O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Precisa-se de artistas

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A cada dia, um novo retrocesso. É impressionante. Agora é a proposta do governo de extinguir a exigência de registro profissional de artista (DRT), desregulamentando a profissão e, claro, os direitos daqueles que dão a cara a tapa e que vivem da Arte neste país. O cenário não poderia ser pior. De uns tempos pra cá, por exemplo, o critério para muitas escalações de elenco tem sido número de seguidores nas redes sociais, creiam. É assombroso, meus amigos. Se bem que, na Educação, não está muito diferente. O que mais tem é picareta por aí e gente sem diploma dando aula, fazendo o maior sucesso. Na área de Português e Redação, tenho vergonha- e nojo- de ter que chamar de colegas de profissão aqueles que não querem ensinar o aluno a escrever, e sim a decorar fórmulas prontas e receitas decoradas de um texto (supostamente) exemplar. Bando de fraude. Em qualquer contexto, principalmente em épocas de opressão, a escrita e a arte libertam. Ou deveriam libertar. A resistência vem delas e com elas. Tentar emudecer os alunos, roubando-lhes a autonomia crítica,  e apagar as luzes dos palcos é algo criminoso! Aos colegas artistas, meu apoio incondicional está com vocês. Lutemos.

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Written by Marcos M.

abril 5, 2018 at 12:50 pm

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Para Daniela

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Daniela foi minha aluna há uns seis anos, se não me engano, ainda no Ensino Fundamental. Tagarela que só, era questionadora, algo que percebi desde o primeiro dia de aula. Sentava-se no canto esquerdo da sala, na última fileira e, de lá, com o caderno impecável, estava sempre pronta para debater, descontruir, desorganizar o senso comum. Outro dia, ela me mandou uma mensagem dizendo que estava iniciando a formação universitária em Letras, na UFRJ, e que ainda se lembrava com muito carinho de quando estivemos juntos em sala. Emocionei-me, confesso. Nunca me esquecerei da vez em que, saindo apressado de sala, ela me interrompeu e disse ser agradecida por sentir que nossas aulas estavam dando-lhe de volta a sua voz. Uma jovem de, sei lá, uns 15 anos. Cheguei à sessão de análise naquele dia e chorei horrores, por não saber o que fazer com aquela informação. Sou um cara que está longe de ter uma visão idealizada do ensino. Longe mesmo. Educação (mas educação mesmo) é trabalho árduo, diário e não é para qualquer um, ainda mais hoje quando todos se julgam educadores: coaches, empresários, pseudocelebridades digitais e gente que nem diploma tem, mas que está aí cuspindo regras sobre como se deve ensinar isso ou aquilo. Não tenho uma receita para esses desafios, claro, mas me esforço. E aprendo diariamente. Os anos passam, eu envelheço e estou mais certo de que a saída é o afeto, uma linguagem que a galera do mercado nunca dominará. Tudo é número, produtividade, desempenho. Deturparam até o significado de criatividade, vejam bem. “Criatividade é pensar em saídas inovadoras”, dizem. Inovadoras para quem? Os afetos, quando sólidos, nos acompanham pela vida. A escrita, elemento central à matéria que leciono, precisa ser emancipatória, senão vira prisão e tudo perde o sentido. Queria dizer isto para a Daniela e para todos os alunos com quem cruzei ao longo da minha trajetória em sala de aula: suas histórias estão inscritas em mim. Muito, muito obrigado.

Com todo o meu carinho,

M.

Written by Marcos M.

março 6, 2018 at 3:41 pm

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Os clichês de Natal e Ano-Novo

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Tá atrasado, mas continua valendo. É da coluna do maravilho Calligaris na Folha, em 04/01/2018.

*

Assisti ao balé “O Quebra-Nozes”, de Tchaikóvski, umas cinco vezes ao longo da infância, sempre no Teatro alla Scala, de Milão. E sempre em dezembro.

