O INVENTOR

Pegue o liquidificador, misture teatro, cinema, tv, literatura, uns outros ingredientes e…voilá.

Antíteses

leave a comment »

TUDO ESTÁ PERDIDO

Uma grande amiga historiadora, após o término do doutorado, decidiu desbravar novas áreas do conhecimento foi correr atrás de um sonho antigo: estudar Psicologia. Bravo! Depois de consolidar uma carreira, resolveu começar do zero, escrever uma nova página. Que orgulho.
Eis que ela se viu, então, de volta às cadeiras do primeiro período da faculdade e, consequentemente, convivendo com jovens de seus 18 anos. Dia desses, eis que ela me liga, quase às lágrimas.
O caso foi que, em uma das aulas iniciais- Introdução a sei-lá-o-quê-, o professor discutia algo sobre culpa coletiva, apontando, por exemplo, a questão de alemães que até hoje, anos e anos depois, ainda carregam consigo a culpa da Segunda Guerra e tal.
Um menino levanta a mão e traz à tona um debate sobre a ditadura e o AI-5, dizendo que, de certa forma, também se sentia culpado. Apesar de questionável, vá lá.
Do nada, imersa em suas anotações, minha amiga sente alguém cutucando seu braço. Era a menina do lado, com um ar incrédulo e confuso, pronta para lançar a seguinte pergunta:
- AI-5 é o quê? Um celular?
Encerrou por hoje, meus amigos.

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

É fato que os conflitos na faixa de Gaza só ilustram a perspectiva dos tempos sombrios em que vivemos. Só que, às vezes- bem às vezes mesmo-, temos a sensação de estarmos fazendo a coisa certa. Hoje tive um desses momentos.
A quilômetros e quilômetros da zona de conflito entre israelenses e palestinos, em uma pequena sala de aula na zona sul do Rio de Janeiro, adolescentes de 16, 17 anos me fizeram acreditar que, sim, ainda há motivos para acreditar em alguma transformação. Em um debate que tinha tudo para dar errado, vi surgir nos rostos desses jovens a busca pelo saber e pelo entendimento. Um cessar fogo temporário, ainda que tão distante.
Sigamos lutando com as palavras, meus caros.
É preciso lutar.
É preciso debater.
É preciso sobreviver.

Written by Marcos M.

July 23, 2014 at 7:51 pm

Posted in Uncategorized

África

leave a comment »

Aconteceu num debate, num país europeu. Da assistência, alguém me lançou a seguinte pergunta:

- Para si, o que é ser africano?

Falava-se, inevitavelmente, de identidade versus globalização. Respondi com uma pergunta:
- E para si, o que é ser europeu?
O homem gaguejou. Não sabia responder. Mas o interessante é que, para ele, a questão da definição de uma identidade se colocava naturalmente para os africanos.
Nunca para os europeus. Ele nunca tinha colocado a questão ao espelho.
- Mia Couto

Written by Marcos M.

July 22, 2014 at 7:12 pm

Posted in Uncategorized

Eponine

leave a comment »

“Now, for my trouble, promise me–”

And she stopped.

“What?” asked Marius.

“Promise me!”

“I promise.”

“Promise to give me a kiss on my brow when I am dead.–I shall feel it.”

She dropped her head again on Marius’ knees, and her eyelids closed. He thought the poor soul had departed. Eponine remained motionless. All at once, at the very moment when Marius fancied her asleep forever, she slowly opened her eyes in which appeared the sombre profundity of death, and said to him in a tone whose sweetness seemed already to proceed from another world:–

“And by the way, Monsieur Marius, I believe that I was a little bit in love with you.”

She tried to smile once more and expired.

Written by Marcos M.

July 10, 2014 at 8:36 pm

Posted in Uncategorized

Vitória nossa

leave a comment »

O que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia?
Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos, nem aos outros. Não temos nenhuma alegria que tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve a bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de sermos inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e de ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor a nossa indiferença, disfarçando nossa indiferença com angústia, disfarçando com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado, por termos a sensata mesquinhez de lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sidos ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo”, e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, e por isso todos nem sabem se amam. Temo sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de franqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia…
- Clarice Lispector

Written by Marcos M.

