O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Para Duda, em qualquer ocasião que o valha

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Querida Duda,

Daqui a oito dias, 2 horas e alguns minutos, você completa o seu terceiro aniversário. Parabéns, minha pequena!
Às vezes, as palavras me faltam e, quando as coloco no papel, elas parecem sair mais facilmente.
Dindo te ama, Dudinha. A gente fica um tempo sem se encontrar, quando vejo, você já está uma moça, toda cheia de si indo de mochilinha para a escola. Num piscar de olhos. Nossa, como eu queria poder congelar o tempo nesse momento, sabia?
A primeira vez em que eu te peguei no colo, todo desajeitado, com medo de quebrar.
Aquele seu sorriso cantando parabéns no aniversário do ano passado. Um sorriso tão grande em que cabia o mundo.
A vida é assim mesmo; a gente cresce de repente, sem pedir licença a ninguém.
Não sei quando você vai ler isso, mas tem algumas coisas que eu gostaria de te dizer, que eu também gostaria de ter ouvido há algum tempo.
Primeiro, ame sua família, Duda. Todos nós te amamos muito e seremos os primeiros a te ajudar quando você levar uns tombos aí pela vida. A gente faz o curativo e te ajuda a levantar. Aliás- que sua mãe não me escute-, mas meu papel de dindo é o de te mimar mesmo- menos quando você começar os namoricos, porque aí seus pretendentes vão ter que passar por um rigoroso processo seletivo. E não se fala mais nisso até você fazer uns…30 anos. Combinado?
Segundo, parece chato, mas você vai aprender que não é: estude. Estude, estude e estude mais um pouco, pequena. O conhecimento é a única coisa que ninguém nunca vai tirar de você. Vai por mim.
Quando eu era garoto, tinha pavor de falar em público. Nossa, era o horror. Hoje, incrivelmente, é só o que eu faço. Vai entender. Minha memória é péssima, mas de uma cena eu me lembro: era a festa de final de ano da escola e eu devia ter, sei lá, uns 5 anos. E não havia meio de eu entrar naquele teatro. Vieram meus pais, meus avós, a diretora. Até que, do nada, vem a professora, a quem eu sou eternamente grato, se ajoelha diante dos meus olhos, enquanto eu tremia e solta: “Marcos, respira fundo, vai lá e mostra pra eles o aluno excelente que você é.”
Foi o que eu fiz. Respirei fundo e encarei aquela plateia de 300 pais alucinados- sem câmeras, ainda-, com uma dança ridícula típica dessas apresentações do jardim de infância. Graças a Deus não há registros disso.
Agora, digo o mesmo: respira fundo e vai lá mostrar ao mundo a filha, afilhada, neta de quem você é.
Obrigado por me mostrar que a vida vale a pena.
Com amor,
M.

Written by Marcos M.

December 15, 2014 at 11:36 am

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Feed the birds

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Senhoras e senhores, eis um dos meus filmes favoritos, com uma das cenas mais marcantes da minha infância.

Written by Marcos M.

December 15, 2014 at 7:57 am

nós

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- Fala, braço!
– Pô, coé, mano! Tranquilidade?
– Suave. Se liga, tu fez a parada lá?
– Qual parada?
– Do bagulho lá, pô!
– Ih, pode crer. Nem.
– Tu é mó vacilão, lek.
– Mas tá de boa, qnd eu chegar em casa, te mando.
– Já é.
– Nós!
– Ah, e manda aquele outro negócio tb.
– Nós. Flw.
– Vlw.
*
Enquanto isso, estupefato, admiro os caminhos tortuosos pelos quais a comunicação moderna tem seguido. De fora, tento penetrar surdamente nesse mundo rocambolesco da linguagem juvenil, em que um simples pronome reto, isoladamente, produz um poderosíssimo efeito estilístico. E nada. Continuo de fora mesmo.
Talvez o arcaico seja eu.
Arcaicos somos nós. Nós?

Written by Marcos M.

December 13, 2014 at 10:50 am

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The Last Five Years

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Porque uma das minhas peças favoritas dos últimos tempos virou filme e com dois dos meus atores favoritos. Anna Kendrick e Jeremy Jordan: é muito amor.

Written by Marcos M.

December 8, 2014 at 7:13 pm

Saudade

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Eu me lembro como se fosse hoje: quando eu era garoto, andando de bicicleta, fui me aventurar uma vez numa ladeira e, claro, voei longe. Coisa de moleque; faz parte. Obviamente, além de quase ser atropelado, matei dona Luiza- internacionalmente conhecida como minha mãe- do coração. Sei que tenho a cicatriz até hoje e, quando olho para ela, começo a rir da minha idiotice. Boa, Marcos.
A questão é que, quando a gente se corta, a solução é (relativamente) simples: vai lá, engole o choro, passa um remédio, faz um curativo e pronto. Novo de novo.
Só que há dores que não são tão fáceis assim de serem tratadas- até porque viver é complexo pacas.
De todas as dores, acho que a que mais dói é a saudade, sabiam? De algo ou de alguém, não importa.
Sou um saudosista por natureza, meus amigos, então entendo bem disso.
Dizem por aí que saudades não é sentir a ausência, e sim sentir a presença. Faz sentido.
De amizades que se desfizeram.
De familiares que já partiram.
De namoros que terminaram.
Saudade, no fundo, no fundo, é conviver com a dúvida. E isso sim é o que mais dói.
Será que ela continua com as mesmas manias daquela época? De ficar com vergonha e colocar o cabelo atrás da orelha? Ou então de morder os lábios quando fica nervosa? Será que conseguiu terminar aquela pós-graduação? Será que encontrou alguém?
São tantas as mensagens que não foram enviadas e, hoje, morro sufocado pelo excesso do não-dito.
Em situações como essa, o mais difícil é encontrar subterfúgios para preencher o silêncio arrebatador que nos toma a alma e controlar os pensamentos que chegam sem nem pedir licença.
O difícil, no final das contas, é esquecer.

