O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Sobre Farkhunda e relativismo cultural

leave a comment »

I have been depressed for several days.

I am depressed that a defenseless woman was beaten to death by a mob of men.

I am depressed that her body was dragged and burned in the bed of a dry river.

I am depressed that her murder occurred outside a mosque.

I am depressed that the irony seems lost on her attackers.

I am depressed that the police was there and did little to stop the brutal, savage attack.

I am depressed imagining the grief of her family.

I am depressed that the attack did not happen in, say, a remote conservative village in southern Afghanistan but in Kabul, an urban city embodying what passes for progressive thought in Afghanistan.

I am depressed that the frothing at the mouth assailants were not terrorists or religious extremists, but ordinary, urban young man, some if not many of them educated, people with access to the Internet, people with the means to know better.

I am depressed that these are the same people that I have been publicly touting for several years now as the bright hope for the future of the country.

I am depressed that Farkhunda died for a crime she did not commit.

I am depressed that many people would see her death as justifiable if in fact she had done what she was accused of doing.

I am depressed at the legacy of violence in Afghanistan, at how heavy and exacting the toll of thirty plus years of war is proving to be.

Will Farkhunda’s murder be a turning point? Will lessons be learned? Will this be the moment when a critical mass of outrage is at last reached and people cry, Enough!

I hope so. I really do.

I am depressed that I don’t think so.

*
Depoimento do escritor Khaled Housseini sobre a morte de Farkhunda, uma afegã de 28 de anos, que foi falsamente acusada, linchada e incendiada no centro de Kabul por tentar se fazer ouvir. São deveras sombrios os nossos tempos, meus caros.

Written by Marcos M.

March 23, 2015 at 5:21 pm

Posted in Uncategorized

Sons do passado

leave a comment »

Chovia, chovia e chovia no Rio.
Às primeiras gotas de chuva, uma velha senhora estava parada diante da janela do prédio na esquina da Santa Clara com a Nossa Senhora de Copacabana.
Morava só, em um apartamento enorme, que trazia consigo o cheiro e a melancolia de outras épocas. Nas paredes, retratos empoeirados em branco e preto, carregando lembranças que se perdiam nas esquinas tortuosas do passado. No canto da sala, um piano silencioso.
Sentada em uma poltrona com um livro amarelado, parou e decidiu observar a rua.
As pessoas correndo, os carros buzinando, a vida acontecendo.
Naquele dia, acordara às 6h da manhã, tomara café e decidira se arrumar, como se fosse para um baile; unhas pintadas de vermelho, para “dar mais graça à vida”, costumava dizer.
Pensou nos filhos e sentiu saudades.
O que estariam fazendo agora? Estão tão longe…
Lembrou-se do marido falecido, fechou os olhos e deu um suspiro fundo como a alma.
Ainda de olhos cerrados, lutou contra a memória já falha, e imaginou uma época tão distante. Em um segundo, ouvia sons e cheiros materializados.
As crianças correndo de um lado para o outro da casa. O filho mais velho- e mais agitado- correndo depois de pegar o laço da boneca da irmã mais nova. O marido chegando do trabalho, enquanto as crianças passavam correndo pro suas pernas. A governanta anunciando que o jantar estava à mesa. As ceias de natal com todos reunidos.
Em um instante infinito, sons e cheiros se dissolveram insólitos no ar e ela foi trazida de volta ao presente, contemplando a chuva que, levemente, caía como as lágrimas tímidas que escorriam de seu rosto.
Levantou-se com um aperto no peito. A casa continuava vazia. E lá fora, a vida continuava acontecendo.
Foi em direção ao piano, acariciou-o e tocou, até que as primeiras notas rasgaram o ar, ecoando por toda a Copacabana.
Todos pararam para ouvir.
E para sonhar.

Written by Marcos M.

