’t go on spoiling your life any longer.

I don’t think two people could have been happier than we have been.

*

Esse é o bilhete de suicídio que Virginia Woolf deixou ao marido Leonard. Always the hours…

Written by Marcos M.

junho 21, 2018 at 11:03 pm

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Did you say it?

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“Did you say it? ‘I love you. I don’t ever wanna live without you. You changed my life.’ Did you say it? Make a plan. Set a goal. Work toward it. But every now and then look around. Drink it in. ‘Cause this is it. It might all be gone tomorrow.”

Written by Marcos M.

junho 12, 2018 at 9:19 pm

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Vozes de Tchernóbil

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Svetlana Aleksiévitch, vencedora no Nobel de Literatura de 2015, tornou-se uma das minhas escritoras favoritas. É forte, é humana, é visceral. Recentemente, terminei o incrível Vozes de Tchernóbil, no qual ela recolhe depoimentos daqueles que viveram o desastre nuclear de 1986. Não há palavras. Lá pelas tantas, uma das mulheres entrevistadas, cuja família inteira foi morta pela radiação, disse algo de uma força inexplicável. Sem marido e filhos, ela se questionou: “Por que amor e morte andam juntos? Estão sempre juntos. Alguém pode me explicar? Eu me arrasto sobre os túmulos de joelhos…”. Como seguir impune a essa declaração? Estou há dias pensando nela. O destino daqueles que amam é a morte, seja ela física ou simbólica. Ainda assim, aceitamos as condições desse pacto fáustico, entregamo-nos ao outro e amamos. É o preço que se paga. Aos poucos, com a maturidade, aprende-se a ter um pouco mais de cuidado com os afetos, mas essa está longe de ser uma tarefa simples. Até porque o outro assusta e intimida. Desarmar-se e, por fim, se abrir a essas trocas é um ato de coragem. É navegar por mares bravios, só que nem todos estão dispostos a isso. Quem sabe esse é o motivo para a imagem dessa mãe estar me assombrando tanto. Svetlana, diante do horror, consegue reunir essas múltiplas vozes e fazê-las ecoar pelas páginas de seu livro. Para escutá-las verdadeiramente, é preciso atenção e sensibilidade. Ouvir é uma arte, especialmente quando se busca ouvir o que têm a dizer aqueles que sabem o que é morrer de amor. Portanto, ouçamos e amemos. Essa é sempre a saída.

Written by Marcos M.

maio 31, 2018 at 4:29 pm

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Luto e Melancolia

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Nos meus estudos psicanalíticos, andei pensando muito em Luto e Melancolia, um dos meus textos favoritos de nosso amigo Freud. É primoroso. Logo no início, ele manda que “o luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”. É isso. Muitas vezes, ao perdermos algo (ou alguém), somos tomados pela mais profunda sensação de vazio e passamos a ser perseguidos por fantasmas que nos assombram dia após dia. É a angústia da sensação do que poderia ter sido, mas não foi. É a marca dolorosa de um “e se?” que nos corrói a alma e que, por vezes, nos paralisa. É, no fundo, a tentativa frustrada- e desesperada- de preencher esse mesmo vazio com algo que julgamos nos trazer algum tipo de conforto. Todos nós, em diferentes níveis, já enfrentamos o luto. Todos. No entanto, a questão mais importante impõe-se: como será que nos colocamos diante dessas árduas travessias? Afinal, elas quase sempre nos deixam marcas indeléveis. Vejam os traumas de relacionamentos, por exemplo. Há aqueles que, a partir de tantas e tantas experiências dolorosas, criam barreiras de proteção e se enclausuram para o mundo. Isolados em uma torre de marfim, tornam-se reféns do medo. Nada mais trágico, não acham? Eu tô com Nietzsche nessa: por vezes, é preciso abandonar as (pseudo)certezas da terra firme e se lançar às ondas revoltas de mares desconhecidos. Só assim é possível dar novos sentidos a nossas perdas, preenchendo e povoando o vazio que sentimos com riqueza simbólica, e não com alienação ou autodestruição. Viver é muito perigoso, já nos ensinou Riobaldo na sua travessia pelas pequenas grandes veredas do sertão. Mas a dor que mais dói não é aquela que vem junto com o trauma do que se viveu. Ao contrário. No final de tudo, a dor que mais dói é aquela que vem no exato instante em que nos damos conta de que vivemos uma vida de ilusão e que, na verdade, perdemos o que nunca tivemos. Aí o castelo de cartas desmora de vez e só resta o silêncio.