Written by Marcos M.

December 8, 2014 at 12:25 pm

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A atualidade da poesia, por Antonio Cícero

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Frequentemente, ao fazer conferências ou participar de mesas de debates pelo Brasil afora, ouço pessoas que perguntam se a poesia escrita não seria um gênero inteiramente anacrônico no mundo acelerado em que vivemos, cercados de “smarphones”, “tablets”, “laptops”, “Facebooks”, “Twitters”, “Instagrams”, “WhatsApps” etc.
Creio entender a razão pela qual a atualidade da poesia é mais questionada do que a de outros gêneros artísticos tradicionais. É que, de maneira geral, as outras artes podem ser apreciadas não apenas de modo refletido e profundo, mas também são capazes de nos entreter de modo ligeiro e superficial. Podemos apreciar uma peça musical mesmo enquanto estamos, por exemplo, trabalhando. E podemos apreciar uma obra plástica como uma pintura ou uma escultura, por exemplo, “en passant”. A poesia escrita, por outro lado, quase sempre exige de nós, para que a apreciemos, que a leiamos de modo refletido e profundo.
A mais evidente razão para isso é que a linguagem do poema não funciona do modo convencional e cotidiano. Normalmente, usamos a linguagem como um instrumento para a comunicação e o pensamento prático, utilitário, instrumental. Pois bem, a linguagem do poema nem se limita a ser mero instrumento ou meio, nem está a serviço do pensamento instrumental. No poema, fundem-se meio e fim, assim como outras categorias que, no uso convencional da linguagem, tendem a se manter separadas, tais como essência e aparência, forma e conteúdo, significante e significado etc. Por isso, não podemos ler um poema ao modo impensado, ligeiro, superficial, automático, irrefletido em que lemos a maior parte das coisas. A leitura do poema toma tempo, e dá trabalho.
Ora, algo que, além de tomar tempo e dar trabalho, não oferece qualquer perspectiva de trazer alguma recompensa palpável — e, de preferência, pecuniária — é simplesmente incompatível com a hoje predominante apreensão instrumental do ser. Para esta, ela não faz senão atrapalhar a vida.
Pois bem, é exatamente por ser capaz de impedir a redução da vida a essa sua dimensão instrumental que a poesia é importante no mundo contemporâneo. É ao subverter ou perverter a linguagem instrumental e sua correspondente apreensão instrumental do ser que a poesia convida o leitor a se permitir livremente enredar e fascinar pelos sentidos dos versos, palavras, paronomásias, metáforas, metonímias, alusões, sugestões, melodias, ritmos, silêncios, espaços etc. dos poemas. E é ao deixar, nesse empenho, interagirem e brincarem em seu pensamento razão, emoção, intelecto, sensibilidade, intuição, memória, senso de humor etc., que o leitor enriquece a vida com um outro modo de apreensão do ser: o poético.

Written by Marcos M.

December 3, 2014 at 2:11 pm

Copacabana

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Desci do táxi ali na esquina da Santa Clara com a Nossa Senhora. Eu contra a multidão, contando os segundos à espera do sinal verde. Todos indo para algum lugar. Vindo de algum lugar.
Copacabana tem alma velha, mas transpira o ritmo da juventude.
Copacabana, para mim, pulsa.
Desde garoto, cresci visitando a minha família ou passando horas com os amigos ali na antiga Modern Sound- que, hoje, é uma…Renner. Por favor, 1 minuto de silêncio. Entre discos, livros e calçadas, eu aprendi a ser.
O (ótimo) documentário Edifício Master nos leva para visitar a vida e os apartamentos quitinetes de diversos moradores do bairro; a mais marcante para mim foi a professora de inglês maluquinha- fazer o quê? Tenho apreço pelos loucos. Ela, em um lampejo de sanidade, diz ter medo de Copa, por não saber se são poucas calças ou muitas pessoas.
É isso!
Andar pela Barata Ribeiro é estar no epicentro do furação. Buzinas, vendedores, maratonistas urbanos.
Aliás, é em Copacabana onde fica o meu lugar favorito nesta cidade: o forte. Não há coisa melhor do que sentar ali do lado de fora na Colombo, pedir o melhor cappuccino do Velho Oeste. E contemplar. E sentir. E viver.
É dessas calçadas- tão eternizadas em músicas e poemas- que nasce a vida. Que nascem as pessoas.
Outro dia, vi uma cena linda. Um casal de velhinhos (e já poderia parar por aí), cada um com os seus, chutando, 80 anos, seguindo lentamente contra o fluxo. Ele de chapéu e bigode grisalho. Ela, de vestido florido e numa cadeira de rodas.
Impressionou-me a leveza com que ele a conduzia pelas ruas esburacadas. Era como se o tempo tivesse parado e ambos ainda tivessem 20 anos, quando ele a conduzia pela valsa matrimonial na noite do casamento- muitas bodas atrás.
Aquilo mexeu comigo; afinal, em tempos tão sombrios como aqueles em que vivemos, a realidade nos chama a atenção e nos mostra que é nas coisas simples que encontramos a salvação.
Foi ali, na esquina da Santa Clara, que entendi, com ajuda daquele casal desconhecido, o que é amor.
O resto é o resto.

Written by Marcos M.

November 20, 2014 at 4:57 pm

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