O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

O rato

leave a comment »

Sou fascinado pelo centro antigo do Rio. Andar ali por aquelas ruelas labirínticas de pedrinhas, entre sebos, ambulantes e história, é a representação mais palpável e melancólica da memória. No amanhecer efervescente, pessoas brotam como formigas das saídas do metrô ali na Praça Floriano, na Cinelândia. Homens e mulheres, com ternos caros e roupas de marca, atrasados para mais uma reunião inútil com debates inúteis. Muitas vezes, no entanto, se esquecem de parar e olhar ao redor e contemplar o prosaico. Afinal, diante da sinfonia do caos, é mesmo fácil de se perder. Nada melhor do que tirar uma tarde e ficar ali sentando num banco qualquer do Museu de Belas Artes: contemplando, sentindo, vivendo. Perdido em meus pensamentos, atravessei aqueles becos tão familiares e, ao mesmo tempo, tão estranhos em direção à imponente Livraria Cultura no antigo Cine Vitória. Chegando lá, logo ao atravessar, já me deparo com uma comoção na porta. Havia gritos e espanto. Quando dou por mim, entendo que tudo era motivado por um pequeno rato que estava à porta da livraria. Pensei que, se alguém tivesse uma flauta, poderia se inspirar no flautista de Hamelin e levar o bicho para uma terra distante, distante. Mas já era tarde para eu tentar salvá-lo. Ao ver o animal, assustado com a comoção ao seu redor, vi o grotesco: antes que fosse possível desviar o meu olhar, um funcionário qualquer corre como se estivesse em uma caçada selvagem e, num ímpeto bárbaro e selvagem, pisa no rato com a força sobre-humana. Tudo fez-se silêncio. Naquele momento, o sangue escorria, a multidão celebrava e, diante do horror de uma morte, a náusea tomou conta de mim. Aquele pobre rato, no final das contas, era eu.

Written by Marcos M.

July 3, 2016 at 11:15 am

Posted in Uncategorized

Tempo

leave a comment »

Tempo. Há momentos na vida em que tudo o que queremos é mais tempo. 5 minutinhos após o despertador tocar. Mais alguns minutos em uma prova difícil. Mais de 24h no dia pra curtir as férias. Só mais alguns instantes com a pessoa amada. Quando crianças, não sacamos muito bem isso. Aos poucos, à medida que crescemos, vamos tomando consciência da areia escorregando pela ampulheta da vida e percebemos que lutar contra os ponteiros do relógio é a luta mais vã. Um dia, quando menos esperamos, nos damos conta de que os dias, as semanas, os meses e os anos avançam assim como vagas furiosas tragam os desatentos para o fundo do mar. Um dia, sem nem esperar, as crianças crescem, as cidades mudam, a vida passa e a ampulheta vira. Nesse instante, imploramos por mais um dia. Só mais um. Oferecemos nossa alma em troca. A todo momento, os ciclos da nossa existência se encerram e se iniciam. Às vezes, nessa mistura toda, passado, presente e futuro se fundem, levando-nos a novas perspectivas. Somos reflexos turvos de quem fomos e, ao mesmo tempo, sombras do que queremos ser. Às vezes, o tempo traz, sim, destruição, mas, consigo, traz também a chance de belos e inesperados recomeços. Afinal, o que existe é o agora, composto por infinitas possibilidades ao nosso redor. É tempo, então, de virar a ampulheta e de, finalmente, recomeçar.

(MM, maio de 2016)

Written by Marcos M.

June 26, 2016 at 9:17 pm

Posted in Uncategorized

It’s the Tony Awards!

leave a comment »

Sempre choro com a abertura. Sempre.

Written by Marcos M.

