O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Um ensino doente

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Vamos bater um papo rápido sobre saúde mental nas escolas e nas universidades? Falo com autoridade de causa, quando digo que as instituições de ensino básico e superior, hoje, são capazes de adoecer os que circulam por elas: alunos, professores e todos os demais funcionários. Nunca vi tantos alunos medicados. Nunca vi tantos colegas professores tomados pelo espectro depressivo. Na busca frenética por produzir máquinas do saber, perde-se a perspectiva humana, tão cara- e necessária- ao processo pedagógico. Foucault já nos ensinou (muito bem) isso lá atrás. É claro que muitos tentam jogar a poeira para debaixo do tapete, justificando os meios pelos fins e criando um simulacro de perfeição e de idealização, no qual a engrenagem gira na mais perfeita ordem. Pura ilusão. Enquanto não pararmos para ouvir nossos alunos, devolver a eles as palavras que lhes vêm sendo usurpadas e fazer com que a sensibilidade se sobreponha à brutalidade, todos saímos perdendo. De bruto já basta o nosso mundo, concordam? Sejamos a flor que nasce do asfalto, como nos ensinou Drummond. Sejamos, pois, a resistência.

Written by Marcos M.

maio 27, 2017 at 10:25 pm

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Mãe

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Estive, recentemente, em uma casa de repouso no Grajaú, onde conheci a dona Helena. Já com os seus 80 anos, era uma senhora linda, linda, dos olhos azuis como os cristais mais preciosos. Entreguei a ela um singelo buquê de flores e ela, tomada pela emoção, desejou que minha vida fosse sempre perfumada. Muito comovida, mostrou-me à cabeceira um retrato amarelado do filho, que disse ser parecido comigo. Não achei tanta semelhança, mas, naquele momento, talvez eu fosse mesmo o filho que ela gostaria de ter ao seu lado. Agradeci, tentando segurar as lágrimas, dei-lhe um longo beijo na testa e fui embora. A imagem dela, no entanto, permaneceu comigo.
Hoje, dia das mães, por algum motivo, lembrei-me de dona Helena e de seu olhar. Afinal, olhar de mãe é diferente de qualquer outro, basta pensar no exato momento em que uma mãe toma o filho aos braços pela primeira vez. Na fragilidade, o acolhimento. No choro, o doce enxugar das lágrimas. No colo, a expressão máxima do amor.
Mãe é isso; vai sempre desejar o bem para os filhos. É tarefa pra toda a vida.
É aquela que sempre acha que está frio e pede pra você levar um casaco.
É aquela que acha que você não está se alimentando e preparada um banquete pra viagem.
É aquela que liga inúmeras vezes, pra saber como foi o seu dia.
É aquela que chora em silêncio com as suas derrotas.
E vibra com as suas vitórias.
É aquela que acha que você está sempre com febre, mesmo não estando.
É aquela que repete os mesmos conselhos que, por idiotice, insistimos em não ouvir.
É quem segurava a nossa mão para atravessar a rua. E atravessar a vida.
Só que chega um momento da vida em que somos nós, filhos, que temos que segurar a mão dos nossos pais, para ajudá-los a atravessar a rua. E lembrá-los do que esqueceram. E ligar para saber como eles passaram o dia. E retribuir o colo que nos foi dado. A ampulheta gira e percebemos o quão importantes são os beijos, os abraços e os eu te amo, mesmo que ditos apenas com a leveza de um olhar, de um gesto ou de uma flor. A todas as mães do meu facebook, de primeira viagem ou já mais experientes, deixo o mesmo beijo que dei em dona Helena e faço os mesmos votos: que tenhamos todos uma vida mais perfumada. Feliz dia das mães.
*
À Luiza, pelo amor desta e de outras vidas.

