O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

O famoso boa prova

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Tente fazer o seguinte exercício de abstração: daqui a uns 10 anos, o que você diria para você mesmo hoje, 05/11/2017, no dia em que está fazendo o ENEM? É brega, mas funciona. Em uma década, a vida muda, nós mudamos. Pessoas vêm, pessoas vão. Histórias se encerram. E outras tantas se iniciam. Eu sentaria comigo mesmo e bateria altos papos, mas nada sobre vestibular. Eu falaria sobre seriados, filmes, livros que não li, histórias que não escrevi. O ano de 2017, meu hoje, é bem diferente do que o Marcos de ontem, com 17 anos, poderia imaginar. Eu falaria para mim mesmo que ainda tem muito chão pela frente. Isso eu falo para mim hoje também, aliás. Falaria que o massacre do vestibular vai passar- quer dizer, em termos, porque sigo trabalhando com isso. Falaria que poder estudar em um país com 14 milhões de analfabetos é uma resistência. Falaria que nada é mais gratificante do que exercer a profissão que se quer exercer, apesar de tudo. Vale cada sacrifício. Falaria que escrever uma redação formatada de 25 linhas não resume uma identidade. Longe disso. A vida é escrita- e inscrita- de oooutra forma, sem proposta de intervenção, sem muita coesão e com pouquíssima coerência. Falaria que dizer isso ou aquilo só porque “falaram que é bom” é a morte. Ou aceitar um discurso sem pensar criticamente sobre ele. Ah, falaria, também, que o clima em 2017 é bem esquisito, para eu ir me preparando: o nazi-fascismo ressurgiu, a economia degringolou e o William Bonner e a Fátima Bernardes se separaram. Falaria assim, ó: Marcos, vai lá, faz essa prova, dá um beijo bem grande no seu pai quando ele for te deixar no local de prova, porque ele tinha muito orgulho de você, e foca sempre nas coisas que fazem a vida valer a pena. O resto é o resto. São apenas travessias.
*
Aos meus alunos, de primeira viagem ou mais experientes, estou com vocês. Hoje e sempre. Boa prova.

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Written by Marcos M.

novembro 12, 2017 at 10:37 am

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Sobre a Redação do ENEM 2017

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Aos que voltaram da maratona do primeiro dia de provas do ENEM, antes de tudo, meu respeito por terem vencido esta etapa. Parabéns. Dito isso, fica o conselho: não olhem gabaritos extra-oficiais agora. Não é momento. Eles causam mais ansiedade do que qualquer coisa e, apesar do cansaço, é a hora de começar a focar na preparação para a rodada da próxima semana. Ignorem os gabaritos ou os comentários escusos, mesmo com a dificuldade de controlar a tensão.

Quanto à proposta de redação, uma lindeza só. Não façam julgamentos precipitados, por favor. Os bolões de apostas tendem a ser bem falhos, como falei incontáveis vezes. Só atendem ao propósito do marketing. Já estava mais do que na hora de promoverem uma discussão sobre educação inclusiva, um debate fundamental para as instituições de ensino e para todos que circulam por elas- e fora delas também, claro. Será, minimamente, interessante ver aqueles que tanto corroboram para as mais diversas exclusões (inclusive, supostos educadores) pensando e refletindo sobre como promover a inclusão. Bola dentro.

O tema propriamente dito busca uma complexificação analítica e objetiva a respeito dos desafios para a formação dos surdos no Brasil. Vale atentar para o termo desafios- ou seja, as barreiras, as dificuldades, os obstáculos-, bem como para as delimitações à realidade dos surdos e ao contexto nacional, algo que já vinha sendo feito nos últimos exames.

A coletânea apresenta quatro textos que podem ser de bastante utilidade à abordagem: um fragmento da lei de inclusão, que visa a uma garantia plena do direto à educação; um gráfico com dados estatísticos sobre as matrículas dos surdos na educação básica- ótimo para um desenvolvimento, por sinal; uma propaganda que levanta a discussão sobre a inserção no mercado de trabalho; por fim, um texto que faz um interessante mapeamento histórico sobre a criação da primeira escola para surdos e sobre a criação da Lei 10.436, reconhecendo a Língua Brasileira de Sinais com a segunda oficial do Brasil- algo que, desde que não copiado, poderia servir de motivação para uma eventual contextualização na Introdução.