June 13, 2016 at 6:50 pm

Kafka e a boneca viajante

leave a comment »

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular.
Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca.
Kafka ofereceu ajuda para encontrar a boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar.
Nao tendo encontrado a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. A carta dizia : “Por favor, não chore por mim, parti numa viagem para ver o mundo.”
Durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina outras cartas que narravam as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo: Londres, Paris, Madagascar…
Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!
Esta história foi contada para alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra (Kafka e a Boneca Viajante) onde o escritor imagina como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka.
No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca.
Ela era obviamente diferente da boneca original.
Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”.
Anos depois, a garota encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta.

O bilhete dizia:

“Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.

Written by Marcos M.

May 29, 2016 at 11:07 pm

Posted in Uncategorized

Tempo de recordar

leave a comment »

Há momentos na vida em que a palavra nos é usurpada. Quando tudo ao redor é silêncio, só resta sentir. Tenho andado assim nos últimos dias: recluso, emocionado e calado. Lembrei-me, não por coincidência, de um dos meus textos favoritos do maravilhoso Antônio Prata, chamado Recordação. Recordar é trazer de volta ao coração- cordis, em latim. No descrever de uma simples corrida de táxi, somos levados a uma profunda reflexão sobre as memórias que criamos e guardamos do nosso cotidiano. Nosso lar, por exemplo, é um espaço povoado de passado. É o nosso primeiro contato com o mundo. Neste momento, escrevo no quarto cujas paredes me viram crescer. Há fotos pelas paredes, caixas nos armários e histórias por todos os cantos. No corredor, por puro saudosismo, paro e vejo os retratos de aniversários, casamentos, viagens. Onde está o cotidiano nessas fotos? O café da manhã em família? O filme da TV domingo à noite? Tentei me lembrar da voz, das broncas, das últimas conversas. Hoje se tornaram ecos e borrões. É tempo, portanto, de recordarmos essas pequenas grandes coisas, para darmos valor ao que importa. A Felicidade, meus amigos, está aí. A vida é um frágil castelo de cartas que pode desmoronar a qualquer momento, por isso amem, sintam, vivam. A qualquer momento, tudo pode se desmanchar pelo ar.

*

Vemo-nos em breve, Jorge. Até logo.

Written by Marcos M.

May 14, 2016 at 10:51 am

Posted in Uncategorized

Chuva permanente

leave a comment »

Mando um zap-zap para uma amiga que dias antes perdeu o pai. Como ela e a mãe estão indo? Responde que tudo agora parece muito estranho. Ocorre-me que é isto mesmo: uma perda torna irreal aquilo que antes nos era familiar. Afinal, o luto é o período durante o qual essa irrealidade vai lentamente se impondo como nova realidade.

Retrocedendo nos dias e anos, desapareceram na minha família ou no círculo de amizades: outro pai, um tio-avô, uma irmã, um marido, duas tias, cinco amigos… Por mais que o tempo passe, porém, não “cura” nada. Sempre restará algo de irreal nessas ausências. Paradoxo: elas continuarão presentes para todo o sempre. O nosso sempre.

Minha mãe morreu há mais de duas décadas, depois de quase dois meses lúcida numa CTI. Era relativamente jovem, 63 anos, sofria do coração. Até a internação, eu ligava para ela todos os dias, no final de tarde, começo de noite, que é quando os cadernos de Cultura costumam fechar. Vinte anos. Pois ainda hoje, após jornadas de trabalho muito intensas em casa, eu tenho o impulso de passar a mão no telefone para ouvir a sua voz (que luto para não esquecer). Quem sabe, numa realidade paralela, uma senhora franzina e silenciosa aguarde em vão uma ligação do filho.

Uma de minhas cunhadas morreu há cinco anos. Era ainda mais jovem, 40 anos, teve meningite. Morava no interior de Minas. Víamo-nos sempre que possível, logo sempre menos que o desejável. Só consegui retornar à sua cidade em outubro, para a festa de 75 anos de minha sogra. Saber que não encontraria minha cunhada antecipava um problema de difícil superação. Mesmo tendo ido a seu enterro, pareceu-me absurdo que ela não estivesse mais lá. Quem sabe, numa realidade paralela, uma moça bonita e engraçada aguarde a visita da irmã e do cunhado que moram no Rio.