Resumindo a história, uma menina, Clara, pede, como presente de Natal, um quebra-nozes que tem a aparência de um soldado. O irmão de Clara quebra o braço do quebra-nozes, e Clara tenta consolar seu brinquedo. Enfim, ela sonha: chega um exército de ratazanas, e o quebra-nozes lidera os soldados que a protegem. Quando Clara acorda, ela encontra alguém que é exatamente o quebra-nozes do sonho.

Pelos sentimentos um pouco melados, pelo clima mágico e pela circunstância (o quebra-nozes é um presente de Natal e as nozes são um tira-gosto natalino), o “Quebra-Nozes” se tornou o espetáculo de Natal por definição mundo afora (no mês de dezembro inteiro, o balé da cidade de Nova York apresentou o “Quebra-Nozes”, como a cada ano).

Para as crianças, à condição de elas saberem um pouco a história, o balé de Tchaikóvski não é chato. E os pais gostam de mostrar uma obra de arte a seus rebentos. Mas o que resta de uma obra de arte quando ela se torna um clichê?

Uma nota dos “Diários Íntimos” de Baudelaire diz: “Créer un poncif, c’ést le génie. Je dois créer un poncif” –criar um clichê, esse é o gênio. Preciso criar um clichê.

Nota: “poncif” é uma folha estêncil, “clichê” é uma folha estereotipada ou uma chapa fotográfica de negativo: instrumentos de repetição infinita do mesmo.

Vinda de Baudelaire, a frase talvez fosse irônica. Mas entendo que, mesmo ironicamente, ele tivesse a ambição de criar um clichê, como se essa fosse a marca do sucesso cultural.

Agora, não acho que um autor sozinho, mesmo do tamanho de Baudelaire, possa criar um clichê. Os clichês são o resultado de esforços coletivos e se afirmam porque prometem uma gratificação para todos.

O Natal, por exemplo, é um extraordinário clichê. A cada ano, desencadeado pela aproximação da festa religiosa, ele volta com o mesmo pacote de afetos e com a mesma aura. O Natal nos gratifica a todos nos fazendo acreditar que somos MUITO melhores do que somos –”melhores” significa aqui mais generosos, bondosos, caritativos e solidários. Os votos para o Ano-Novo, aliás, são outro clichê, preparado pelo clichê de Natal,

Nova York, nesta estação, é o clichê dos clichês de Natal. Os turistas deixam suas cidades decoradas de luzes, papais noéis e árvores de Natal para passear na cidade que tem a reputação de ser a mais decorada de todas.

Para os brasileiros, Nova York, nestes dias, é um imenso shopping enfeitado para o Natal, só que ao ar livre e onde, pelo frio, a neve e as renas fazem sentido. Como os shoppings brasileiros, Nova York inteira está imersa numa trilha sonora natalina permanente, da qual não há como escapar. Por sorte, em Nova York, as sirenes de ambulâncias, polícia e bombeiros quebram frequentemente o encanto, lembrando que a vida real ainda existe, atrás de “Jingle Bells” e “Noite Feliz”.

Pela primeira vez na vida, fui ver as vitrines da Saks, loja de departamento na Quinta Avenida. A calçada é tomada por famílias de turistas numa espécie de sorriso congelado, não se sabe se é pela temperatura ou pelo êxtase do espírito de Natal –que inclui os olhos arregalados pela maravilha (do milagre, dos presentes, da bondade possível e das mercadorias nos mostruários das lojas).

Pois bem, as vitrines da Saks são péssimas ou, no mínimo, ordinárias –nada melhor do que cada turista já viu num comércio qualquer de sua cidade de origem. Neste ano, são cenas de “Branca de Neve e os Sete Anões”, com algumas personagens se movimentando levemente.

“Branca de Neve” da Disney como decoração natalina é um clichê dentro de um clichê. E isso torna as vitrines da Saks ainda mais encantadoras aos olhos dos turistas e dos nova-iorquinos que desfilam sorrindo para contemplá-las, pois o que eles procuram não é nenhum prazer estético, mas apenas a confirmação do clichê, sua repetição.