Written by Marcos M.

maio 14, 2017 at 10:31 am

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525.600 minutos

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É reflexo da nossa época acelerada achar que o tempo está passando mais rápido. Nossa, estou sem tempo. Queria um dia com mais horas. Há quando tempo eu não te vejo. Tempo. Tempo. Tempo. A duas semanas do meu aniversário, olho pra trás e vejo que loucura foi este último ano da minha vida. 1 ano. 12 meses. 52 semanas. 365 dias. Mais precisamente: 525.600 minutos. Parafraseando uma peça de que gosto bastante, lanço a pergunta: como você mede um ano da sua vida? Em dores, risadas, viagens ou copos de café? Às vezes, um ano passa e nem dos damos conta. Presos no trabalho ou na correria caótica que nos é imposta, mal percebemos que verão vira outono, que vira inverno, que renasce na primavera, que aquece de novo no verão. Trágico isso.
Nos últimos 12 meses, passei por experiências que mudaram a minha vida como nunca imaginei. Ouvi, li e escrevi muitas histórias; conheci muitas pessoas; encerrei alguns ciclos; recomecei outros tantos. Mantive mais o pé no chão e não viajei longas distâncias, dei algumas risadas, chorei a dor de perder alguém e bebi muito café. A vida é assim e vai se escrevendo- e inscrevendo em nós-, à medida que temos a coragem de autoafirmar o nosso desejo e abandonar a terra firme, mergulhando no mar revolto das incertezas. Às vésperas de soprar as velas de mais um ano, proponho que repensemos nossa relação com o avançar incontrolável dos dias, das horas, dos minutos. Desaceleremos. É quase hora de apagar as luzes, cantar parabéns e de fazer um pedido. Deixo-o aqui: transformemos cada um desses 525.600 minutos em novos recomeços, com mais risos, menos lágrimas e muitas outras histórias. E, claro, baldes de café.
– maio/2017

Written by Marcos M.

maio 13, 2017 at 10:55 am

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O escritor

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Dráuzio Varella

Folha de São Paulo, 13/05/2017

Passei dois anos escrevendo o livro que acabo de terminar. A tarefa não foi realizada em tempo integral, mas nos momentos livres que ainda me restam.

Há escritores que precisam de silêncio, solidão e ambiente adequado para a prática do ofício. Se fosse esperar por essas condições teria demorado 20 anos para publicá-lo, tempo de vida de que não disponho, infelizmente.

Por força da necessidade, aprendi a escrever em qualquer lugar em que haja espaço para sentar com o computador.

Por exemplo, nas salas de embarque durante as viagens de bate-e-volta que sou obrigado a fazer. Consigo me concentrar apesar das vozes esganiçadas que anunciam os voos, os atrasos, as trocas de portões, a ordem nas filas, os nomes dos retardatários.

Os avisos vêm aos berros como se fossem destinados a uma horda de deficientes auditivos; mal termina um, começa outro. Suspeito de uma conspiração das companhias aéreas contra a integridade dos tímpanos dos passageiros.

Embora com dificuldade, sou capaz de escrever no meio daqueles idiotas que xingam as secretárias pelo celular, alguns dos quais o fazem andando nervosamente de um lado para outro, com a intenção declarada de atazanar o maior número possível de circunstantes.

São executivos de terno que empregam adjetivos fortes: incompetente, burra, ignorante. Escutei um deles dizer: “Contratei você para cumprir ordens, se fosse para pensar escolhia outra pessoa”. Nunca os ouvi chegar perto desse tom ao falar com o chefe, ocasiões identificáveis pela voz melosa e submissa.

Mal o avião levanta voo, puxo a mesinha e abro o computador. Estou nas nuvens, às portas do paraíso celestial. O telefone não vai tocar, ninguém me cobrará o texto que prometi, a presença na palestra para a qual fui convidado, os e-mails atrasados, nenhum ser humano me pedirá para apoiar um projeto e não descobrirei que me incluíram num grupo de WhatsApp em que os 300 participantes dão bom dia uns aos outros.

Já escrevi por 13 horas consecutivas num voo de volta da Ásia. Num retorno de Salvador, escrevi uma coluna como esta sentado na primeira fila, ao lado de um bebê com dor de ouvido que chorou sem dar um minuto de trégua. Só ficou quietinho, quando o comandante anunciou que o pouso em Guarulhos fora autorizado.