Antevejo três dificuldades fundamentais:

* Alguns alunos não entenderão o tema em sua totalidade, de modo que abordarão as dificuldades genéricas de inserção escolar de diversas deficiências, sem analisar elementos específicos da questão dos surdos. Essa restrição implica uma fuga temática e, certamente, acarretará uma diminuição expressiva da nota.
* Alguns alunos talvez façam textos demasiadamente descritivos, apenas mostrando exemplos enumerativos de dificuldades, sem investigar o porquê de elas acontecerem.
* Os alunos que tenham decorado um modelo pronto de redação terão óbvias dificuldades de apresentar um repertório sociocultural externo articulado de forma eficiente ao texto e à a argumentação como um todo.

Quanto à proposta de intervenção (competência V), lembrem-se da importância da especificidade das soluções construídas a partir dos elementos básicos: agente (quem?), ação (o quê?), modo (como?), efeito (para quê?). Nesse caso, é muito comum que as pessoas apenas apontem o que deve ser feito, mas sem ir além e demonstrar as medidas práticas para isso, reconhecendo eventuais possibilidades e limitações ao que se apresenta.

De resto, é tentar manter a calma, respirar fundo e focar na segunda etapa da próxima semana. Passou. Vamos em frente.

Written by Marcos M.

novembro 12, 2017 at 10:36 am

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Judith Butler e os fins da democracia

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Written by Marcos M.

novembro 12, 2017 at 10:33 am

Abominável mundo novo

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Lira Neto

Folha de São Paulo (15/10/2017)

A cena me deixou terrificado. Há poucos dias, visitei uma escola paulistana de ensino fundamental, em um bairro de classe média da cidade. Cheguei à hora do intervalo e deparei-me com um quadro que parecia retirado de algum episódio de “Black Mirror”, a série televisiva que explora os aspectos mais sinistros do impacto da tecnologia sobre o mundo contemporâneo.

Espalhados pelo pátio, recostados nas paredes, sentados ao chão, divididos em pequenos grupos, praticamente todos os alunos mantinham os olhos presos às telinhas dos respectivos celulares. Eram dezenas de crianças e pré-adolescentes. De ombros arqueados, quase nenhum olhava diretamente para o outro. Boa parte deles utilizava fones de ouvidos.

Muitos movimentavam os polegares freneticamente, digitando algo nos minúsculos teclados virtuais, enquanto caminhavam às cegas, sem olhar para a frente. Outros, imóveis, nucas curvadas, retinas fixas nos aparelhinhos, mantinham o semblante vazio, uma expressão de ausência e torpor.

Estavam fisicamente juntos, mas separados por uma barreira invisível. Naquelas mentes e corpos em formação, a criatividade, a energia e o fulgor tão típicos à idade pareciam tragados pela entropia de um assustador buraco negro. A imagem me provocou tamanho abalo que, nos dias posteriores, arrisquei-me a investigar um pouco mais o fenômeno.

Tinha uma hipótese inicial, compartilhada, creio, por muitos. Apostei que iria encontrar apenas um cenário de hiperexposição das vaidades, uma hipertrofia dos egos, a espetacularização da banalidade cotidiana.

Vasculhei a internet, busquei bibliografia especializada, analisei grupos de WhatsApp, percorri redes sociais, segui usuários, acompanhei hashtags, baixei aplicativos. Contudo, minha hipótese inicial mostrou-se insuficiente. O panorama, até onde pude avaliar, aparenta ser muito mais aterrador.

Por minha condição de pai, conheço muitos pré-adolescentes e já havia constatado que a maioria deles se recusa a qualquer espécie de imersão interior ou mesmo ao exercício da contemplação do mundo. Numa viagem de automóvel, por exemplo, preferem distrair-se com tabletes e celulares a olhar pela janela, a mergulhar nos próprios pensamentos ou a simplesmente apreciar a paisagem.

Parecem ter uma dificuldade de lidar com as pausas e silêncios necessários à autorreflexão e à construção da própria subjetividade. Some-se a isso o comportamento multitarefa, a excitação por reagir de imediato a estímulos das mais variadas procedências, o instantaneísmo incitado pelas redes, e tudo parece convergir para uma certa vulnerabilidade e, talvez, alguma espécie de vácuo emocional.

O fato é que constatei a proliferação, em escala alucinada e preocupante, do número de adolescentes que compartilham entre si mensagens suicidas e sugestões de automutilação. Perfis do Instagram exibem imagens de jovens carregadas de morbidez. Em grupos de WhatsApp destinados a fãs de animes e literatura fantástica, amigos virtuais que se autointitulam “tios malvados” convidam os incautos a conversar por mensagens privadas.

