O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

O dia seguinte

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Ninguém nunca sabe quando será a última vez que estará junto da pessoa amada. Quem dera soubéssemos quando seria o último abraço, o último beijo o último eu te amo. Ocorre quando menos se espera; a vida vem, nos dá uma rasteira e tira tudo do lugar.
O dia 11 de setembro de 2001, por exemplo, começou como outra manhã qualquer. Pais, mães, filhos, netos saíram de suas casas direto para o coração de Nova Iorque, onde, dali a algumas horas, os aviões se chocariam aos prédios do World Trade Center.
Em um instante, tudo mudou.
“Pai, eu estou no 101o andar e uma bomba explodiu. Estamos todos presos aqui e não sei o que fazer. Eu…eu te amo muito.”
“Jill, eu estou no 90o andar, eu te amo, meu amor. (chorando) Não sei se eu vou ficar bem; diz pra Nicole que eu a amo….Cuide dela por nós.”
Assim como essas, são inúmeras as mensagens deixadas nas secretárias daqueles que não faziam ideia do que aquela manhã traria- todas elas com o mesmo objetivo: dizer o último eu te amo.
Eu me lembro bem de quando você foi embora. Eu soube na hora. Cheguei em casa à noite do escritório e não vi sua caneca favorita na pia da cozinha. Não vi seu quadro favorito no chão. Percebi que, na estante, a sua coleção de DVDs havia sumido. Percebi sua ausência nos pequenos detalhes.
Sentei-me no sofá e fiquei parado durante horas. Lá fora, o barulho no bares me dizia que o mundo não parara de girar por minha causa. Que pena. Desde sempre, eu soube que o dia seguinte seria o pior dia. Achar que você ainda estaria lá, que ainda me atenderia de manhã, que teríamos um ao outro. Mas ele veio.
Decidi me deitar no chão e ouvir o silêncio que a chegada sorrateira da madrugada me traria aos poucos. Olhei para a parede e vi que uma foto nossa tinha ficado; a do dia do casamento do meu irmão. Nossa, como você estava linda. Um passado emoldurado que não existia mais.
Puxei pela memória e me lembrei. Nosso último abraço. Engraçado, né? Foi na noite anterior, quase que automático. “Boa noite.” “Boa noite.”
Adormeci.
Acordei no dia seguinte com o sol me dando um tapa no rosto. Achei ter sonhado, mas sua ausência ainda estava lá, me sufocando. Respirei fundo e tomei coragem. Apoiei meus braços fracos no chão e me levantei. Era hora. De recomeçar, de crescer, de viver.
Já disseram “eu te amo”? Já disseram “não podem viver sem você”, já? Planejem, sonhem, esperem. E de vez em quando, parem e olhem à volta. Tudo pode se desmoronar no dia seguinte.

Written by Marcos M.

May 17, 2015 at 3:37 pm

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Era uma vez

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Quando crianças, somos levados a acreditar em contos de fadas. Em sua essência, essas histórias que aparentam tanta simplicidade, na verdade, colocam a pessoa em contato com aquilo que há de mais profundo em si mesmo: a descoberta da humanidade. E isso dói.
Tememos os feitiços da bruxa malvada, torcemos contra as artimanhas de um lobo cruel, entendemos a dor de um boneco de madeira que não podia mentir e corremos do exército da enlouquecida Rainha de Copas. É lá, nessa terra de faz-de-conta, bem, bem distante, que ordenamos o contraditório e conseguimos, aos poucos, dar sentido ao caos ao nosso redor. Aprendemos a ser.
Sempre gostei muito da Terra do Nunca, sabiam? A ideia me era fascinante. Sonhava com a Sininho me jogando seu pó mágico e me levando para a segunda estrela em direção ao horizonte, em um lugar onde eu enfrentaria um terrível capitão com um gancho no lugar da mão. Era o meu escape, assim como o foi para J.M. Barrie, autor da peça que deu origem ao personagem. A morte era apenas uma viagem até esse reino onde o tempo não passa, simples assim.
Só que, quando Alice acorda de volta do País das Maravilhas, acordamos junto com ela. A realidade é tão forte que nos traga. De repente, num belo dia, abrimos os olhos e, quando menos esperamos, poft, a magia se perdeu e ninguém foi feliz pra sempre. O adulto é triste e solitário, porque não tem a fantasia que as crianças têm- ou deveriam ter. Quando crescemos, descobrimos que a princesa não mora em um castelo, que o príncipe não vai chegar em um cavalo branco e que o caçador não vai aparecer para nos salvar do ataque do lobo.
Desde criança, a fantasia sempre foi o meu refúgio e, agora, não é diferente. Ultimamente, tenho sonhado com essas terras distantes. Fui perseguir um coelho e caí dentro de uma árvore, vejam só. No fim das contas, a esperança é uma coisa engraçada, né? No fundo, no fundo, queremos acreditar. Precisamos acreditar. Quando a existência se torna insuportável diante de nós, sonhamos com esses mundos encantados imaginados pelos irmãos Grimm ou pela genialidade do Andersen, porque eles são a nossa salvação.
Acho que, recentemente, tenho lutado contra muitos dragões que cospem fogo, na esperança de que, um dia, quem sabe, eu possa voltar a acreditar em finais felizes.
Peter, segunda estrela em direção ao amanhecer, certo?
Estou a caminho, me dê a mão.