Mas o que a gente ganha com o clichê? No caso do Natal, a convicção de sermos todos bons, “no fundo”? Uma sensação de estabilidade, porque o clichê volta a cada ano?

Talvez. Mas suspeito que o maior atrativo do clichê seja seu caráter quase universal: basta aderir ao clichê para fazer parte de uma coletividade. Melhor todos juntos no clichê do que cada um tendo que pensar por sua conta. Não é? (estou sendo irônico, tá?)

Written by Marcos M.

janeiro 24, 2018 at 9:47 am

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This is me

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The greatest showman está longe de ter um dos roteiros mais originais do mundo, mas é sempre bom ver Hollywood resgatar o espírito dos grandes musicais da MGM. Além disso, acho fascinante a versatilidade artística do Hugh Jackman, que passa o bastão para o eficiente Zac Effron. A química dos dois é ótima. O importante é: já temos uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante para Keala Settle? O filme é dela! Eis uma prévia do workshop, com uma galera de peso da cena teatral norte-americana. Em 3:55, tente não se emocionar.

Written by Marcos M.

dezembro 28, 2017 at 7:08 pm

A empatia como experiência estética

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Na recente mostra organizada pelo Museu da Empatia, em curso no MAM de São Paulo, pessoas são convidadas a vestir sapatos aleatoriamente oferecidos. O visitante é então convidado a andar enquanto escuta histórias dos virtuais donos dos sapatos. A ideia é uma espécie de literalização da expressão “walk with other shoes”, isto é colocar-se nos sapatos do outro, no lugar do outro e assumir seu ponto de vista.

A experiência inclui-se em uma série de iniciativas que procuram trazer o universo museológico mais perto das pessoas, diminuindo a impressão popular de que a apreciação de obras de arte é uma tarefa para pessoas muito cultas. Trata-se de tentar reverter a expectativa média de que aqueles que não dominam elementos de história das artes, sociologia, filosofia ou crítica social estão confinados a uma experiência estética na qual apenas confirmarão sua exclusão de classe, de raça ou de origem. Uma atitude similar, ainda que inversa, ocorre quando o encontro com a obra de arte resulta apenas em um relato inautêntico usado apenas como signo de pertinência de classe ou como espetáculo de consumo.

É fato que a experiência com a arte contemporânea pelo público não especialista é frequentemente vivida como um confronto com o incompreensível confirmando o sentimento de inferioridade cultural. É certo também que desde o renascimento tal experiência adquiriu esta função de marcador simbólico das classes altas.

Particularmente a partir das revoluções francesa e americana e da queda do antigo regime, baseado na nobreza e na aristocracia, a capacidade de ler, entender e possuir obras de arte tornou-se um fato de distinção de classe. Um sinal confirmador que confere autenticidade e legitimidade social para a riqueza que se possui. Não basta mais ser filho de ou neto de uma linhagem familiar, é preciso também possuir dotas de educação e cultura, e isso se exprime ao modo de um saber.

Pierre Bordieu mostrou: assim como o capital financeiro tende a se concentrar, reproduzindo-se de modo acumulativo, o capital social, formado pelos laços, amizades e relações de pertinência e o capital cultural seguem esta mesma rota reprodutiva. Isso pode nos ajudar a entender a recente onda de repúdio a certos artistas e suas exposições (como a Queermuseu de Porto Alegre), de ódio aos intelectuais e professores, (como a fogueira pública na qual a imagem de Judith Butler foi queimada como “bruxa”), de ataques a universidades e centros de pesquisa (com redução de verbas e sucateamento programado).

Tudo se passa como se estivéssemos atacando posições, que têm por dever de ofício fornecer meios e cuidar dos processos de tratamento de conflitos. Esta é a função das diferentes formas de curadoria, termo que associamos com a prática da montagem de exposições museológicas, mas que tem uma origem filosófica antes de se tornar uma metáfora médica. A cura é antes de tudo cuidado consigo.