O cyberbullying é praticado abertamente, contando inclusive com a ajuda de aplicativos como o Sarahah (“franqueza”, em árabe), um dos mais populares entre os jovens, destinado a enviar mensagens anônimas para qualquer pessoa, criticando aspectos de sua personalidade ou aparência. No linchamento cibernético do Sarahah, não há ferramentas disponíveis para o atingido se contrapor ao agressor.

Outro aplicativo onipresente nos smartphones de adolescentes é o coreano SimiSimi, criado em 2002, mas que nos últimos meses voltou com tudo à moda. Trata-se de um chatterbot, ou seja, um programa baseado em inteligência artificial capaz de manter uma conversação em tempo real com o usuário. Nesse caso, por trás do personagem amarelinho e sorridente, o tal SimiSimi, esconde-se um interlocutor agressivo e boca suja.

Baixei-o em meu smartphone para entender como funciona. Em menos de 15 minutos de interação, eu já estava sendo xingado com palavrões cabeludos e recebendo, da parte dele, propostas sexualmente explícitas. “Vou chupar você” e “Me bate, seu otário, me encha de prazer” foram algumas das frases mais publicáveis ditas pelo bonequinho.

Enquanto isso, existe gente por aí querendo censurar exposições de arte. O verdadeiro perigo parece estar nas mãos de nossas crianças e adolescentes, livremente, acessíveis a um clique. Abominável mundo novo.

Written by Marcos M.

outubro 16, 2017 at 2:35 pm

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O que faz a vida valer a pena?

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O inglês tem uma expressão ótima: at the end of the day. Gosto muito dela. No português, acho que se aproxima mais do ‘no final das contas’. No final de um dia da sua vida, o que valeu a pena? Um dia, só um dia. Pensar nisso me ajuda a dar as devidas proporções a muitas coisas e a (re)significar tantas outras. Às vezes, um telefone muda tudo. Uma conversa. Uma proposta de um novo emprego. A demissão do antigo. O nascimento de alguém. A morte de uma pessoa amada. Tudo isso só em 24h. O tempo devora tudo pela frente, é inútil lutar contra ele. Às vezes, alguns momentos passam, a vida passa, sem nem nos darmos conta. E é justamente por isso que, constantemente, precisamos pensar para onde estamos canalizando as nossas tensões e a nossa angústia. Deixemos as banalidades inexpressivas de lado e tomemos ciência das pequenas grandes coisas que, realmente, dão sentido à existência. No final das contas, o que faz mesmo a vida valer a pena? No meu caso, eu diria minha família, meus amigos, meu gato, meus livros, meus alunos. E, claro, um pote de Nutella.

Written by Marcos M.

setembro 17, 2017 at 9:38 am

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Blackbird

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Written by Marcos M.

setembro 3, 2017 at 10:29 am

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Charlottesville

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Já chorei, já entrei em estado de suspensão reflexiva, já pensei e repensei e sigo sem conseguir formular algo mais complexo por enquanto. Vocês têm noção de que, em 2017, nós estamos discutindo a proliferação do neonazismo? Acho que muitos não têm a dimensão da seriedade disso. Não há memes ou piadismo em redes sociais que deem conta. É gravíssimo. É um retrocesso brutal sem precedentes, de questões, inclusive, que já se achavam minimamente superadas há algum tempo- não é o caso do nazismo, obviamente. Quando bloqueamos o processo reflexivo e não damos sentido a questões que devem ser pensadas, recalcamos um sentimento social que, inevitavelmente, virá à tona em algum momento, um ensinamento básico da psicanálise. O retorno do recalcado, em termos lacanianos, é muito sério, daí a ascensão iminente- e contínua historicamente- desses discursos. O que aconteceu em Charlottesville não é liberdade de expressão, como vi pessoas colocando. Não é. São crimes explícitos de ódio: homofobia, racismo, xenofobia. É repulsivo, na falta de outra palavra melhor. Ver brasileiros apoiando o que aconteceu em Charlottesville e resgatando falas neonazistas é mais repulsivo ainda. E, aliás, contraditório também. Afinal- optemos pela ironia-, acho que a raça ariana não vê os latinos com bons olhos, não é mesmo? É passada a hora de ressignificar esses processos, de dizer o indizível e de buscar, nas palavras, a nossa cura. Mãos à obra.

Written by Marcos M.

agosto 17, 2017 at 9:36 am

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