O INVENTOR

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Por que cobrar a leitura de livros de literatura no vestibular?

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Por Gustavo Bernardo, no portal eletrônico do vestibular da UERJ.

No Rio de Janeiro, os candidatos que prestam vestibular não precisam ler previamente nenhum livro. Isto acontece há pelo menos duas décadas.

É assim em todo o país? Na verdade, não. Por exemplo: para o ano letivo de 2016, no Brasil, os vestibulares de 26 universidades, públicas e particulares, indicaram listas de livros de literatura. A quantidade de livros indicados pelas universidades variou entre 3 e 16 livros, mas a maioria delas indicou 5 livros.

Isso significa que os vestibulares do Rio de Janeiro, com esta lacuna, acabam por promover: o desprestígio crescente da literatura no ensino médio; o desenvolvimento insuficiente da habilidade de leitura, e já há bem mais de uma geração.

Há alguns argumentos fracos e pelo menos um argumento forte para sustentar que não se cobre a leitura de livros de literatura no vestibular.

Um dos argumentos fracos é o comercial: uma lista de livros pode beneficiar apenas uma ou duas editoras grandes, que aumentariam substancialmente as vendas dos seus títulos. O argumento é fraco porque: mais da metade dos autores selecionados costuma pertencer ao domínio público, portanto são ou podem ser publicados por diversas editoras; a elaboração da lista pode levar em conta o problema, buscando, dentre os autores que não pertencem ao domínio público, diversificar as editoras.

Outro argumento fraco é o do autor vivo: o escritor ainda vivo pode reclamar da interpretação dada pela prova à sua obra. Tornaram-se famosas as reclamações de Carlos Drummond de Andrade e de Millôr Fernandes. No entanto, o argumento também é fraco, porque: nenhum escritor detém o monopólio sobre a interpretação da sua obra; na verdade, nenhum escritor costuma ser o melhor analista da sua própria obra; por fim, a possibilidade da crítica do escritor vivo estimula os professores a elaborarem melhor as suas questões.

Na prática, ainda se pode rebater o argumento do autor vivo indicando apenas autores falecidos. Essa solução, porém, é igualmente fraca, porque afasta as escolas, e, portanto os jovens, da literatura que lhes é contemporânea. O problema do autor vivo deve ser enfrentado elaborando bem as provas e, caso algum autor não concorde com a interpretação dada à sua obra, discutindo-se publicamente com ele, até porque a polêmica não deixa de ser uma maneira de estimular o interesse pela literatura.

Reconhecemos, porém, um argumento forte contra a indicação de livros no vestibular: a elitização do exame. Uma vez que os livros costumam ser caros, logo, se privilegiariam os candidatos de maior poder aquisitivo.

Em tempos de internet, entretanto, esse argumento também se enfraquece. Hoje, quase tudo que já foi escrito se encontra reproduzido na rede. Além disso, para sanar aquelas consequências que apontamos acima, a saber, o desprestígio crescente da literatura e o desenvolvimento insuficiente da habilidade de leitura, a universidade, a escola e a sociedade não podem se conformar com o problema do preço do livro. Deve-se, ao contrário, insistir na necessidade da leitura de literatura, recuperando soluções tradicionais, como as bibliotecas escolares, e criando soluções alternativas, como eventos de leitura solidária.

Discutidos os argumentos contra a indicação de livros para o vestibular, podemos agora pensar os argumentos a favor dessa indicação.

Há muito tempo, filósofos e cientistas admitem que nos encontramos sempre presos na nossa limitadíssima perspectiva: só vemos o mundo pelo nosso próprio olhar, do lugar e no tempo em que estamos. Tudo o que achamos que sabemos é tão parcial que se torna suspeito. Só podemos superar a prisão da nossa perspectiva quando conseguimos olhar pelo olhar do outro.

Ora, na vida real, é extremamente difícil pensar com a cabeça ou olhar com os olhos de outra pessoa, por causa das diferenças de tempo, contexto, gênero, raça, idade e tantas outras variáveis. A façanha se torna possível, porém, quando acompanhamos por dentro a perspectiva ora do narrador ora do protagonista de um romance: neste momento, conseguimos enfim pensar com a cabeça e olhar pelos olhos de um outro. Por isso se diz que a literatura perspectiviza: ela nos oferece a riquíssima experiência de vivenciarmos perspectivas diferentes da nossa.