Uma das vertentes que formaram a noção de cultivo, educação ou de formação são justamente as práticas de cuidado.  Cuidar é cuidar do conflito, não é suprimi-lo ou silenciá-lo. Cuidar é um percurso, não uma condição ou um ato isolado. Cuidar e controlar podem andar perigosamente juntos, difícil saber quando uma prática está parasitando a outra.

O termo empatia foi introduzido por Robert Vischer em Sentimento ótico da Forma(1873), definido como “projeção do sentimento humano para o mundo da natureza”. Foi na tradução ao inglês que o psicólogo Tietchner, passou o termo alemão “Einfüllung” introduzindo assim a derivação grega de pathos, em “empathy”.  É certo que pathos em grego remete tanto a paixão, quanto sofrimento e ainda capacidade de afetar-se com o outro, contudo o termo alemão acrescenta o radical ein (um) ao verbo fullen (sentir) o que nos leva o sentimento de unidade.

Vischer tentou discernir este sentimento de unidade de experiências conexas como o sentir com (Mifüllen), o sentir junto (Zuzamenfüllen) e o sentir próximo (Nachfüllen). Ele também tentou separar sentimentos (Füllen) de sensações (Empfindung). A participação do corpo, a presença do humor comum e a compaixão ficam pouco representadas quando olhamos para a separação mais tradicional entre a empatia e a simpatia. A simpatia envolve o processo de identificação e simultaneidade, sentir junto ou o mesmo que o outro.

A polêmica terminológica seria apenas um preciosismo senão atentássemos para a importância da diferença entre estes processos. Uma cultura da simpatia dissemina-se pela popularização de imagens digitais e pela condição, cada vez mais importante, de uma afinidade estética preliminar como condição para a produção de sentimentos de admiração, respeito e interesse. Mas o que podemos esperar da simpatia é a experiência moral da tolerância pela partilha das identificações. Substância que anda em falta, mas parece muito pouco para tratar nosso cenário de conflitos.

Sabe-se que Freud leu Lipps, que leu Vischer, e que o fundador da psicanálise usava amplamante o termo Einfüllung para designar os encontros mais promissores entre analista e analisante. Mas como aprender a desenvolver esta aptidão tão necessária para o cuidado, para a curadoria e para a cura?

Poderíamos pensar na empatia, combinando sua versão alemã com a inglesa, como um percurso. Ela não é uma feto, mas uma pequena gramática do encontro com o outro. Uma gramática que é ao mesmo tempo psicológica, política e estética.

Notemos que a definição de Vischer parte da ideia muito simples, ainda que poderosa, de que a empatia é a atribuição de traços humanos a natureza. Longe de referir-se apenas à expressão do ideário romântico, no qual Vischer bebia, ele introduz como primeiro passo da empatia o reconhecimento de si naquilo que é inumano por definição, a natureza, com suas expressões paisagísticas, com seus mares convulsivos, com suas naturezas mortas.

Este é um critério importante, pois a empatia não é apenas colocar-se no lugar do outro, (another shoes) mas perceber o outro como outro e não apenas como um duplo de si mesmo. Colocar-se no ponto de vista do outro confia demais na noção perspectiva de ponto de vista. Ponto de vista é um ponto geométrico, ele não tem corpo, não tem pedras no sapato ou calos que você não percebe quando se translada ao ponto de vista reflexivo do outro.

Tomemos a pintura de Carl Spitzweg (1808-1885) que exemplifica a paisagem estética que Vischer tinha à sua disposição. Ele consegue despertar extrema simpatia ao produzir a ilusão de um mesmo ponto de vista quando o espectador também contempla solitário as nuvens e a paisagem distante. O franco contraste com as plantas que mimetizam a vida no campo, estabelecem a saudade como sentimento empático projetado na natureza. Uma vida simples, com relações orgânicas, sem tanta preocupação, despertará certamente simpatia.

