O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Serendipidade

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Foi naquela tarde de quarta que ele começou a acreditar nisso que chamam por aí de destino.
Logo cedo, pegou o carro, que não quis ligar. Sem insistir muito, decidiu ir de metrô para o trabalho. Por que não?
Sairia às 16h, como sempre. Entre papéis e ligações, saiu precisamente às 16h07m, correndo para o analista.
No meio do caminho, recebeu uma ligação, pedindo para adiar a consulta em uma hora.
Tudo bem, tomaria um café e leria seu livro.
Se foi o acaso, não saberia dizer.
Eram 17h03m quando chegou ao cruzamento da Paissandu com a Marquês de Abrantes. Olhou para o relógio. “Dá tempo”.
Entre a multidão, viu um rosto que lhe parecia familiar.
Prestes a se perder no mar de gente, era Ela. Ao menos, parecia ser.
Depois de todos esses anos, dificilmente confundiria aquele rosto.
Tinha os 20 segundos de um sinal fechado para tomar um decisão.
Pensou.
Hesitou.
3,2…
Chamou-a pelo nome.
No mesmo instante, o sinal abriu, as pessoas, correndo ao seu redor, seguiram adiante e ela se virou- o mesmo rosto angelical de 10 anos atrás, talvez um pouco envelhecido, mais maduro. O rosto pelo qual se apaixonou. Os mesmos trejeitos. A mesma forma doce de jogar o cabelo para trás da orelha, quando não sabia o que dizer.
Toma um café comigo?
O pôr-do-sol refletia na mesa da varanda em que estavam sentados.
Entre um cappuccino e um croissant, resumiam-se 3.650 dias de distanciamento, sufocados pelo não-dito.
Na calçada, os transeuntes seguiam apressadamente suas vidas.
E se o carro tivesse funcionado? E se não tivesse entrado naquele metrô? E se o analista não tivesse cancelado?
Se fora o acaso, não sabia dizer.
Foi naquela tarde que começou a acreditar nisso que chamam por aí de destino.

Written by Marcos M.

August 17, 2014 at 3:51 pm

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1 minuto de silêncio

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Caro Robin,

Em uma das cenas do filme O Homem Bicentenário, você interpretou um robô em busca da própria humanidade. Vendo geração após geração de pessoas queridas morrendo, seu personagem, Andrew, lança a seguinte frase: “não é justo as pessoas chorarem e eu não; é uma dor que eu não consigo expressar”, lembra?
Hoje me sinto meio Andrew.
Foi assistindo aos seus filmes que guardo boa parte das minhas memórias.
Nunca me esquecerei de quando, lá nos idos de 1993, você me fez querer ter uma babá como a Mrs. Doubtfire- um pai fantasiado de babá, para poder ficar mais perto dos próprios filhos.
Ou de quando, um pouco mais adiante, você me fez sonhar, ao lado da Julia Roberts, quando lançou um novo olhar sobre o Peter Pan, o menino que não queria crescer.
Ou mesmo quando me fez ficar maluco atrás de um jogo igual ao Jumangi pra jogar.
Cresci ao seu lado. Cresci assistindo aos seus filmes.
Nesses mundos do faz-de-conta, Robin, você falou com todos nós.
Nas últimas cenas d’O Homem Bicentenário, o robô Andrew consegue, sim, ser reconhecido como humano e ganha o título de homem que mais viveu na história. Fique tranquilo, meu caro, pois você viverá muito, muito mais de 200 anos, estou certo.
Como o robô que queria ser gente ou o menino que não queria crescer, sua arte tocará gerações por vir.
Nestas palavras tortuosas- que sempre me faltam em momentos como este-, ficam o meu lamento e, acima de tudo, o meu obrigado.
Sigamos em frente.
Um abraço carinhoso do
Marcos
11/8/2014

Written by Marcos M.

August 11, 2014 at 9:35 pm

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O guardador de rebanhos IX

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Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

- Alberto Caeiro

Written by Marcos M.

August 9, 2014 at 10:57 am

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Quixotesco

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don_quixote_and_sancho_panza

Inspirado por Daumier e Cervantes, sigo meio quixotesco por esses dias, lutando contra gigantescos moinhos de ventos imaginários. Todos nós, aliás. A diferença é que poucos percebem. Treinemos o olhar.

Written by Marcos M.

August 5, 2014 at 3:54 pm

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Grifei num livro

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“A escrita não é a vida, mas acho que escrever pode ser uma forma de voltar a viver.” Stephen King
*
Não reagimos bem à felicidade do outro simplesmente porque ela ameaça nossa tristeza”- Carpinejar
*
“Temos de continuar a viver até que nosso coração se parta dentro de nós”- na biografia de Van Gogh
*
“Mas, quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações.”- Proust, No Caminho de Swann
*
“‘A propósito, Monsieur Marius, eu acho que fui um pouco apaixonada por você’, Eponine tentou esboçar um último sorriso e morreu.”- Victor Hugo, Os Miseráveis

Written by Marcos M.

August 2, 2014 at 11:20 am

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A arte de ser feliz

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A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
– Cecília Meireles

Written by Marcos M.

July 30, 2014 at 8:26 pm

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Rua da memória

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Hoje acordei com gosto de passado. Volta e meia, somos pegos de surpresa por esses ventos de outras épocas e pelas memórias de um tempo que achávamos estar esquecido.
Parado em frente à janela, nesta manhã chuvosa de domingo, eu me lembrei de um tempo. Um tempo não muito distante nas esquinas tortuosas do passado. Um tempo em que, em um fechar de olhos, materializou-se e se fez Presente.
Minha infância- como a de todos nós- teve sabores, cheiros e sons.
Eu me lembro do sabor do arroz que só a minha avó, boa e velha dona Lili, sabia fazer.
Eu me lembro do cheiro de guardado que a casa em Teresópolis trazia assim que chegávamos para as férias de verão.
Eu me lembro do som daquele telefone de disco, modelo anos 80, tocando, com o meu avó ansioso do outro lado da linha para dar bom-dia.
Outro dia, depois de muito tempo, passei de carro em frente à vila onde moravam meus avós paternos. Ali, entre os jardins verdes e as pequenas casas de telhado vermelho, passei parte da minha infância.
O carro ficou parado durante alguns instantes. Os minutos, naquele momento, escorriam como pequenos grãos de areia indo de um lado para o outro de uma ampulheta.
O Tempo fez sua ação.
Os jardins verdes onde eu brincava com os vizinhos deram lugar a um estacionamento.
Parte das casas foi vendida para a construção de um prédio com varandas e os telhados vermelhos viraram destroços.
Aquela vila, de anos atrás, se perdeu. A minha Macondo foi devastada.
Segui adiante pela rua encharcada de cerejeiras em flor. À medida que o carro ganhava velocidade, a paisagem se transformava em borrões e fui levado de volta a 2014.
Abri os olhos e me vi de novo na minha sala, com o sabor do arroz da dona Lili na boca. E com um sorriso tímido no rosto.

Written by Marcos M.

July 27, 2014 at 7:34 pm

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