Written by Marcos M.

May 11, 2015 at 5:34 pm

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O problema do Determinismo

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Written by Marcos M.

May 3, 2015 at 10:56 am

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Sobre o fim

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Dizem que a pior morte é a do amor. Deve ser mesmo. Quanto todo o resto desmorona, a vida segue, continuamos respirando, mas vivemos o luto por algo que foi, não é mais e que se desmanchou pelo ar.
Em alguns casos, os términos são épicos e se estilhaçam diante de nós em gritos, roupas voando pela janela, traições, ameaças, ofensas.
Em outros, o fim é silencioso, doloroso. A vida acontece e, pouco a pouco, somos corroídos pela dúvida do “E se?”. Quando ele chega, traz consigo a devastação e deixa para trás todos os detalhes aos quais tentamos em vão nos apegar. Fotos, escritos em guardanapos, mensagens de voz, presentes que terminam jogados em uma caixa no armário. Retratos emoldurados de um pra sempre que acabou.
A memória é uma coisa engraçada, sabe? Às vezes, ao mesmo tempo em que nos esquecemos das coisas mais recentes, conseguimos relembrar os episódios mais remotos. Lembramo-nos do exato momento em que conhecemos a pessoa amada: um esbarrão em um café, uma festa com amigos, a troca de olhares na sala de aula. “Foi naquele momento em que eu me apaixonei por você, já era amor antes de ser”. Lembramos os detalhes da angústia na espera por um telefonema que não chegava, dos sorrisos tímidos, mas esquecemos outros tantos- que, eventualmente, sequer chegamos a descobrir.
No final das contas, são justamente esses mesmos detalhes que nos ajudam a perceber quando o amor se transforma em bom-dia e tudo se perde. A cama por fazer, os jantares cada vez mais raros, o silêncio ao acordar, a tentativa de ser o que já se era e de ter o que já se tinha.
A verdade é que ninguém nunca está preparado para isso. Nunca. É coisa do ser humano acreditar que as coisas vão durar para sempre. Posso falar? Dói, dói muito, e o caminho é lento até, finalmente, chegarmos à aceitação. Ninguém quer ouvir que vai passar, porque é justamente o que não queremos. Não, não vai passar. Desapegamos, pois não há mais forças. O quarto fica vazio; a alma silencia.
Para a morte- de uma pessoa, de um amor, de uma amizade-, não há solução e, quando não temos a coragem necessária para enfrentar a verdade, traímos, no fundo, a nós mesmos.

Written by Marcos M.

April 26, 2015 at 4:58 pm

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Paris

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Aconteceu em Paris, num nem tão longo e nem tão tenebroso inverno. Acordei cedo e, quando saí do hotel na Rue Monge, bem ao lado do Jardin des Plantes, decidi andar em vez de pegar o metrô. Afinal, a melhor forma de conhecer uma cidade é largar os mapas e se perder mesmo no emaranhado de ruas entrelaçadas, mergulhando de cabeça nesse labirinto, muitas vezes, sem volta. Perder-se é a melhor forma de se encontrar.
Andei, andei, andei.
Dali a alguns quarteirões, às 9 da manhã, os primeiros flocos de neve começaram a cair. Ao meu redor, as pessoas corriam apressadas na direção de suas tarefas diárias. Atrasadas para o trabalho, para a aula, para a vida.
Parei e me perdi na multidão.
Segui em diante mais algumas esquinas, virei em algumas placas, ouvi o barulho do Sena.
De repente, assim como quem não quer nada, vejo surgir diante de mim, com toda a sua imponência a Notre Dame de Paris. Nossa bela dama.
Respirei fundo e parei alguns instantes para contemplar. Nesse meio tempo, vi turistas correndo com suas máquinas para tentarem registrar pra sempre um momento que jamais conseguiria ser capturado em um pedaço de papel, muito menos em uma tela.
Fechei os olhos e, até hoje, me lembro dos sons, do cheiro e sou levado àquela manhã branca e gélida do inverno europeu.
Tomei coragem, subi os 400 degraus até o alto da torre. Devagar e sempre; ao infinito e além. Lá de cima, conversando com minhas amigas gárgulas, elas me confidenciaram segredos da Paris de outras épocas e de outros homens. Lá do alto, o branco da neve se misturou com o tom pastel da cidade e eu me senti parte daquilo tudo. Era uma pintura.
Desci tragado de volta à realidade, pensando nas milhares de histórias que nos cercam. A neve seguia a cair, dando a tudo uma atmosfera mágica.
Lembrei-me de Quasímodo, de Jean Veljean, de Jesse e Celine- todos personagens que sempre fizeram parte do meu imaginário e que, de repente, estavam materializados ali bem diante dos meus olhos.
Segui andando. Não sei bem dizer se foram minutos ou horas, mas passei pela estação de Saint-Michel-Notre-Dame, fui em frente até a Pont Neuf, a tal dos cadeados.
Ali, encontrei o amor de que todos tanto falam. L’amour, toujours l’amour. Um típico casal prendia seu cadeado junto a tantos outros; percebi que eles se comunicavam pela linguagem de sinais. Do nada, uma vez prendido o cadeado, ele se ajoelhou e entregou uma aliança a ela, que começou a chorar muito. E eu junto, obviamente. Sequer os conheço, mas não importa.
Chorei pela alegria que transbordava do olhar de ambos.
Chorei pelos sentimentos que, às vezes, ultrapassam e dispensam as palavras.
Chorei, enfim, pelos breves momentos extraordinários que vêm de repente e que nos fazem perceber que a vida vale a pena.
Obrigado, Paris.
(MM, janeiro/2015)