Minha carreira de escritor começou com “Estação Carandiru”, publicado quando eu tinha 56 anos. Foi tão grande o prazer de contar aquelas histórias, que senti ódio de mim mesmo por ter vivido meio século sem escrever livros.

A dificuldade vinha da timidez e da autocrítica. Para mim, o que eu escrevesse seria fatalmente comparado com Machado de Assis, Gógol, Faulkner, Joyce, Pushkin, Turgenev, Dante Alighieri. Depois do que disseram esses e outros gênios, que livro valeria a pena ser escrito?

A resposta encontrei em “On Writing”, que reúne entrevistas e textos de Ernest Hemingway sobre o ato de escrever. Em conversa com um estudante, Hemingway diz que ao escritor de nossos tempos cabem duas alternativas: escrever melhor do que os grandes mestres já falecidos ou contar histórias que nunca foram contadas.

De fato, se eu escrevesse melhor do que Machado de Assis, poderia recriar personagens como Dom Casmurro ou descrever com mais poesia o olhar de ressaca de Capitu.

Restava a outra alternativa: a vida numa cadeia com mais de 7.000 presidiários, na cidade de São Paulo, nas últimas décadas do século 20, não poderia ser descrita por Tchékhov, Homero ou pelo padre Antonio Vieira. O médico que atendia pacientes no Carandiru havia dez anos era quem reunia as condições para fazê-lo.

Seguindo o mesmo critério, publiquei outros livros. Às cotoveladas, a literatura abriu espaço em minha agenda. Há escritores talentosos que se queixam dos tormentos e da angústia inerentes ao processo de criação. Não é o meu caso, escrever só me traz alegria.

Diante da tela do computador, fico atrás das palavras, encontro algumas, apago outras, corrijo, leio e releio até sentir que o texto está pronto. Às vezes, ficou melhor do que eu imaginava. Nesse momento sou invadido por uma sensação de felicidade plena que vai e volta por vários dias.

Written by Marcos M.

maio 13, 2017 at 10:04 am

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A solução do amor

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“Este é o maior desafio: suportar o defeito e comparecermos na vida do outro como um complemento para aquilo em que o outro vai falhar. Eventualmente, todos nós passamos por essa experiência. Não há nada mais gratificante do que, eventualmente, a pessoa que nós amamos ser protegida por nós.”

Valter Hugo Mãe, seja em livros ou palestras, tem o dom de falar com a nossa alma.

Written by Marcos M.

abril 29, 2017 at 7:48 am

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A honra de ser inseto

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Hélio Pellegrino

O mundo burguês, capitalista – mundo sem amor –, roído pelas insanáveis contradições que lhe são inerentes, vai sendo compelido a retirar de sua atmosfera espiritual os derradeiros vestígios de oxigênio vivificante, capazes de garantir a sobrevivência da pessoa humana. E, nesta medida, produz o tipo aberrante, Gregor Samsa, o protagonista de A Metamorfose, de Kafka, cuja asfixia progressiva acaba por transformá-lo em inseto. O gradativo enforcamento da pessoa, na figura do pequeno caixeiro-viajante, não se processa, contudo, impunemente. Há um momento em que o condenado estertora. Este estertor, como um clarão, é capaz, por instantes, de sacudir o mundo, de subverter os pilares da ordem e de lançar por terra a arrogância do bezerro de ouro, expondo a nudez de sua miséria.

Gregor Samsa, de repente, burlando os planos de seus algozes, se transforma num inseto. Sua metamorfose nos clarifica e comove, de maneira exemplar, por ser ela uma terrível denúncia, um grito de autenticidade em meio a um mundo inautêntico, incapaz pelo menos de ter consciência de sua hipocrisia. Gregor Samsa tomba vítima da ordem social burguesa que o anula, uma vez que – submisso até a abjeção – é radicalmente incapaz de lutar para transformá-la. A ordem familiar e social em que vive – e morre – assassinou sua fisionomia originária, triturou-lhe a liberdade, mastigou seus músculos e nervos, poluiu a graça de sua rosa e, por fim, vomitou-o, transmudado em inseto. Sobre seus ossos chupados, usufruídos, lucrados, a dura carapaça quitinosa-saliva sem remorso.