Não diferencio os objetos de nossos amores — e, portanto, de nossos lutos — pela sua família animal. Um de meus gatos, uma fêmea siamesa, morreu no ano passado. Era idosa, tinha quase 19 anos, viveu o que tinha para viver, em boa forma até os meses finais. Enquanto estou em casa, sua ausência preenche todos os cantos. Está na poltrona arranhada do escritório, entre os travesseiros da cama do casal, na porta em que eu tamborilava para que saltasse. Ela só pode ter se escondido em algum lugar, a safada.

Quando escrevi sobre minha gata, recebi inúmeras mensagens de solidariedade e carinho. Numa delas, a leitora contava que, depois de perder um cão muito querido, tinha enorme dificuldade de subir da portaria para o apartamento e constatar que ele não estava lá — isso todo dia, todo dia, um pesadelo recorrente. Entendo. Voltar aqui para casa tem sido dar pela falta de um dos gatos. (Por enquanto, um.) Meus olhos a procuram pelos cômodos e, quando caio na real, uma bigorna se reinstala em meu peito.

Não é verdade que, como escreveu Nietzsche, “o que não nos mata nos torna mais fortes”, frase tão popular que serviu de epígrafe para o “Conan, o bárbaro” com Arnold Schwarzenegger. Em “Altos voos e quedas livres”, livro concluído por um ensaio sobre a morte da mulher, Julian Barnes rebateu o filósofo alemão: “Há muitas coisas que não nos matam, mas que nos enfraquecem para sempre”. Acho que, se tanto, tornam-se o metro pelo qual medimos outros sofrimentos. Lembro-me da avó que eu chamava de “minha gata”, a mãe de minha mãe: “Só não há remédio para a morte”.

Leio “1913 — antes da tempestade”, do historiador de arte alemão Florian Illies. É um almanaque culto, mês a mês, do ano que precedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Antes, em 1912, após ser traído por Fernande Olivier, Picasso tomara como amante Marcelle Humbert, a quem rebatizou de Eva Gouel. Refugiou-se com ela em Céret, nos Pireneus, para conseguir trabalhar. “Para Picasso, como sempre acontecia com o surgimento de uma nova amante, a vida e a arte transformaram-se por completo”, escreve Illies. O pintor passava do cubismo inicial, analítico, ao cubismo sintético.

Em março de 1913, Picasso e Eva estão de volta a Céret, mas as coisas não vão bem. O pai do pintor, José Ruiz y Blasco, que o ensinara a desenhar, está morrendo, em Barcelona. Eva também cai doente, com câncer. A cadela Frika agoniza. Quando o veterinário diz que não há mais nada a fazer, o pintor pede a um inspetor de caça que dê o tiro de misericórdia. “Até o final de sua vida. Picasso não esquecerá o nome do atirador — ‘El Ruquetó’ – e também o quanto ele chorou naqueles dias”, conta Illies. “O pai morto, o cão morto, a amante doente de morte e, lá fora, uma chuva permanente. Picasso enfrenta, na primavera de 1913, em Céret, sua maior crise psíquica”.

Na fase seguinte, o “cubismo de cristal”, destilaria uma geometria minimalista, quase abstrata. É tentador pensá-la como uma resposta às perdas acumuladas. Se meu chute tiver alguma validade, mais do que até então Picasso ensaiaria ali uma nova realidade alternativa, tentativa de replicar nos quadros a irrealidade dos lutos.

______

Voltarei a “1913”.

Arthur Dapieve, O Globo, 6/5/2016

Written by Marcos M.