Dessa maneira, tornamo-nos outros, ou, como queria Fernando Pessoa: nós “nos outramos”. Assim, tornamo-nos maiores e melhores do que somos, e ao mesmo tempo aprendemos que não somos o centro do mundo, ou seja, que há várias verdades e vários ângulos para cada verdade. Nesse sentido, a literatura constrói uma escola virtual de sensibilidade, curiosidade, admiração, relatividade e tolerância – tudo o de que tanto precisamos e cada vez mais.

Acresce que, como já sustentou Roland Barthes, a literatura, no seu sentido estrito, é o próprio “giro dos saberes”, ou seja, ela é pura interdisciplinaridade. Os livros indicados para um exame vestibular servem de base para as provas de língua portuguesa e literatura, é claro, mas também podem provocar questões em todas e não menos do que todas as demais provas.

Por isso, propomos que o vestibular da UERJ para 2018 indique 5 livros de literatura. Para chegar aos 5 títulos, compomos uma lista com um número bem maior de títulos e a divulgamos na Enquete da nossa Revista, solicitando a votação dos leitores até dezembro de 2016. Por sugestão do professor Ruy Marques, Reitor da UERJ, a Enquete ainda tem um campo para que o leitor sugira um outro livro que não esteja na listagem.

No final de 2016, processaremos o resultado da Enquete para compor a lista final do Vestibular Estadual 2018, divulgando-a no início mesmo de 2017, de modo a que as escolas e os candidatos possam se preparar.

Boas escolhas e boas leituras, portanto.

Written by Marcos M.

setembro 13, 2016 at 11:15 am

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Livrarias pra quê?

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Raphael Montes, O Globo, 05/09/2016

Que felicidade abrir o jornal O GLOBO da última quinta-feira e ler a notícia de que a livraria Leonardo Da Vinci reabriu suas portas, após uma reforma realizada pelo novo dono, Daniel Louzada. Para mim, a reabertura da Da Vinci tem forte carga nostálgica: nos meus tempos de universitário, eu estagiava em um escritório de advocacia no edifício Bozano Simonsen e, às vezes, conseguia dar uma escapulida para descer a rampa rumo ao subsolo do edifício Marquês do Herval. Ali, vestindo meu terno amarrotado, eu podia me esquecer por alguns minutos das recuperações judiciais e dos prazos de agravo de instrumento para mergulhar nos livros de arte, filosofia e ciências — tão distantes da minha vidinha universitária e, talvez por isso, tão desafiadores.

Após a visita à livraria Da Vinci, era de lei uma passada rápida (ou nem tão rápida) no sebo Berinjela, claro. Nos dias mais tranquilos (ou após o expediente), o passeio pelas livrarias do Centro era ainda mais longo e oferecia múltiplas possibilidades: eu podia andar até a Cinelândia, passando pela livraria Saraiva do Edifício Avenida Central, para chegar à livraria Cultura, recém-inaugurada na época, com espaço para teatro, café, livros e DVDs, ou, em outro trajeto, andar pela Rua Sete de Setembro para passar nas livrarias Travessa e Saraiva, antes de dedicar alguns bons minutos aos livros mais “alternativos” vendidos na filial da livraria Travessa, na Travessa do Ouvidor.

Eu ficava nesses lugares por muito tempo, descobrindo clássicos e lançamentos, folheando inícios e orelhas (tenho mestrado e doutorado em ler orelhas de livros), puxando assunto com outros leitores, principalmente mais velhos, que me alimentavam de indicações. Era maravilhoso. Naturalmente, todo esse percurso mudou; algumas livrarias fecharam, outras trocaram de lugar; mas, sem dúvida, a reabertura de um espaço como a Da Vinci é motivo de comemoração. Todo escritor é, antes de tudo, um rato de livraria, um leitor obsessivo e incansável, aquele sujeito que você pode largar de manhã entre as gôndolas e só buscar à noite que ele nem terá reparado no passar das horas. A trajetória de um escritor não é alimentada apenas pelos livros que ele leu, mas pelas livrarias que ele frequentou.