A grandeza da metamorfose de Gregor Samsa reside no fato de não ter ele podido ocultá-la, quer aos próprios olhos, quer aos olhos dos outros. Embora aprisionado em seu quarto – a família não o suportava em sua nova e repugnante condição –, Gregor Samsa conservou-se fiel à sua forma de inseto. Mortalmente atingido na mais íntima substância de sua humanidade, decaiu, extraviou-se e, assim envilecido e degradado, teve a coragem de confessar-se como tal.

Gregor Samsa é um alienado que, no ato de sê-lo, assume sua alienação e a esgota, exprimindo-a toda, ao mesmo tempo que desmascara as forças alienantes que o esmagam. Desta forma, Gregor Samsa é um alienado que se desaliena através da coragem de proclamar-se alienado, pagando o preço de sua alienação. Além disso, assumindo-se como vitimado, destruído, insetizado, revela o caixeiro-viajante uma vocação de integridade pessoal que, vulnerada em sua última raiz, deságua no desastre existencial. A desumanização de Gregor Samsa representa o soluço profundo de sua humanidade ferida e negada. Existe aqui uma contradição dialética que pode ser assim descrita: Gregor Samsa, sendo um produto alienado de uma sociedade alienante e alienada, ao mesmo tempo que encarna essa alienação, a denuncia, transcendendo-a no instante mesmo de sua decisão de encarná-la. Gregor Samsa não consegue viver como pessoa, numa estrutura social que nega a pessoa. E não o consegue justamente por ser uma pessoa, por ter a vocação da pessoa.

Ao transformar-se em inseto, Gregor Samsa assume, por um lado, e integralmente, a alienação a que a sociedade o compele. Ele mesmo se destrói como pessoa, aceitando o veredicto alienante do mundo metálico em que vive. Insetizar-se é alienar-se até a derradeira fibra do próprio ser personal. Mas, por outro lado, insetizar-se é dizer – BASTA! – a uma estrutura social que, alienando-nos, exige de nós que sejamos, não apenas alienados, mas totalmente insensíveis e inconscientes com respeito à distorção alienadora que nos impõe. Gregor Samsa, através de sua metamorfose, leva às últimas conseqüências a aberração alienadora que o deforma. Ele sai de si, sem apelo, transforma-se vivencialmente em inseto e, como tal, passa a existir numa comunidade de insetos existenciais que, alienando-se da própria alienação que os vitima, compram a este preço o direito de fingirem ser as pessoas que não são.

Gregor Samsa, com unha implacável, raspa a ferrugem dos hábitos psicológicos e sociais sob os quais jazia sepultado e, debaixo dela, aponta para o cadáver da pessoa sacrificada – inseto no assoalho. Por isso, por ter-se tornado exemplar no vigor de uma denúncia que a todos atinge, é ele estigmatizado, marginalizado pelos outros, que em torno dele estendem um cordão sanitário para torná-lo invisível. Gregor Samsa é expulso do contexto social em que vive exatamente por retratá-lo com fidelidade excessiva. A carga de verdade que carrega sobre sua carapaça de inseto é brutal e explosiva demais para que possam suportá-lo. Gregor Samsa, bandeira da inconsciência de todos, resumo da doença do mundo, foi crucificado em silêncio e, em silêncio, é enterrado vivo. Imperioso se torna evitá-lo, voltar-lhe as costas, já que ele representa, na carne, o pesadelo que os outros nem ao menos ousam sonhar.

Gregor Samsa, portanto, no mais alto ponto de sua doença existencial, ao perder a condição humana, consegue fazer desta perda uma desesperada afirmação de humanidade. Sua metamorfose decorre sob o signo da contradição e da espada. Ela é, ao mesmo tempo, perdição e fome de salvação, silêncio e protesto, cumplicidade enlouquecida e denúncia viril. Existe uma analogia, embora imperfeita e incompleta, entre o significado existencial da metamorfose de Gregor Samsa e a dialética da situação do proletariado, dentro da sociedade moderna.