“Der Bücherwurm”, pintura em óleo sobre canvas, de Carl Spitzweg (1857). Foto: Reprodução  

A mesma solidão que se perceberá nesta tela, na qual o personagem é esmagado pelo peso dos livros e por sua improvável posição de leitura em cima de uma escada. Mas ocorre que ele não se percebe em perigo, absorto que está em sua tarefa. Colocar-se no ponto de vista do outro, sim, mas para depois separar-se dele, enigmatizá-lo, perceber que ele mesmo não percebe seu ponto de vista, nem o olhar de quem o espreita em sua privacidade

O terceiro movimento da empatia refere-se ao retorno dos traços de não identificação, os traços inumanos ou desapercebidos ao próprio sujeito.  Aqui está a relação com este outro que Lacan chamou de inconsciente. O Outro no outro, e não o outro do Outro. Isso retroage sobre o espectador produzindo distância ou aproximação, envolvendo uma primeira fase do que pode ser compartilhado. É o que se observará nas telas que fazem da paisagem uma estratégia de aproximação entre os personagens.

O quarto tempo da empatia é a retribuição do percurso ao próprio outro que se produziu nestas três passagens anteriores. A partilha do sensível não é necessariamente uma partilha amorosa, nem mesmo de admiração ou aprovação. Empatia é justamente uma experiência que envolve um momento de “desidentificação” e estranhamento. Este último momento envolve, portanto, uma espécie de crítica do juízo, uma suspensão da determinação que encerra o outro em sua imagem.

“Dirndln auf der Alm”, óleo sobre canvas, de Carl Spitzweg (1870). Foto: Reprodução

Um recurso ou sinal de que isso se efetua pode ser encontrado na emergência do humor e do cômico. Afinal é em sua teoria sobre os chistes que Freud desenvolve a noção de empatia (Einfüllung). Não seria por outro motivo que o quadro preferido dos alemães, em uma recente enquete, é justamente a obra de Spitzweg chamada “Pobre Poeta” (1839):

Reduzido a um cubículo com goteiras, com sua caneta e seu roupão amarrotado ele tem uma face compenetrada, que nos faz pensar no ridículo da situação daquele que quer pensar os problemas mais grandiloquentes tendo diante de si as mais óbvias e iminentes limitações.

Mas não é essa a condição e todos nós?  Vê-se assim como a empatia parte do particular, descobre dentro dele a sua singularidade própria para terminar em um movimento de universalização, que bem se expressa na vertente da compaixão.

“The Couple on the Bench” (1860), de Carl Spitzweg. Foto: Reprodução 

Os limites de nossa capacidade de empatia são também os limites de nossa experiência de linguagem, de nossa forma ótica e mais ainda, de nossa própria condição. Por isso quando encontramos uma figura grotesca, meio homem, meio mulher, meio velha tentando se fazer jovem, macrocéfala com mãos desproporcionais e vestuário inapropriado, estamos aí sim diante da ocasião para a construção estética da empatia.

Esse era também o desafio que a arte bruta, transformada por Hitler em arte degenerada, propunha. Este, aliás é um dos aspectos mais interessantes da teoria de Judith Butler, a saber, a ideia de que longe de existirem apenas dois gêneros há muitos gênero indiscerníveis, gêneros que foram historicamente tratados como abjetos. O quadro de Quinten Metsys (1465-1530), provavelmente retrata uma pessoa que sofria de osteíte deformante, informação que parece bastar para mudar nosso sentimento inicial com a personagem.

Aqueles que queimam bruxas em nossa época, valendo-se do cristianismo para perseguir formas novas de empatia, aqueles que veem pedofilia em qualquer nudez, ou os que julgam uma pintura pelo seu tema, estão destruindo a experiência, mas extensa da empatia. Com isso se privam de um recurso fundamental para tratar conflitos em geral de modo a torná-los produtivos. O cuidado é difícil de ensinar, mas sabemos quando ele está sendo maltratado.