Tenho uma relação especial e distinta com cada livraria da cidade. Cresci frequentando o clube de leitura do sebo Baratos da Ribeiro, agora em Botafogo, onde fiz muitos amigos, trabalhei minha escrita e comprei muitos livros da “Ellery Queen’s mystery magazine” e da “Colecção vampiro”, graças ao Maurício Gouveia, dono do sebo e entusiasta da minha paixão por literatura policial. Lancei meu primeiro romance na Saraiva do Shopping Rio Sul, em uma noite de autógrafos que se estendeu até meia-noite, e todos os funcionários continuaram por lá, além da hora de trabalho, um tanto irritados, claro, mas entendendo que aquele era um momento único para um moleque de 20 anos. Desde então, tenho carinho especial por esse espaço e pelos livreiros de lá.

Livreiros são amigos que nós, leitores, fazemos ao longo dos anos. Ainda hoje, gasto horas na livraria Travessa do Leblon, batendo papo e ouvindo indicações do Luiz Guilherme de Beaurepaire ou na livraria Travessa de Ipanema, trocando ideias com o Antônio Berto. São sujeitos que vale a pena conhecer, verdadeiros monumentos das livrarias, apaixonados por livros acima de tudo, garantia de boa conversa no fim de tarde de um sábado ou domingo. Pelas livrarias da cidade, fiz muitos amigos e me apaixonei três ou quatro vezes. Nada pode ser mais aconchegante do que isso.

Ano passado, enquanto participava de eventos pelo país, uma das questões mais frequentes era se a chegada do livro digital acabaria ou reduziria drasticamente a venda de livros físicos e, por consequência, reduziria a existência de livrarias. Não tenho dúvidas de que empresas como Amazon e Submarino cumprem um papel essencial no mercado literário: além de trabalharem com preços baixos, essas empresas facilitam o acesso para leitores de diversas partes do país, principalmente de cidades pequenas onde nem existem livrarias. Ao mesmo tempo, tenho certeza de que as livrarias irão sobreviver como pontos de encontro, como espaços culturais efervescentes, com clubes de leitura e encontros casuais. O prazer de descobrir um livro (ou ser descoberto por ele), de ler páginas aleatórias de livros aleatórios, de trocar conhecimentos com desconhecidos ou com livreiros repletos de novidades, nada disso vai acabar. As livrarias estão mais vivas do que nunca.

Neil Gaiman já disse que “uma cidade não é uma cidade sem uma livraria. Podem até chamá-la de cidade, mas se não tiver uma livraria, estarão apenas enganando suas almas”. O mestre não poderia estar mais certo. Por isso, nos próximos dias, não deixe de visitar sua livraria mais próxima ou quem sabe voltar àquela que você não frequenta há anos e, claro, compre alguns livros e descubra muitos outros. A existência de livrarias só depende de nós, leitores com alma.

Leia mais sobre esse assunto em  http://oglobo.globo.com/cultura/livrarias-para-que-20051622#ixzz4JU3vaIGu
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Written by Marcos M.

setembro 6, 2016 at 10:56 am

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Sobre a Coreia do Norte

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A polêmica envolvendo os vídeos do Fun For Louis descortinou um universo completamente novo e inóspito para mim. Assistam a este vídeo tão emocionante, quanto esclarecedor. Precisamos (urgentemente) falar sobre a Coreia do Norte.

Written by Marcos M.

agosto 22, 2016 at 10:15 am

E se os nossos fracassos também fossem transmitidos ao vivo?

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Por Antônio Prata. Folha de São Paulo, 14/8/2016

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A pessoa dedica a vida toda a nadar mais rápido, a saltar mais alto, a prensar as costas do oponente contra um tatame antes que o oponente prense as dela. Então, nos minutos ou segundos que a pessoa tem pra fazer valer o esforço de décadas, diante de bilhões de pessoas, ao vivo, em cores, às vezes quase pelada, a pessoa tropeça. Escorrega. Cai de bunda.