O proletariado, gerado dentro das tripas da ordem capitalista, ao mesmo tempo que compõe a sociedade burguesa, como uma secreção dela, está à margem da burguesia e a transcende, constituindo-se na força desalienante por excelência, que irá lutar pela transformação humanizadora de todo o organismo social. O proletariado padece da alienação que lhe é imposta pela ordem capitalista, encarna-a, mas, ao tomar consciência dela, assume-a e passa a representar o seu contrário, isto é, um esforço social de desalienação. O proletariado, como classe, nega a negação que o vulnera e, com isto, representa o fator positivo por excelência de transformação do mundo.

A metamorfose de Gregor Samsa só não chega a simbolizar a degradação coisificadora – ou insetizadora – do proletariado, que a ela é condenado pelo regime capitalista por ser o caixeiro-viajante, em sentido etimológico, um desclassificado, desvinculado de qualquer classe, sem nenhuma possibilidade de fazer da consciência de sua alienação um instrumento de fraternidade e de esperança. Gregor Samsa, ao insetizar-se, comete um ato terrorista de desespero individual. Seu protesto, carente de dimensão comunitária, o torna definitivamente emparedado em si mesmo, sem mãos para encontrar o companheiro com o qual irmanar-se, numa luta compartilhada.

É esta a diferença essencial entre Gregor Samsa e o proletário, no regime capitalista. O primeiro é um terrorista cuja ação se esgota na explosão da bomba que o explode. Ao destruir-se, confessa o caixeiro-viajante sua impossibilidade de modificar o mundo. Ele o destrói, simbolicamente, através de sua própria destruição e, desta forma, proclama a impossibilidade radical de construir-se como pessoa, construindo ao mesmo tempo um mundo humano. Gregor Samsa encarna a desumanidade crua e bruta das forças alienantes que, no regime capitalista, atentam contra a dignidade da pessoa. Esmagado, denuncia este esmagamento e, através dele, testemunha o peso impiedoso da máquina que o achatou. Roubado de sua condição humana, revela, através da metamorfose que o vitima, o assassinato geral da pessoa, no mundo em que vivemos. Dá-se em espetáculo, como inseto, expõe cruamente sua abjeção, deixa que ela grite por si mesma. Às forças que o negam como pessoa, recusa-se ele, repentinamente, a obedecer – assumindo a negação que o nega.

Sua obediência ganha, entretanto, a forma contraditória de uma adesão ensandecida. Gregor Samsa desobedece por excesso de obediência. Submete-se, totalmente, às forças que o alienam e, ao afogar-se nelas, dá-lhes uma vitória de tal maneira radical que as desmascara e anula. Na medida emq eu se transforma em inseto, deixa o caixeiro-viajante de ser um escravo-coisa talhado à imagem e semelhança dos interesses do mercado capitalista. Tais interesses exigem da pessoa que se destrua em seu centro, sem, contudo, abrir mão de sua aparência de pessoa. O regime capitalista, para prosperar, precisa de insetos apenas simbólicos, de pessoas cuja metamorfose alienadora não chegue ao ponto de nelas se destruir, visceralmente, a mecânica da condição humana. Tal regime exige que sejam preservados os ritos formais da pessoa, embora a estes nada venha a corresponder de vivo, original e profundo. A pessoa tem que se manter utilizável e “livre” para dirigir-se, ao menos, até à fábrica, e lá mercadejar sua força de trabalho, conservando músculos e nervos que lhe permitam servir ao proprietário. Se esta margem de utilidade e de “liberdade” é respeitada, tudo o mais pode levar a breca.

