O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Copacabana

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Desci do táxi ali na esquina da Santa Clara com a Nossa Senhora. Eu contra a multidão, contando os segundos à espera do sinal verde. Todos indo para algum lugar. Vindo de algum lugar.
Copacabana tem alma velha, mas transpira o ritmo da juventude.
Copacabana, para mim, pulsa.
Desde garoto, cresci visitando a minha família ou passando horas com os amigos ali na antiga Modern Sound- que, hoje, é uma…Renner. Por favor, 1 minuto de silêncio. Entre discos, livros e calçadas, eu aprendi a ser.
O (ótimo) documentário Edifício Master nos leva para visitar a vida e os apartamentos quitinetes de diversos moradores do bairro; a mais marcante para mim foi a professora de inglês maluquinha- fazer o quê? Tenho apreço pelos loucos. Ela, em um lampejo de sanidade, diz ter medo de Copa, por não saber se são poucas calças ou muitas pessoas.
É isso!
Andar pela Barata Ribeiro é estar no epicentro do furação. Buzinas, vendedores, maratonistas urbanos.
Aliás, é em Copacabana onde fica o meu lugar favorito nesta cidade: o forte. Não há coisa melhor do que sentar ali do lado de fora na Colombo, pedir o melhor cappuccino do Velho Oeste. E contemplar. E sentir. E viver.
É dessas calçadas- tão eternizadas em músicas e poemas- que nasce a vida. Que nascem as pessoas.
Outro dia, vi uma cena linda. Um casal de velhinhos (e já poderia parar por aí), cada um com os seus, chutando, 80 anos, seguindo lentamente contra o fluxo. Ele de chapéu e bigode grisalho. Ela, de vestido florido e numa cadeira de rodas.
Impressionou-me a leveza com que ele a conduzia pelas ruas esburacadas. Era como se o tempo tivesse parado e ambos ainda tivessem 20 anos, quando ele a conduzia pela valsa matrimonial na noite do casamento- muitas bodas atrás.
Aquilo mexeu comigo; afinal, em tempos tão sombrios como aqueles em que vivemos, a realidade nos chama a atenção e nos mostra que é nas coisas simples que encontramos a salvação.
Foi ali, na esquina da Santa Clara, que entendi, com ajuda daquele casal desconhecido, o que é amor.
O resto é o resto.

Written by Marcos M.

November 20, 2014 at 4:57 pm

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Esperança

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A quinta-feira era de sol e eu caminhava lentamente pela rua cheia de árvores aqui perto de casa. Olhei para cima e reparei nos galhos que se cruzavam uns com os outros, permitindo a passagem de tímidos raios de sol pela calçada.
Silenciaram-se carros e pessoas ao meu redor e aquele final de tarde tornou-se só meu.
Hoje acordei sufocado pelo excesso de ausência e, quando a vida nos se torna insustentável, não há nada mais terapêutico do que pegar as chaves, sair de casa e caminhar, descobrir, desbravar o mundo- mesmo que esse mundo sejam as ruas do seu bairro.
Desde cedo, sou assim. Andarilho, lutando contra piratas no quintal lá na velha casa de Teresópolis.
Costumo dizer que todo escritor é um observador e comigo não é diferente. A poesia está no cotidiano, basta treinar o olhar.
Naquele final de tarde, as pessoas mesmas pessoas e carros ganharam um contorno especial diante dos raios de sol saindo em meio às árvores.
Perdi-me nos pensamentos caóticos, sentei para tomar um café e só observei esse mundo colorido que tentava se mostrar para mim.
De volta à realidade do meu apartamento, abri a janela e foi quando uma borboleta amarela pousou bem na minha frente. Com medo de assustá-la, num suspiro profundo, prendi a respiração.
Assim como veio, ela se foi.
Da janela, fiquei parado, sentindo a brisa que trazia consigo o cheiro de mudanças de uma nova estação.
Em dias assim, quando tudo parece perdido, é preciso buscar formas de reencontrarmos a esperança. E eu acho que a esperança tem a cor de uma borboleta amarela.

Written by Marcos M.

November 20, 2014 at 4:53 pm

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Ação!

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A melhor pedida para um sábado de chuva: meus filmes, minha cama e nada mais. Largo um pouco a detetive Benson e a maratona da minha nova obsessão televisiva Law & Order SVU- nova para mim, claro, tendo em vista que a série está no ar há uns 15 anos. Bom, isso não importa. Eis que me deparo com a belezura do Apenas Uma Chance, filme que retrata a história de vida do Paul-não-sei-o-quê, vencedor do Britain’s Got Talent.
Antes de seguir, caro leitor, você precisa saber de um detalhe minimamente constrangedor: quando se trata de reality shows, sou uma manteiga. Faltam-me lágrimas para aquelas audições que mostram histórias de superação; alguém que, imerso na intempéries cotidianas, quase desistiu da música e voltou a cantar ali no palco para os jurados, levando a plateia ao delírio. Nossa, como eu choro.
Seguindo…
Decidi apertar o play e pronto. Lá fui eu conhecer a história do galês Paul Potts, um cara que, desde cedo, era obcecado por ópera, Pavarotti e cujo sonho era poder viver dessa Arte. Na escola, a intimidação dos valentões. Em casa, a incompreensão de um pai turrão. Bastavam os fones para que esse garoto fosse levado ao universo paralelo para o qual só a música consegue nos levar.
É claro que, às vezes, a vida nos prega muitas peças e o Paul acabou vendendo celular em uma pequena loja da cidade dele. Deu tudo errado…até dar tudo certo e ele vencer o programa, indo cantar para a rainha. Valeu, Beth!
Não preciso dizer que, assim que ele aparece vestido de palhaço cantando Vesti la Giubba num karaokê de quinta, logo no começo do filme, eu já estava soluçando no sofá.
Eu me vi em Paul Potts. A música nos salva mesmo.
Desde pequeno, a ficção- seja nos filmes ou nos livros- me ajudou a suportar um mundo que, muitas vezes, não consigo entender. As melodias falam por todos nós. Talvez por isso o meu fascínio por Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly e essa tchurminha do barulho.
Volta e meia, me imagino num filme e, hoje, foi um daqueles dias: coloquei meu fone e saí pelas ruas imaginando histórias para as pessoas ao meu redor, em tomadas do novo Woody Allen.
A mulher carregando a sacola de compras indo para casa, para onde, na minha cabeça, iria dar um banquete à noite.
O casal de namorados planejando os detalhes do casamento.
O menino (órfão) de mãos dadas com a avó.
Todas histórias inventadas, claro.
Isso tudo ao som de Chat Baker, pois para um dia branco e preto- na minha cabeça, evidentemente, porque os termômetros marcam uns 40 graus-, nada melhor do que as melodias melancólicas do jazz.
A vida deveria mesmo ser como um filme e, sem a trilha sonora adequada, nossa, ela seria muito, mas muito chata.
Corta!