March 22, 2015 at 11:28 am

Posted in Uncategorized

Num dia de domingo

leave a comment »

Costumo dizer que as noites de domingo são como a última noite de um condenado à morte.
Não que, evidentemente, eu saiba na pele como se sente um condenado na sua última noite. Presumo, todavia, ser uma sensação parecida com esta que chega quando se aproximam as baladas da meia-noite, anunciando espalhafatosas o início de mais uma semana.
De manhã, tudo são flores. O acordar sem despertador, o café à mesa com a leitura dos jornais, o ouvir do despertar silencioso dos prédios ainda sonolentos, as lembranças de um sábado feliz.
À medida que o dia passa, somos arrebatados pela trágica melancolia do fim e, quando o sol se põe, a sádica segunda-feira está pronta para dar o ar da graça, com toda a dor que isso implica. Segundas são sempre azedas, que nem bala de tamarindo.
Para muitos, domingo é dia de almoço em família: mimos dos avós, zoeira com os primos, papos-cabeça com o tio.
Para outros, dia do futebol sagrado, no bar com os amigos.
Tantos outros, num dia de sol, aproveitam um passeio no calçadão ou um mergulho de mar para recarregar as energias.
São 19h e me pego parado com minha caneca de chá sentado diante da página em branco do computador, imaginando o que está à minha espera.
Segunda é recomeço. E é justamente isso que nos assusta.
Quando eu era pequeno, mudei de escola duas vezes e, naqueles domingos que antecederam o recomeço das aulas, eu preferia a guilhotina. “Mãe, tô passando mal, tô com febre, tuberculose! Cof, Cof!”, ardiloso como sempre. Um gênio do crime. Dona Luiza, internacionalmente conhecida como senhora minha mãe, já era profunda conhecedora das minhas manobras e me tacava um balde de água fria na cabeça, me botava no uniforme e me arrastava pra fora de casa. O Ice Bucket Challenge dos anos 80.
Descobri ali que a dor é inevitável e que, para toda segunda, sempre tem uma sexta que nos sorri de braços abertos, acolhedora, como uma deliciosa fatia de torta de limão.
O domingo acaba, o final de semana expira. Alunos voltam às aulas. Trabalhadores voltam ao trabalho.
É vida que segue.
Começo a semana já pensando na torta de limão. Que seja doce, meus amigos. Como sempre deveria ser.
Boa segunda a todos.

Written by Marcos M.

March 15, 2015 at 7:28 pm

Posted in Uncategorized

Santuário

leave a comment »

- Pode parar aqui, por favor, moço.
Desci do táxi ali na Praça Santos Dumont e optei por ir andando até o meu destino. Fazia sol naquela tarde de quarta-feira e, no meu caminho, tropecei com mães buscando seus filhos na escola e velhinhos trazendo o pão quentinho da padaria para o café da tarde.
Dei um breve sorriso e me lembrei da minha época de escola e de como era bom tomar o lanche da tarde na casa do meu avô, ali entre as árvores e a paz de um Grajaú esquecido pela minha memória empoeirada.
A buzina de um carro me trouxe de volta ao presente e eu me deparei com a entrada do Jardim.
É lá meu refúgio, meu santuário. Cresci entre as palmeiras da Alameda principal e para lá que eu vou quando o cotidiano me sufoca, como hoje.
Precisamos de momentos de reflexão a sós.
Aliás, a sós, não. Estamos dialogando com nós mesmos.
Aqueles bancos ali de frente para o Lago Frei Leandro são o meu divã pessoal. Meu encontro mais profundo comigo mesmo e com a vida pulsante ao meu redor.
É lá, também, onde se sentava Clarice, quando se sentida oprimida pela existência.
Pensei em Lóri, em GH, em Macabéa e em suas histórias.
No final das contas, somos todos histórias. Cabe a alguém decidir contá-las.
Em uma semana que me trouxe tantas notícias ruins, a brisa que passava tímida naquele fim de tarde pareceu fazer com que todos os problemas se dissipassem no ir e vir das folhas das árvores.
Parei para ouvir o silêncio ensurdecedor da sinfonia natural que me cercava.
Aos poucos, fui tentando colocar as ideias no lugar.
Aos poucos, fui me sentindo parte daquilo tudo.
Aos poucos, fui (re)começando a viver.

Written by Marcos M.