A rebelião de Gregor Samsa consiste em que ele se transformou verdadeiramente num inseto e, com este ato de terrorismo, rompeu as regras do jogo social, destruindo-as por tê-las levado às últimas conseqüências. Ao transmudar-se em inseto, encarnando até a loucura as forças sociais que o alienavam, deixou o caixeiro-viajante de servi-las, para delas compor um retrato monstruoso e fiel. Gregor Samsa, até o momento de sua metamorfose, era uma pessoa que padecia de um câncer psicológico, social e existencial. A partir de sua transformação em inseto, passou a ser o próprio câncer, liquidou-se como pessoa para, através desse ato de desespero, desobedecer e acusar.

Gregor Samsa, desclassificado, marginalizado e solitário, cometeu um suicídio personal para, com isto, desmascarar o crônico homicídio institucionalizado de que vinha sendo vítima. De um tal homicídio tornara-se ele masoquisticamente co-responsável, na medida em que, anulado como pessoa, fazia deste anulamento consentido uma forma de melhor servir aos seus algozes. Ao converter-se em inseto, deixou Gregor Samsa de estar conivente com a ordem social e psicológica que o negava em sua pessoalidade, e o instrumento desta ruptura foi, exatamente, a aceitação radical da negação que o corrompia em sua essência.

Assumindo-se como inseto, responsabilizou-se o caixeiro-viajante por sua destruição pessoal, tomou dela consciência plena e dramática e, assim, foi capaz de transfigurá-la em decisão de combate. Antes da metamorfose, Gregor Samsa, apesar de existencialmente insetizado, conservava sua fachada de pessoa na justa medida para deixar-se explorar e usar. Ao transformar-se em inseto, publicou de maneira terrível sua condição de vítima e, desta forma, configurou e denunciou o crime longo e minucioso que contra ele se vinha cometendo. Pressionado cronicamente no sentido de sua insetização, Gregor Samsa, num instante crucial de escolha, decidiu não mais nadar contra a corrente, fingindo ser pessoa que não era apenas para cumprir, como cúmplice, o jogo humano e ambíguo ao qual se submetera. De repente, aceitou ser inseto – isto é, submergiu na corrente alienadora que o afogava – mas, ao mesmo tempo, transcendeu tal corrente, transformou-se carnalmente em inseto, sem valia nenhuma e sem nenhuma possibilidade de tornar-se, para quem quer que fosse, produtor de mais-valia.

Desistindo de ser pessoa, Gregor Samsa conseguiu fazer de sua capitulação esquizofrênica um derradeiro e grande grito de pessoa. Incapaz de se opor à falência existencial que lhe era imposta, resolveu a ela identificar-se e, de tal forma o fez, que essa identificação passou a significar luta, condenação, denúncia, protesto. Deixando de alienar-se de sua própria alienação, desfraldando-a toda para expô-la, Gregor Samsa acusou e desonrou as estruturas sociais que o destruíam, através de um pseudoconformismo ensandecido. Pela destruição de si, como pessoa, conseguiu uma última e desesperada afirmação de personalidade. Anarquista solitário e humílimo, desumanizou-se, sem remissão – através da metamorfose – para com este gesto terrorista desmascarar a inumanidade do mundo em que vivia – e em que vivemos.

Publicado no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, aos 9 de junho de 1968 – republicado pela editora Rocco, em livro, em 1988, uma coletânea de artigos seus escritos entre 1968 para a Imprensa  intitulado A Burrice do Demônio.

Written by Marcos M.

abril 14, 2017 at 10:12 am

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Floreando Generosidade

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Flor generosa

Quando teve início, no distante outubro de 2015, o projeto social Flor Generosa não passava de um desejo na mente inquieta de Carmen Couto- ou dona Carmen, para os íntimos. Mal sabia ela que, quase dois anos depois, esse mesmo desejo estaria pulverizado entre as pétalas de milhares de lírios, cravos e rosas, que vêm levando cores e sorrisos às vidas de muitas pessoas. O trabalho social liderado por ela tem uma missão nobre: transformar imponentes arranjos de festas em singelos buquês para serem levados a idosos residentes em casas de repouso. “O que me motiva? O amor”, diz a aposentada, de 67 anos, já com lágrimas nos olhos. Inspirada pela experiência que teve com o tratamento de saúde dos pais, ambos já falecidos, dona Carmen encontrou, nas flores, um caminho para levar aos outros o mesmo sorriso contagiante que ela própria carrega incansavelmente. No dia 02/04, portanto, é no Arpoador onde esse trabalho encontrará espaço para, mais uma vez, florear boas ações e transformá-las nos mais belos sorrisos.