Written by Marcos M.

April 12, 2015 at 6:46 pm

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Se nós fôssemos nós

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Era uma manhã fria de outono, quando as primeiras folhas das árvores caíam e marcavam a chegada de uma nova estação- desta vez, de temperaturas mais amenas. Morando no Rio de Janeiro, não dá para dizer que nosso inverno é tenebroso, mas a magia do outono é sempre fascinante e não há perfeição maior no casamento entre os tímidos raios de sol que saem logo cedo e a brisa fria que lhes faz companhia.
Eu estava andando pela Fonte da Saudade, preso nos meus próprios pensamentos, olhei para o relógio e vi que ainda tinha um certo tempo até minha sessão de análise. Decidi, então, caminhar até um café delicioso que fica perdido ali em uma daquelas ruelas perto da cobal do Humaitá. A cidade me dava bom-dia, à medida que meus passos lentos misturavam-se às folhas secas. Tornei-me o perfeito flaneur.
“Um expresso com creme, por favor”, decidi me dar o luxo. Peguei o livro que trouxera comigo e dei continuidade à leitura. Era uma coletânea de contos e crônicas de Clarice, livro amarelado que achei perdido em uma de minhas arrumações.
Coincidentemente ou intencionalmente, abri na página que me disse exatamente o que eu precisava ouvir.
“Se você fosse você, o que faria?”, nos joga Clarice para o nosso próprio abismo secreto e interior.
Quando me deitei no divã naquele dia, não sabia bem se era uma manhã de sensibilidade ou de suscetibilidade. Sei que parei para pensar em Escolhas.
É fácil pensar pelos outros, né.
“Ih, se eu fosse você, aceitava a vaga.”
“Olha, mas se eu fosse você, já tinha terminado esse namoro há muito tempo.”
“No seu lugar, eu largava tudo e ia viajar pelo mundo.”
Tudo muito bom, tudo muito bem.
A questão é: e quando nós temos que nos colocar no nosso próprio lugar?
É difícil e doloroso parar diante do espelho, arrumar a casa e mexer em feridas.
Se eu fosse eu?
Bem, se eu fosse eu, acho que…
Não, no fundo, isso é segredo.
Responder a essa pergunta é entrar no universo desconhecido e nos entender um pouco melhor. É brincar na corda bamba nesse ato perigoso de viver. É…
O relógio soou.
– Acabou a sessão, Marcos. Continuamos na próxima semana.

Written by Marcos M.

April 3, 2015 at 9:52 pm

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O Grito Mudo

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Morri no Rio de Janeiro ontem. Aliás, quem não morreu? Morri nas ruelas estreitas do Complexo do Alemão.
O anoitecer foi mais triste no dia 2 de abril e as panelas que, há alguns dias, ecoavam nervosas pelas varandas dos prédios emudeceram. As estrelas observavam silenciosas e a garoa fina que caía era como as lágrimas que escorrem timidamente de um rosto marcado pela dor.
Tudo era silêncio.
Nossa alma silenciou asfixiada pelo excesso de morte.
O Eduardo Jesus Ferreira tinha 10 anos.
Era filho da Terezinha Maria de Jesus, diarista de 40 anos.
Era estudante, gostava de jogar videogame e queria ser bombeiro.
Até que, de repente, o Eduardo bem sumiu diante dos nossos olhos, assim como tantos outros.
Tudo era silêncio.
Da escuridão, ecoou o tiro ensurdecedor que perfurou o ar e atingiu o Eduardo e a todos nós.
Morri naquela tarde do dia 2.
Morri, porque tenho medo da violência que toma conta da nossa cidade.
Morri, porque tentei imaginar a dor de uma mãe ao arrumar o quarto de um filho morto.
Morri, porque é triste ver uma sociedade perdendo a sua humanidade.
Morri, porque ainda luto pelos resquícios de uma infância perdida.
O que mais machuca nessa desumanização é o desconhecimento que ela tem dela mesma; diante do vazio reflexivo, o ser humano deixa de lado sua identificação com os seus próprios sonhos e, claro, com o outro.
E, meus amigos, é nesse instante, efêmero e eterno, que o ar esfria, o mar acalma e as vozes anoitecem. Nosso grito é mudo.
Tudo é silêncio.

Written by Marcos M.

April 3, 2015 at 9:51 pm

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