Written by Marcos M.

November 18, 2014 at 5:02 pm

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Serendipidade

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Foi naquela tarde de quarta que ele começou a acreditar nisso que chamam por aí de destino.
Logo cedo, pegou o carro, que não quis ligar. Sem insistir muito, decidiu ir de metrô para o trabalho. Por que não?
Sairia às 16h, como sempre. Entre papéis e ligações, saiu precisamente às 16h07m, correndo para o analista.
No meio do caminho, recebeu uma ligação, pedindo para adiar a consulta em uma hora.
Tudo bem, tomaria um café e leria seu livro.
Se foi o acaso, não saberia dizer.
Eram 17h03m quando chegou ao cruzamento da Paissandu com a Marquês de Abrantes. Olhou para o relógio. “Dá tempo”.
Entre a multidão, viu um rosto que lhe parecia familiar.
Prestes a se perder no mar de gente, era Ela. Ao menos, parecia ser.
Depois de todos esses anos, dificilmente confundiria aquele rosto.
Tinha os 20 segundos de um sinal fechado para tomar um decisão.
Pensou.
Hesitou.
3,2…
Chamou-a pelo nome.
No mesmo instante, o sinal abriu, as pessoas, correndo ao seu redor, seguiram adiante e ela se virou- o mesmo rosto angelical de 10 anos atrás, talvez um pouco envelhecido, mais maduro. O rosto pelo qual se apaixonou. Os mesmos trejeitos. A mesma forma doce de jogar o cabelo para trás da orelha, quando não sabia o que dizer.
Toma um café comigo?
O pôr-do-sol refletia na mesa da varanda em que estavam sentados.
Entre um cappuccino e um croissant, resumiam-se 3.650 dias de distanciamento, sufocados pelo não-dito.
Na calçada, os transeuntes seguiam apressadamente suas vidas.
E se o carro tivesse funcionado? E se não tivesse entrado naquele metrô? E se o analista não tivesse cancelado?
Se fora o acaso, não sabia dizer.
Foi naquela tarde que começou a acreditar nisso que chamam por aí de destino.

Written by Marcos M.

August 17, 2014 at 3:51 pm

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1 minuto de silêncio

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Caro Robin,

Em uma das cenas do filme O Homem Bicentenário, você interpretou um robô em busca da própria humanidade. Vendo geração após geração de pessoas queridas morrendo, seu personagem, Andrew, lança a seguinte frase: “não é justo as pessoas chorarem e eu não; é uma dor que eu não consigo expressar”, lembra?
Hoje me sinto meio Andrew.
Foi assistindo aos seus filmes que guardo boa parte das minhas memórias.
Nunca me esquecerei de quando, lá nos idos de 1993, você me fez querer ter uma babá como a Mrs. Doubtfire- um pai fantasiado de babá, para poder ficar mais perto dos próprios filhos.
Ou de quando, um pouco mais adiante, você me fez sonhar, ao lado da Julia Roberts, quando lançou um novo olhar sobre o Peter Pan, o menino que não queria crescer.
Ou mesmo quando me fez ficar maluco atrás de um jogo igual ao Jumangi pra jogar.
Cresci ao seu lado. Cresci assistindo aos seus filmes.
Nesses mundos do faz-de-conta, Robin, você falou com todos nós.
Nas últimas cenas d’O Homem Bicentenário, o robô Andrew consegue, sim, ser reconhecido como humano e ganha o título de homem que mais viveu na história. Fique tranquilo, meu caro, pois você viverá muito, muito mais de 200 anos, estou certo.
Como o robô que queria ser gente ou o menino que não queria crescer, sua arte tocará gerações por vir.
Nestas palavras tortuosas- que sempre me faltam em momentos como este-, ficam o meu lamento e, acima de tudo, o meu obrigado.
Sigamos em frente.
Um abraço carinhoso do
Marcos
11/8/2014

Written by Marcos M.

August 11, 2014 at 9:35 pm

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O guardador de rebanhos IX

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Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

- Alberto Caeiro

Written by Marcos M.

August 9, 2014 at 10:57 am

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Quixotesco

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don_quixote_and_sancho_panza

Inspirado por Daumier e Cervantes, sigo meio quixotesco por esses dias, lutando contra gigantescos moinhos de ventos imaginários. Todos nós, aliás. A diferença é que poucos percebem. Treinemos o olhar.

Written by Marcos M.

August 5, 2014 at 3:54 pm

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