March 11, 2015 at 7:33 pm

Posted in Uncategorized

Todo carnaval tem seu fim…

leave a comment »

Ainda bem!

Written by Marcos M.

February 16, 2015 at 11:44 am

No abismo prateado

leave a comment »

Com certo atraso, acabo de assistir ao incrível O Abismo Prateado, filme de 2011, com uma atuação primorosa da Alessandra Negrini.
O filme fala sobre o fim de um casamento, mas, acima de tudo, fala sobre a dor. Por telefone, o marido liga para a personagem da Alessandra Negrini e fala que ela o consome e que ambos afundariam em um abismo, caso continuassem juntos. “Eu não te amo mais. Eu não te amo mais. Eu não te amo mais”, repete ele enfaticamente três vezes. São punhaladas seguidas no peito de uma esposa cujo maior crime era amar.
Desnorteada, essa mulher se perde na madrugada carioca, completamente perdida. Busca conforto nas ondas do mar de Copacabana, nas ruas, no Santo Dumont, atrás de um voo para ir ao encontro do marido. Um reencontro que nunca acontece.
Volta e meia, a vida nos puxa o tapete. Do nada, o caos vem como um tufão que chega sem pedir licença e sem aviso prévio. Volta e meia, o inesperado acontece, para medir nossa capacidade de lidar com um cotidiano enfadonho.
Ao longo de 1h30m, prevalece o silêncio. Quase não há diálogos no filme, só o barulho da cidade, a antítese perfeita para o calar dessa mulher perdida em si mesma.
Viva Alessandra Negrini! Viva o cinema nacional!

Written by Marcos M.

February 11, 2015 at 8:17 pm

O silenciar das vozes

leave a comment »

Uma das cenas mais marcantes para mim está em um filme chamado Hotel Ruanda, já viram? Lá pelas tantas, um grupo extremista invade a casa do personagem principal, com a brutalidade de um tufão que passa sem deixar vestígios, faz ajoelharem duas irmãs e manda a mãe escolher qual das duas ela quer deixar viver. Se não escolher, ambas morrem.
“ESCOLHA!”, eles vociferam.
A mãe, aos prantos, se joga ao chão, implorando clemência, até que tudo se fez silêncio.
Aquele tiro me acertou.
Uma realidade que parece, para muitos, estar restrita a cenas em filmes está, na verdade, batendo à porta de nossas casas, invadindo também sem pedir licença.
Recentemente, tenho me sentido assim.
O ódio estampa as notícias nos noticiários internacionais, nossos olhares se voltam à tragédia na França, mas negligenciam o terror na Nigéria.
Das 276 nigerianas sequestradas pelo Boko Haram no ano passado, apenas 50 escaparam, enquanto as outras continuam desaparecidas. 226 mulheres, escravizadas e torturadas. As cenas estão aí, é só procurar: mães indo às ruas, implorando para terem suas filhas de volta. “Bring back our girls”, dizem os cartazes escritos com lágrimas, revolta e esperança.
Mais assustador ainda é ver uma mulher-bomba com 10 anos de idade. Menina-bomba.
Dizem que o massacre da última semana matou 2 mil pessoas. O governo, em documento oficial, reporta apenas 150 mortos. Não importa. O pragmatismo, que tenta sempre quantificar a barbárie em números e em estatísticas, faz com que percamos de vista a marca humana. Como dói.
Na tradição africana, os griots são ancestrais contadores e cantadores de histórias passadas. No seu canto triste, ecoam as vozes daqueles que nunca foram ouvidos.
Nessas semanas, assim como o silêncio anterior ao tiro que matou as irmãs no filme, eu também tenho silenciado.
Pelo Charlie Hebdo.
Pela França.
Pelas pessoas que não entendem que preconceito não é liberdade de expressão.
Pela África esquecida por todos nós.
Às vezes, meus amigos, quando as palavras nos faltam, quando as bombas cessam e os tiros deixam de ecoar, é preciso ouvir o silêncio que diz muito.
Calemos.
Lutemos.

Written by Marcos M.

January 16, 2015 at 9:14 am

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.