Written by Marcos M.

maio 6, 2018 at 8:20 am

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Para Berlim, com amor

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A memória é uma coisa muito louca mesmo. Às vezes, basta um cheiro, um som, uma imagem e, involuntariamente, somos deslocados no tempo e no espaço para um outro momento; para um passado perdido do qual sequer sabíamos que nos lembrávamos. Foi assim hoje. Vi uma foto de Berlim, da minha amada Berlim, e bastou isso para me lembrar do cheiro do pão matinal na estação da Mohrenstrasse a caminho da aula, das caminhadas flanando pela Unter den Linden, das tardes na ilha dos museus ou das horas perdidas na Dussmann da Friedrichstrasse. Berlim é minha cidade, é meu lugar no mundo, mas me falta a coragem de voltar, mesmo que para visitar. Afinal, só eu sei o que vivi ali. É uma cidade para os fortes, pois ainda traz expostas as cicatrizes do passado pelas suas ruas. Ela não se desvela para qualquer um, porque é um local condenado para sempre a jamais ser e a ter que lidar com os seus próprios vazios. Reconstruiu-se à sombra do signo da destruição. Mas se reconstruiu. Lá, passado e presente fundem-se em um só, mostrando que nossas experiências sempre- sempre!- estão inscritas em nós e nos deixam marcas indeléveis. São essas mesmas experiências que vêm à tona quando menos esperamos e que nos invadem com uma força brutal, sem nem pedir licença. Pensei nisso hoje. Basta um bolo com gosto de casa de vó, uma música que lembre a presença de alguém ou uma imagem que nos faça viajar de novo e pronto. Memória é coisa séria e precisa ser preservada, tal qual uma pérola resguardada em sua concha. Na vida, precisamos recordar, relembrar e ressignificar, para, finalmente, seguir em frente. É isso. Bis bald, Berlin. Vemo-nos por aí.

Written by Marcos M.

abril 30, 2018 at 5:44 pm

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Precisa-se de artistas

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A cada dia, um novo retrocesso. É impressionante. Agora é a proposta do governo de extinguir a exigência de registro profissional de artista (DRT), desregulamentando a profissão e, claro, os direitos daqueles que dão a cara a tapa e que vivem da Arte neste país. O cenário não poderia ser pior. De uns tempos pra cá, por exemplo, o critério para muitas escalações de elenco tem sido número de seguidores nas redes sociais, creiam. É assombroso, meus amigos. Se bem que, na Educação, não está muito diferente. O que mais tem é picareta por aí e gente sem diploma dando aula, fazendo o maior sucesso. Na área de Português e Redação, tenho vergonha- e nojo- de ter que chamar de colegas de profissão aqueles que não querem ensinar o aluno a escrever, e sim a decorar fórmulas prontas e receitas decoradas de um texto (supostamente) exemplar. Bando de fraude. Em qualquer contexto, principalmente em épocas de opressão, a escrita e a arte libertam. Ou deveriam libertar. A resistência vem delas e com elas. Tentar emudecer os alunos, roubando-lhes a autonomia crítica,  e apagar as luzes dos palcos é algo criminoso! Aos colegas artistas, meu apoio incondicional está com vocês. Lutemos.

Written by Marcos M.

abril 5, 2018 at 12:50 pm

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