Como se não bastasse o maior revés profissional, talvez o maior baque existencial pelo qual já passou, logo depois, ainda arfante, ela encara as câmeras do mundo todo: “E aí? Perdeu o equilíbrio, a medalha escapou, que aconteceu?”, “Oitavo lugar, tempo pior que o do Pan, como você explica?”, “Muitos erros, não deu pódio, sua última Olimpíada, e agora?”.

Fico imaginando se nossos fracassos também fossem transmitidos ao vivo, pra metade do globo. “Estamos aqui com o Alberto Boucinhas, Alberto que tava encarando uma dieta Atkins, categoria acima de 150 quilos, e aí, Alberto? Vinha aí num ritmo bom, quatro semanas, tinha perdido quase dez, a Neide confiante, mas duas da manhã e você acaba de traçar um pote de napolitano com Nutella. Que que foi? Estresse? Muita pressão da Neide?”

“Uma palavrinha, Gláucia?! A Gláucia tá saindo da Fuvest, tá fazendo cursinho há três anos pra medicina, tava gabaritando os simulados, mas na hora do vamos ver errou até raiz quadrada de 4. E aí, Gláucia? Exausta, família decepcionada, três anos jogados fora, que que você sente numa hora dessa?”

“Henrique! Henrique! Um minutinho, por favor! O Henrique acaba de lançar seu primeiro romance, todo o mundo com muita expectativa, o Henrique largou a advocacia pra se dedicar à literatura, vendeu a casa, dez anos aí escrevendo essa história sobre um homem num quarto conversando com um criado-mudo que talvez só exista dentro da cabeça dele e… E as críticas não foram boas, né, Henrique? As vendas também não foram boas, parece que o seu projeto de vida não deu certo, né, Henrique? E agora? Vai tentar cavar uma Bienal do Livro? Uma Flip? Ou vai voltar pra advocacia?”

“Rafael! Que que aconteceu, rapaz? Entrou confiante na festa, começou pontuando na pista de dança, foi pra cozinha, chegou preciso na Juliana, beijou a Juliana na área de serviço, foi pra casa da Juliana, ela te aplicou um yukô no colchão, você levou pro waza-ari no carpete, mas na hora de finalizar…. A Juliana ainda tentou cooperar, mostrou entrosamento, bom trabalho manual, mas não teve jeito. Que que houve? Um apagão?”

“Arlindo, vem cá: 40 anos, duas falências, três casamentos frustrados, sem filhos, sem amigos, nome no Serasa, triglicérides lá em cima, careca, agora taí, bêbado, sentado na sarjeta, esperando a polícia pra fazer o bafômetro depois da batida. Parece que nessa vida não deu, né, Arlindo?”.

Arlindo solta um suspiro. Acende um cigarro. “Realmente. Eu tentei, aí, me esforcei bastante, mas fazer o quê? Tem uns que dão certo, outros não. Graças a Deus eu sou espírita, tá? Acredito em reencarnação, então é bola pra frente, é trabalhar aí pra tar limpando esse carma e torcer pra na próxima as coisas serem melhores!” “Taí com vocês o Arlindo, um dos últimos no ranking geral da existência, dando esse recado cheio de esperança pro Brasil!”

Written by Marcos M.

agosto 15, 2016 at 3:06 pm

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Sobre avó e netos

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Que cena mais linda: coxo de uma perna, estou aqui sentando no sofá enorme no kinoplex são luiz lendo meu livrinho e começo a ouvir de butuca a conversa de uma avó com as duas netas ao meu lado. A menor, Maria, clamava pela pipoca antes do cinema. Enquanto aguardavam o início da sessão, a avó decidiu contar a elas como havia conhecido o avô das meninas naquele mesmo cinema, anos e anos atrás, quando ela tinha 14 anos e ele, 15. Era um outro Rio, era um outro cinema, com “uma escadaria enorme”, nas palavras dela, onde ela e o então pretendente passavam as tardes de domingo. Daquelas tardes de domingo, viram os filhos, os netos. Veio o hoje. O tom doce empregado da senhora, já de cabelos grisalhos, me emocionou profundamente. Às vezes, quando menos esperamos, a vida nos proporciona esses encontros infinitamente poéticos. Fechei os olhos e escondi a lágrima discreta que escorria sem bem saber o porquê. Fingi que era do livro. Senhora, eu não a conheço, não sei o que aconteceu com o seu marido, mas queria lhe agradecer e poder lhe dizer que as suas netas são lindas e sua história me fez chorar. Muito, muito obrigado.
M.