A concepção do Flor Generosa, no entanto, não nasceu no Rio de Janeiro. A ideia é inspirada nas atividades desenvolvidas pelo Instituto Flor Gentil, de São Paulo, fundado pela florista e escritora Helena Lunardelli. Em outubro de 2015, ao entrar em contato com a instituição paulista, Carmen obteve autorização para levar adiante a versão carioca do trabalho que eles já vinham desenvolvendo com competência. Informaram-lhe, porém, que ela não poderia fazer uso do mesmo nome do Instituto, por questões burocráticas e administrativas. Surge, então, o Flor Generosa, com outro nome, mas uma mesma motivação- o afeto, hoje espalhado por mais de 3 mil buquês distribuídos durante esses quase dois anos.

À custa de muito trabalho, uma vez por mês, os voluntários são divididos em escalas que organizam as três etapas: a coleta das flores após as festas; a confecção dos buquês, pelos chamados artesãos; e por fim, a entrega nas instituições. É um trabalho que dura, aproximadamente, 13 horas seguidas, cujo início é na madrugada da noite anterior ao evento. No Dia das Boas Ações, não será diferente: a missão terá início na madrugada de sábado (01/04) para domingo (02/04), às 2h. Enquanto as pessoas celebram casamentos, bodas ou festas de 15 anos, uma equipe do Flor Generosa já estará a postos na porta das casas de festas, aguardando para fazer a retirada dos arranjos que poderão ser reaproveitados no dia seguinte. Carmen atribui ao pai, ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, e à mãe a força para levar as madrugadas viradas e as poucas horas de sono. “Meu pai era assim, sempre falava que a vitória iria chegar”. E, aos poucos, parece mesmo chegar.

O Parque Garota de Ipanema, no domingo, será o cenário perfeito para o início da segunda etapa do trabalho. Ali, onde mar, árvores e cidade se encontram, estarão reunidos os artesãos, responsáveis por (re)organizar os arranjos recolhidos e, com criatividade e boa vontade, transformá-los em lindos buquês. Desta vez, a entrega vai deixar a vida dos residentes na Casa São Luiz, no Caju, mais florida. Para Lídia Soares, voluntária de 67 anos e fiel ao projeto desde o início, esse é o momento mais gratificante. “Tenho problema? Tenho, mas tenho mãos. E o melhor pagamento é ver o sorriso dos idosos. É uma sensação deliciosa de amor”. Assim como a Lídia, há a Letícia, a Caroline, a Janaína, o Alan, a Luciana e tantos outros que trabalham- e trabalharão- para dar sempre o seu melhor.

“O primeiro buquê a gente nunca esquece”, diz Carmen ao soltar uma alta risada espirituosa. Dizendo-se muito orgulhosa do seu trabalho, ela explica que a luta pode ser árdua, mas que “é justamente esse negócio de me dizerem que é impossível que me dá mais vontade de fazer”. O Flor Generosa é um dos muitos projetos que, no dia 02 de abril, fará parte do Dia das Boas Ações, uma ação emblemática- e necessária- para os dias atuais. Reunidos, esses voluntários farão o que Drummond, grande poeta, tematizou anos atrás: do asfalto e das adversidades, fazem nascer uma linda flor. E, nas palavras de dona Helena, residente do lar Recanto do Idoso, trazer a todos uma vida mais perfumada.

*

Matéria originalmente publicada pelo Atados Histórias, para divulgar o Dia das Boas Ações de 2017. O texto original você encontra aqui.

Written by Marcos M.

abril 1, 2017 at 8:01 am