July 5, 2014 at 3:28 pm

Posted in Uncategorized

Rocky, o lutador

leave a comment »

Outro dia, no trem a caminho de central London, vi algo que me chocou muito. Era um anúncio de uma organização protetora de animais abandonados. No anúncio, eles mostravam uma foto do Rocky, um bulldog, cujo dono, ao decidir que não queria mais uma cachorro, decidiu dar um tiro no próprio bicho. Um tiro. Graças à atuação dos veterinários, o Rocky conseguiu sobreviver e estava se recuperando. Não consigo entender, meus amigos. De verdade. É cruel, é brutal, é desumano. Volta e meia, a gente vê ali na Avenida Brasil animais entre os carros, já repararam? Animais cujo destino é lutar contra os carros e tentar escapar do inevitável atropelamento. Descobri que muitos são levados pelos próprios donos e largados ali à própria sorte. “O que os olhos não veem o coração não sente”.
Sente, sim. E muito.
Ah, dá muito trabalho. Não quero mais.
Ah, ter que chegar do trabalho e levar pra passear? Tô fora.
Ah, tá latindo alto. Morra!
Como se fosse um brinquedo usado e descartável.
Nunca vou me esquecer desta cena. Meu primeiro cachorro morreu aos 12 anos, de um problema respiratório crônico, em casa, nos braços do pai. Sofremos muito. Chegar em casa e não ouvir os latidos que, aparentemente, incomodam tanto. Ver a coleira pendurada e saber que ele não estaria mais se enroscando nela- ou mordendo tentando escapar. Ver vazios os potes de ração e de água. Dói. É uma ausência presente que custa a passar. Se é que passa.
Não entendo o fato de alguém, arbitrariamente, decidir brincar com a vida desses pequenos grandes companheiros.
É, meus caros, acho que aquele tiro no Rocky acabou mesmo acertando em mim.

Written by Marcos M.

July 1, 2014 at 3:53 pm

Posted in Uncategorized

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

leave a comment »

Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras 
fatigadas de informar. 
Dou mais respeito 
às que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo. 
Entendo bem o sotaque das águas. 
Dou respeito às coisas desimportantes 
e aos seres desimportantes. 
Prezo insetos mais que aviões. 
Prezo a velocidade 
das tartarugas mais que as dos mísseis. 
Tenho em mim esse atraso de nascença. 
Eu fui aparelhado 
para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: 
Amo os restos 
como as boas moscas. 
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. 
Porque eu não sou da informática: 
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

- Manoel de Barros

Written by Marcos M.

June 7, 2014 at 6:17 pm

Posted in Uncategorized

Tagged with

Obrigado

leave a comment »

Um dos meus contos favoritos de Clarice Lispector é Feliz Aniversário, sobre a comemoração do 89o aniversário da matriarca de uma família. Sempre tão habilidosa na arte de, por meio da linguagem, falar com- e sobre- todos nós, Clarice nos levas aos lugares mais escuros da alma: a velhice, a melancolia, a decrepitude. O Fim.
A verdade é que, à medida que envelhecemos e a percepção da finitude humana se faz presente, tudo muda. Perdemos a paciência para algumas coisas, refletimos mais profundamente sobre outras. No instante infinito, tudo pode mudar.
Pra mim, tudo mudou quando eu conheci o Pedro, um moleque de 11 anos, como outro qualquer. Quase.
A diferença é que, na época em que o conheci, ele travava uma luta desigual contra o câncer. Davi contra Golias. No INCA, muitas histórias são marcantes, mas a imagem dele nunca vai sair da minha cabeça. Em uma tarde, ele me cutucou e, com dificuldade de fala, pois havia um aparelho preso à garganta, disse que se submeteria a um novo procedimento em breve e soltou as palavras que me derrubaram. “Ontem foi meu aniversário”.
Confesso que uma lágrima tímida quis sair, mas me contive. Ele não precisava de pena, precisava de força- a mesma força que recolhi em mim para lhe dar um abraço bem apertado e lhe desejar parabéns.
Um menino que, aos 11 anos, deveria estar correndo, brincando, vivendo- não trancado por trás das paredes frias de um hospital, sufocado pelo excesso de morte..
Quando saí da sala, chorei, chorei até secarem as lágrimas.
Recentemente, descobri que o Pedro perdeu a batalha contra o gigante Golias, e a esse velho guerreiro- preso num corpo tão frágil- eu dedico estas palavras bobas, mas de coração.
A vida já me pregou muitas, muitas peças, meus amigos. Já fui internado às pressas. Duas vezes. Já perdi pessoas muito queridas. Já tive um problema sério de coluna, que exigiu muita fisioterapia. Faz parte da brincadeira.
Tenho ouvido muito a música Redescobrir, da eterna Elis. “Redescobrir o gosto e o saber da festa. Renascer da própria força, própria luz e fé”. É isso. É tempo de Recomeçar.
No dia do meu aniversário, quero dizer que me sinto inspirado por todos que cruzam- e já cruzaram- o meu caminho.
Obrigado, muito obrigado.
Com carinho,
Marcos

Written by Marcos M.

June 4, 2014 at 2:52 pm

Posted in crônicas

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.