“The Ugly Duchess” (circa 1513), de Quentin Massys. Foto: Reprodução

***Christian Dunker, Página B!, 09/12/2017. A matéria original você encontra aqui.

Written by Marcos M.

dezembro 10, 2017 at 10:49 am

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O pedestre (Ray Bradbury)

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Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noide de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as calçadas enluaradas nas quatro direções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só, e com uma decisão final tomada, um caminho escolhido, sairia andando, soltando rastros de ar congelado à sua frente, como a fumaça de um cigarro.

Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.

O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.

Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.

— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. — O que está passando hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Por onde estão correndo os “cow-boys”, e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?

A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.

— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?

Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.

Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.

Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.

Uma voz metálica dirigiu-se a ele:

— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!

Ele parou.

— Erga as mãos!

— Mas… — ele falou.

— Mãos para cima! Ou atiramos!

A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.

— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.

— Leonard Mead — respondeu.

— Mais alto!

— Leonard Mead!

— Negócio, ou profissão?

— Acho que me pode chamar de escritor.

— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.

— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.

— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?

— Andando — disse Leonard Mead.

— Andando!

— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.

— Andando, só andando, andando?

— Sim, senhor.

— Andando para onde? Para que?

— Para tomar ar. Andando para ver.

— Seu endereço.

— Onze, Sul, rua Saint James.

— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?

— Sim.

— E tem uma tela para ver, na sua casa?

— Não.

— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.

— É casado, Sr. Mead?

— Não.

— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.

— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.

— Não fale, a menos que seja interpelado!

Leonard Mead esperou, sob a fria noite.

— Apenas andando, Sr. Mead?

— Sim.

— Mas ainda não explicou com que propósito.

— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.

— Já fez isso muitas vezes?

— Toda noite, ha’ anos.

O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.

— Bem, Sr. Mead — disse.

— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.

— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.

— Espere, não fiz nada!

— Entre.

— Eu protesto.

— Sr. Mead.

Ele caminhou como um homem subitamente bêbada. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.

— Entre.

Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.

— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas…

— Para onde está me levando?

O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.

Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.

Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.

— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.

Ninguém respondeu.

O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.


Extraído de E de Espaço © 1978 by Hemus-Livraria Editora Ltda.
Título original: S is for Space © 1966 by Ray Bradbury


Written by Marcos M.

dezembro 2, 2017 at 9:32 pm

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“Viver é muito perigoso”

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Tenho pensado muito nas árduas travessias da vida, talvez muito influenciado por ter voltado a transitar pelo universo de Guimarães Rosa para uma pesquisa recém-iniciada. “Viver é muito perigoso”, avisa-nos Riobaldo ao longo de seu percurso pelo Grande Sertão. Talvez seja mesmo. Nesta semana, estou dando as últimas aulas do ano para muitas de minhas turmas. Eles seguem, eu fico. Saem do banco de trás, para tomarem o volante de suas próprias vidas, parafraseando o sempre incrível Affonso Romano da Sant’Anna. Um dia eles crescem, amadurecem e seguem adiante. Fico observando só do longe, celebrando as vitórias e sofrendo com algumas derrotas. Sinto-me honrado por fazer da palavra, instrumento pelo qual tento tanto respeito, meu objeto de trabalho. Quando a vida apertar e a alma pesar- e olha que tem pesado muito ultimamente-, vale lembrar das pequenas grandes coisas que fazem tudo valer a pena e que me fazem dar sentido ao que eu faço ano após ano. Dezembro está batendo na nossa porta, as decorações natalinas já estão ornando a cidade e mais um ciclo se encerra. Faz parte. Pra um cara que odeia despedidas como eu, é sempre mais difícil. Cada adeus traz consigo a tímida esperança de um doce reencontro nas esquinas tortuosas por aí. Afinal, despedidas fazem parte dos encontros, desencontros e reencontros que a vida proporciona. Cada um que cruza o meu caminho e a quem entrego meu afeto está inscrito em mim. É indelével. Viver é perigoso, sim, Riobaldo. Mas também pode ser muito, muito gratificante.

Written by Marcos M.

novembro 29, 2017 at 5:42 pm

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