O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

A arte de ser feliz

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A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
– Cecília Meireles

Written by Marcos M.

July 30, 2014 at 8:26 pm

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Rua da memória

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Hoje acordei com gosto de passado. Volta e meia, somos pegos de surpresa por esses ventos de outras épocas e pelas memórias de um tempo que achávamos estar esquecido.
Parado em frente à janela, nesta manhã chuvosa de domingo, eu me lembrei de um tempo. Um tempo não muito distante nas esquinas tortuosas do passado. Um tempo em que, em um fechar de olhos, materializou-se e se fez Presente.
Minha infância- como a de todos nós- teve sabores, cheiros e sons.
Eu me lembro do sabor do arroz que só a minha avó, boa e velha dona Lili, sabia fazer.
Eu me lembro do cheiro de guardado que a casa em Teresópolis trazia assim que chegávamos para as férias de verão.
Eu me lembro do som daquele telefone de disco, modelo anos 80, tocando, com o meu avó ansioso do outro lado da linha para dar bom-dia.
Outro dia, depois de muito tempo, passei de carro em frente à vila onde moravam meus avós paternos. Ali, entre os jardins verdes e as pequenas casas de telhado vermelho, passei parte da minha infância.
O carro ficou parado durante alguns instantes. Os minutos, naquele momento, escorriam como pequenos grãos de areia indo de um lado para o outro de uma ampulheta.
O Tempo fez sua ação.
Os jardins verdes onde eu brincava com os vizinhos deram lugar a um estacionamento.
Parte das casas foi vendida para a construção de um prédio com varandas e os telhados vermelhos viraram destroços.
Aquela vila, de anos atrás, se perdeu. A minha Macondo foi devastada.
Segui adiante pela rua encharcada de cerejeiras em flor. À medida que o carro ganhava velocidade, a paisagem se transformava em borrões e fui levado de volta a 2014.
Abri os olhos e me vi de novo na minha sala, com o sabor do arroz da dona Lili na boca. E com um sorriso tímido no rosto.

Written by Marcos M.

July 27, 2014 at 7:34 pm

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Antíteses

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TUDO ESTÁ PERDIDO

Uma grande amiga historiadora, após o término do doutorado, decidiu desbravar novas áreas do conhecimento foi correr atrás de um sonho antigo: estudar Psicologia. Bravo! Depois de consolidar uma carreira, resolveu começar do zero, escrever uma nova página. Que orgulho.
Eis que ela se viu, então, de volta às cadeiras do primeiro período da faculdade e, consequentemente, convivendo com jovens de seus 18 anos. Dia desses, eis que ela me liga, quase às lágrimas.
O caso foi que, em uma das aulas iniciais- Introdução a sei-lá-o-quê-, o professor discutia algo sobre culpa coletiva, apontando, por exemplo, a questão de alemães que até hoje, anos e anos depois, ainda carregam consigo a culpa da Segunda Guerra e tal.
Um menino levanta a mão e traz à tona um debate sobre a ditadura e o AI-5, dizendo que, de certa forma, também se sentia culpado. Apesar de questionável, vá lá.
Do nada, imersa em suas anotações, minha amiga sente alguém cutucando seu braço. Era a menina do lado, com um ar incrédulo e confuso, pronta para lançar a seguinte pergunta:
– AI-5 é o quê? Um celular?
Encerrou por hoje, meus amigos.

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

É fato que os conflitos na faixa de Gaza só ilustram a perspectiva dos tempos sombrios em que vivemos. Só que, às vezes- bem às vezes mesmo-, temos a sensação de estarmos fazendo a coisa certa. Hoje tive um desses momentos.
A quilômetros e quilômetros da zona de conflito entre israelenses e palestinos, em uma pequena sala de aula na zona sul do Rio de Janeiro, adolescentes de 16, 17 anos me fizeram acreditar que, sim, ainda há motivos para acreditar em alguma transformação. Em um debate que tinha tudo para dar errado, vi surgir nos rostos desses jovens a busca pelo saber e pelo entendimento. Um cessar fogo temporário, ainda que tão distante.
Sigamos lutando com as palavras, meus caros.
É preciso lutar.
É preciso debater.
É preciso sobreviver.