Written by Marcos M.

agosto 11, 2016 at 3:30 pm

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O rato

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Sou fascinado pelo centro antigo do Rio. Andar ali por aquelas ruelas labirínticas de pedrinhas, entre sebos, ambulantes e história, é a representação mais palpável e melancólica da memória. No amanhecer efervescente, pessoas brotam como formigas das saídas do metrô ali na Praça Floriano, na Cinelândia. Homens e mulheres, com ternos caros e roupas de marca, atrasados para mais uma reunião inútil com debates inúteis. Muitas vezes, no entanto, se esquecem de parar e olhar ao redor e contemplar o prosaico. Afinal, diante da sinfonia do caos, é mesmo fácil de se perder. Nada melhor do que tirar uma tarde e ficar ali sentando num banco qualquer do Museu de Belas Artes: contemplando, sentindo, vivendo. Perdido em meus pensamentos, atravessei aqueles becos tão familiares e, ao mesmo tempo, tão estranhos em direção à imponente Livraria Cultura no antigo Cine Vitória. Chegando lá, logo ao atravessar, já me deparo com uma comoção na porta. Havia gritos e espanto. Quando dou por mim, entendo que tudo era motivado por um pequeno rato que estava à porta da livraria. Pensei que, se alguém tivesse uma flauta, poderia se inspirar no flautista de Hamelin e levar o bicho para uma terra distante, distante. Mas já era tarde para eu tentar salvá-lo. Ao ver o animal, assustado com a comoção ao seu redor, vi o grotesco: antes que fosse possível desviar o meu olhar, um funcionário qualquer corre como se estivesse em uma caçada selvagem e, num ímpeto bárbaro e selvagem, pisa no rato com a força sobre-humana. Tudo fez-se silêncio. Naquele momento, o sangue escorria, a multidão celebrava e, diante do horror de uma morte, a náusea tomou conta de mim. Aquele pobre rato, no final das contas, era eu.

Written by Marcos M.

julho 3, 2016 at 11:15 am

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Tempo

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Tempo. Há momentos na vida em que tudo o que queremos é mais tempo. 5 minutinhos após o despertador tocar. Mais alguns minutos em uma prova difícil. Mais de 24h no dia pra curtir as férias. Só mais alguns instantes com a pessoa amada. Quando crianças, não sacamos muito bem isso. Aos poucos, à medida que crescemos, vamos tomando consciência da areia escorregando pela ampulheta da vida e percebemos que lutar contra os ponteiros do relógio é a luta mais vã. Um dia, quando menos esperamos, nos damos conta de que os dias, as semanas, os meses e os anos avançam assim como vagas furiosas tragam os desatentos para o fundo do mar. Um dia, sem nem esperar, as crianças crescem, as cidades mudam, a vida passa e a ampulheta vira. Nesse instante, imploramos por mais um dia. Só mais um. Oferecemos nossa alma em troca. A todo momento, os ciclos da nossa existência se encerram e se iniciam. Às vezes, nessa mistura toda, passado, presente e futuro se fundem, levando-nos a novas perspectivas. Somos reflexos turvos de quem fomos e, ao mesmo tempo, sombras do que queremos ser. Às vezes, o tempo traz, sim, destruição, mas, consigo, traz também a chance de belos e inesperados recomeços. Afinal, o que existe é o agora, composto por infinitas possibilidades ao nosso redor. É tempo, então, de virar a ampulheta e de, finalmente, recomeçar.

(MM, maio de 2016)

Written by Marcos M.

junho 26, 2016 at 9:17 pm

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