May 6, 2016 at 3:55 pm

Posted in Uncategorized

5

leave a comment »

Meu domingo amanheceu com gosto de saudade. Era uma sexta-feira de sol quando eu caminhava por aquelas ruas que me eram tão familiares, mas que, claro, tinham sofrido com a ação do tempo. As árvores estavam floridas e, com uma leve brisa, trouxeram consigo o cheiro peculiar de tempos passados. Na esquina, há anos, ficava um baleiro já velho, me lembro bem. Ele, é claro, não estava mais ali, mas era como se ainda estivesse e eu o cumprimentei, comprando uma de suas balas. Despedi-me e, seguindo um pouco mais para frente, me vi diante do prédio que, em outros tempos, fora a escola onde passei parte da minha adolescência. De repente, estava com 12 anos de novo, parado na frente daqueles portões. Hoje, essas lembranças só existem na minha memória, uma vez que a escola fechou, a vida aconteceu e as pessoas que circulavam por ali se perderam por esquinas tortuosas. Fechei os olhos e me vi novamente subindo aquelas escadas de mármore que me levariam à sala de aula. Pude ouvir o som dos alunos chegando e as broncas afetuosas das inspetoras, além de sentir o cheiro de salgados recém-preparados na cantina. Certo dia, andando pelos fundos do prédio, subi uma escada que me levou à biblioteca. Assinei meu nome, sentindo o aroma peculiar dos livros antigos e fui recebido com um sorriso doce e simpático da senhorinha sentada por trás de uma máquina datilográfica- à espera da chegada do computador, dizia. Essa mesma senhorinha mudou minha vida e acabou se tornando uma grande amiga. Marlene era seu nome- ou Manene, para os íntimos. Ela me ensinou o amor pelos livros, afinal eram horas e horas transitando por aquelas linhas e por aquelas narrativas que me fascinavam. Há algumas semanas, depois de anos atrás de notícias, soube que Marlene nos deixou e foi contar histórias e causos divertidos em outras terras. Os anos já lhe pesavam. Esteja em paz, Manene. Prometo que, na segunda, devolvo o livro que peguei emprestado. Esqueci hoje, não fique brava. Espero subir aquelas escadas e reencontrá-la como me lembro: cabelo penteado e unhas sempre feitas, digitando fichas catalográficas. Só que, assim como a vida tira, ela traz. Caminhos que se bifurcaram em outrora se entrecruzam quando menos esperamos. O Marcos lá da sexta série cresceu e, agora, vive das palavras e para elas. O sinal tocava e, nas aulas de português, eu tentava ser o meu melhor. Poucas pessoas entendem a força dos vínculos que são criados em uma sala de aula e eu sei disso agora. Sabendo da minha timidez, quando tirei dez em uma avaliação, a professora chegou bem perto da minha carteira e disse que estava orgulhosa de mim. Ana Lúcia era séria, mas simpática, dona do estojo mais colorido e do sorriso mais tímido que já vi. No passado, estivemos juntos em sala durante três anos, mas nos perdemos e, assim como qualquer professor faz, ela largou minha mão e me deixou seguir pelo mundo, depois de ter me dado as ferramentas para construir minha própria história. A vida me deu o presente desse reencontro, da forma mais bela. As pontas e as gerações se ligaram. Quase 20 anos depois, o sorriso de Ana é o mesmo, assim como também deve ser o meu olhar de fascínio pelo mundo. Abro meus olhos, já de volta ao meu escritório, diante desta página que se preencheu quase que sozinha. Olhei pela janela, de onde tímidos raios pediam licença para entrar, e o balançar das árvores me levou de novo àquela época, me faz sentir o cheiro daquelas salas, daqueles livros e ouvir as vozes daquelas pessoas. Ouvi a voz de Marlene me cobrando livros atrasados, da Sônia falando para os alunos entrarem nas salas e da Aninha explicando período composto. Depois dessa viagem ao passado, percebi que minha alma estava mais leve. E, inexplicavelmente, com muita vontade de classificar orações.
– MM, maio/2016

Written by Marcos M.

May 1, 2016 at 12:17 pm

Posted in crônicas

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.