Written by Marcos M.

July 23, 2014 at 7:51 pm

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África

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Aconteceu num debate, num país europeu. Da assistência, alguém me lançou a seguinte pergunta:

– Para si, o que é ser africano?

Falava-se, inevitavelmente, de identidade versus globalização. Respondi com uma pergunta:
– E para si, o que é ser europeu?
O homem gaguejou. Não sabia responder. Mas o interessante é que, para ele, a questão da definição de uma identidade se colocava naturalmente para os africanos.
Nunca para os europeus. Ele nunca tinha colocado a questão ao espelho.
– Mia Couto

Written by Marcos M.

July 22, 2014 at 7:12 pm

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Eponine

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“Now, for my trouble, promise me–“

And she stopped.

“What?” asked Marius.

“Promise me!”

“I promise.”

“Promise to give me a kiss on my brow when I am dead.–I shall feel it.”

She dropped her head again on Marius’ knees, and her eyelids closed. He thought the poor soul had departed. Eponine remained motionless. All at once, at the very moment when Marius fancied her asleep forever, she slowly opened her eyes in which appeared the sombre profundity of death, and said to him in a tone whose sweetness seemed already to proceed from another world:–

“And by the way, Monsieur Marius, I believe that I was a little bit in love with you.”

She tried to smile once more and expired.

Written by Marcos M.

July 10, 2014 at 8:36 pm

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Vitória nossa

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O que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia?
Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos, nem aos outros. Não temos nenhuma alegria que tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve a bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de sermos inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e de ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor a nossa indiferença, disfarçando nossa indiferença com angústia, disfarçando com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado, por termos a sensata mesquinhez de lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sidos ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo”, e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, e por isso todos nem sabem se amam. Temo sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de franqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia…
– Clarice Lispector

Written by Marcos M.

July 5, 2014 at 3:28 pm

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Rocky, o lutador

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Outro dia, no trem a caminho de central London, vi algo que me chocou muito. Era um anúncio de uma organização protetora de animais abandonados. No anúncio, eles mostravam uma foto do Rocky, um bulldog, cujo dono, ao decidir que não queria mais uma cachorro, decidiu dar um tiro no próprio bicho. Um tiro. Graças à atuação dos veterinários, o Rocky conseguiu sobreviver e estava se recuperando. Não consigo entender, meus amigos. De verdade. É cruel, é brutal, é desumano. Volta e meia, a gente vê ali na Avenida Brasil animais entre os carros, já repararam? Animais cujo destino é lutar contra os carros e tentar escapar do inevitável atropelamento. Descobri que muitos são levados pelos próprios donos e largados ali à própria sorte. “O que os olhos não veem o coração não sente”.
Sente, sim. E muito.
Ah, dá muito trabalho. Não quero mais.
Ah, ter que chegar do trabalho e levar pra passear? Tô fora.
Ah, tá latindo alto. Morra!
Como se fosse um brinquedo usado e descartável.
Nunca vou me esquecer desta cena. Meu primeiro cachorro morreu aos 12 anos, de um problema respiratório crônico, em casa, nos braços do pai. Sofremos muito. Chegar em casa e não ouvir os latidos que, aparentemente, incomodam tanto. Ver a coleira pendurada e saber que ele não estaria mais se enroscando nela- ou mordendo tentando escapar. Ver vazios os potes de ração e de água. Dói. É uma ausência presente que custa a passar. Se é que passa.
Não entendo o fato de alguém, arbitrariamente, decidir brincar com a vida desses pequenos grandes companheiros.
É, meus caros, acho que aquele tiro no Rocky acabou mesmo acertando em mim.

Written by Marcos M.

July 1, 2014 at 3:53 pm

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